quinta-feira, 24 de julho de 2014

Des[água]

Divulgação 
Texto e imagens do Coletivo ALMA 


Montagem teatral de rua do coletivo ALMA (Aliança Libertária Meio Ambiente) trata da mercantilização da água como metáfora para discutir a expansão desordenada e desigual das cidades. A partir do teatro épico e com músicas especialmente compostas para a peça, o grupo propõe a reflexão sobre o processo de urbanização nas várzeas dos rios brasileiros.

Foto: Annaline Curado
Foto: Annaline Curado

Estreado em junho de 2013, no Largo do Rosário, em Mogi das Cruzes, o espetáculo teatral [Des]água é fruto de uma expedição de dez meses pelas comunidades do Alto Tietê, conhecendo as riquezas, belezas e contrastes da região, e de uma intensa pesquisa artística (que incluiu intervenções performáticas às margens do Rio Jacú). Sua montagem e primeira temporada foram realizadas com recursos do PRONAC – Programa Nacional de Apoio à Cultura, do Ministério da Cultura, contando com mais de trinta apresentações distribuídas pela zona leste de São Paulo e municípios da região das Cabeceiras do Tietê. Agora, o espetáculo retorna à circulação em uma segunda temporada, contemplada pelo ProAC - Programa de Incentivo à Cultura do Estado de São Paulo, levando provocações e diversão a outros municípios da região metropolitana, interior e litoral paulista entre julho e setembro.


Dirigidos por Edgar Castro, artista da premiada Cia. Livre, e Rani Guerra, do também premiado grupo Esparrama, o Coletivo Alma encena a história de dois povos (o povo bacia, que celebra a natureza, e o povo pneu, que aprisiona a força das águas) e que, após um conflito, se veem afetados pelos destroços de uma enchente. A fábula mostra de forma crítica e lúdica os processos de ocupação do beira-rio. 



O povo “bacia” se caracteriza pela proximidade e integração com o ambiente natural, ligado aos ciclos da terra e aos ritos, conservando traços de povos primitivos e comunidades tradicionais. A textura dos figurinos faz alusão à natureza animal do ser humano. O povo “pneu” carrega marcas das transformações civilizatórias, não no aspecto do desenvolvimento tecnológico, mas no endurecimento e na brutalidade, consequências do crescimento desenfreado das cidades. Com câmaras de pneu, material sintético, preto e facilmente reconhecível, as criaturas rasgam o lirismo do início do espetáculo e instauram o clima tenso, apesar de cômico, que se perpetua até o final da encenação. Tudo isso é mostrado por cinco atores e três músicos que atuam, cantam e tocam instrumentos ao vivo durante todo o espetáculo.


Foto: João Claudio de Sena
A obra participou das seguintes mostras e festivais: 1ª Mostra Área Viva de Teatro de Rua e Floresta, em Rio Branco, Acre; Festival de Inverno da Serra do Itapety, em Mogi das Cruzes; 5ª Mostra de Teatro de Rua de Guarulhos e 8ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, em São Paulo. A temporada tem início no dia 30/07, quarta-feira, às 16h, na Praça do Patriarca, centro de São Paulo e em agosto se estende para as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, Carapicuíba, Atibaia, Águas de Lindóia, Socorro, Cananéia e Itanhaém. Confira o serviço completo ao final.


Foto: Aline Guarizo




Serviço:

[Des]água, com o Coletivo ALMA


- Dia 30 de julho e dias 06,13 e 20 de agosto (quartas-feiras), às16h
São Paulo, Praça do Patriarca, Centro.

- Dia 04 de agosto (segunda-feira), às 16h
Carapicuíba, Parque Gabriel Chucre

- Dia 05 de agosto (terça-feira), às 16h
Santo André, quadra da Escola Estadual João Baptista Marigo Martins, Estrada do Pedroso, 3989, 
Jardim Riviera .

- Dia 10 de agosto (domingo), às 16h
Águas de Lindóia, Praça Adhemar de Barros

- Dia 11 de agosto (segunda-feira), às 19h
Socorro, Praça Nove de Julho

- Dia 17 de agosto (domingo), às 15h
Cananéia, Praça Martim Afonso de Souza (Praça Central)

- Dia 18 de agosto (segunda-feira), às 15h
São Bernardo do Campo, Praça Santa Filomena, Centro.

- Dia 25 de agosto (segunda-feira) às 16h
Atibaia, Campo de futebol do Jardim das Cerejeiras.

- Dia 27 de agosto (quarta-feira) às 19h
Itanhaém, Praça Central

Atividades gratuitas. Em caso de chuva as apresentações em espaço aberto serão canceladas. 

Duração - 50 minutos.
Classificação etária – livre.

Ficha técnica

Criação: Coletivo ALMA
Direção geral: Edgar Castro
Co-direção (2ª temporada): Raniere Guerra
Dramaturgia: coletivo ALMA, com colaboração de Rogério Guarapiran e Thiago Nascimento 
(2ª temporada)

Elenco

Adilson Fernandes “Camarão”
Alexandre Falcão
Ana Rolf
Fabrício Zavanella
Gabriela Maurelli
Letícia Elisa Leal
Mauro Grillo
Thiago Nascimento
Thiago Winter
Direção musical: Raniere Guerra

Preparação corporal: Mauro Grillo e Thabata Ewara

Figurinos e cenografia: Samara Costa

Assessoria de imprensa: Eliana Maurelli e Jonilson Montalvão

Produção executiva: Marcello Nascimento de Jesus

Produção artística: Alexandre Falcão e Letícia Elisa Leal


Comunicação Coletivo Alma 

Jonilson Montalvão: 97038-6836 (TIM)
Eliana Maurelli:  95252-1801(Oi)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Liberdade para criar, liberdade para ver

por Julio Canuto


Em postagem anterior, falando sobre arte, criatividade e sociedade, deixei vários trechos sobre a obra de Fayga Ostrower, e no final citei Pierre Bourdieu, em trecho sobre a escola em um dos artigos reunidos em A economia das trocas simbólicas. Porém, uma leitura são várias leituras e na sequência disso algumas experiências me fizeram pensar na liberdade para criar e na liberdade para ver, conhecer. Descrevo aqui duas experiências. A primeira foi há dois meses, em 06 de maio, no Sesc Pinheiros, em São Paulo; a segunda foi em 15 de junho, no Museu de Arte de São Paulo - MASP.


HERMETO PASCOAL (SESC PINHEIROS, 06 de maio de 2014)

Sempre que assisto a uma apresentação de Hermeto Pascoal, volto a me surpreender (mesmo que isso pareça contraditório). A sonoridade de Hermeto e seu grupo nos faz ver no palco a presença e criatividade de uma pessoa que, aparentemente, não foi inculcada com as convenções sobre música e arte. O que vale é experimentar. A música se faz ao tocar, ao cantar. Pergunte qual é o estilo de Hermeto e ele responderá a você: música universal! E música é isso mesmo. Só pode ser isso. Música é ritmo, é harmonia, é melodia, é estado de espírito. E isso pode ser compreendido por qualquer pessoa que esteja disposta a conhecer, experimentar. Abaixo as simplificações dos rótulos.  

Documentário Os sons de Hermeto.


A INUSITADA COLEÇÃO DE SYLVIO PERLSTEIN (MASP, 15 de junho de 2014)

Uma coleção com o que Sylvio Perlstein foi reunindo durante 50 anos, e que o mercado não apostava. Perlstein não seguia tendências, tinha uma visão diferente sobre arte, gostava das criações que fugiam do banal:
Eu não sei o que é arte. Eu não sei o que é ‘bom’ ou não. Eu passeio. Eu flano. Eu não quero nada em particular. Eu não sei exatamente o que eu fiz. Eu não sei exatamente como tudo começou. Há coisas que me intrigam e me perturbam. Para que algo se ative, é preciso que seja enigmático. E difícil, também. Senão não é interessante. Não é excitante (Sylvio Perlstein).
São cerca de 150 obras, divididas em seis seções: Dada/Surrealismo; Fotografia Vintage; Novo Realismo/Pop Art; American Painting; Minimal Art; Arte Conceitual/Land Art/Arte Povera.

Sim, Perlstein esteve imerso no ambiente de artistas, acompanhando alguns deles. Mas além da preciosidade das obras expostas, a exposição vale ainda mais para se pensar a arte como relação, nunca como algo pré-definido e apreendido nas escolas. Pois é isso: a liberdade de criar (condição de ser humano) é também a liberdade de ver, liberdade de conhecer. Não se trata de uma ação possível apenas a quem tem um "dom", como muitas vezes se faz pensar, mas sim uma forma de estar no mundo. O que cria é o mesmo que duvida, conhece, investiga, vê, sem pré-conceitos. É para sair do MASP não apenas admirando o que lá está, mas para sair com a provocação de testar seu olhar, observar e pensar as coisas de maneiras diferentes.

A exposição começou em 06 de junho e vai até 10 de agosto. Não perca.

domingo, 22 de junho de 2014

Musica tema da Copa: ouça aqui

por Julio Canuto


Ótima música, que diz não só sobre Copa, mas sobre todo o atual contexto político, econômico e social.

Mas espere aí. Se você está procurando aquele barulho de mau gosto interpretado por três bonecos fabricados pela indústria cultural, não é aqui que irá encontrar. Trata-se de outra música, que por acaso me veio à mente em meio a festa, protestos, manifestações, yelow blocs e tudo mais que agitam o mês junino nas terras tupiniquins.

Ah, não devemos nos esquecer que 2014 é também ano de eleições: deputado estadual, deputado federal, governador, senador e presidente. Ufa! E...por acaso (!?)...o ano em que "todos" estão indignados a ponto de xingar a presidenta em plena abertura de Copa do Mundo, apesar de desembolsarem milhares de reais para participarem da festa (mas isso é só detalhe), mostrando toda a educação e elegância do "povo-nobre". 

Tem de tudo: lutas justas, oportunismo, barrigas vazias, barrigas cheias e empanturradas... 

Época de desavenças, que começa quando alguém pensa que ninguém mais tem razão.
Época de descrença, que com a desconfiança e a doença são partes da maldição.
Época de ignorância, que com a sordidez e a ganância são lavas desse vulcão.
Mas ainda bem que aprendi da importância de não dar muita importância e ficar com os meus pés no chão. E por isso essa fumaça a minha janela embaça por fora, por dentro, não.
Aprendi tetra, penta e hexa depressa que a taça do mundo é nossa e que São Paulo é meu sertão.

Ouça a música Aprendiz de feiticeiro, do genial Itamar Assumpção, com a Banda Isca de Polícia.


Aprendiz de feiticeiro
Aprendiz de feiticeiro
Aprendiz de feiticeiro
Aprendiz de feiticeiro
Aprendi quando criança que além de tudo
Balança
Esse nosso mundo cão
Aprendi que quem não dança, já dançou na sua infância
Senão rock foi baião
Aprendi da importância de não dar muita importância
Ficar com os meus pés no chão
Aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França
Mesmo indo de avião
Aprendi que a desavença é por que sempre
Alguém pensa
Que ninguém mais tem razão
Aprendiz de feiticeiro
Aprendiz de feiticeiro
Aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça
Tomando champanhe ou não
Aprendi que a descrença, a desconfiança e a doença
São partes da maldição
Aprendi que a ignorância, a sordidez e a ganância
São lavas desse vulcão
Aprendi que essa fumaça a minha janela embaça
Por fora, por dentro, não
Aprendi tetra depressa que a taça do mundo é nossa
E que São Paulo é meu sertão
Aprendiz de feiticeiro


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Criatividade: potencial da condição de ser humano (Fayga Ostrower)

por Julio Canuto


6621. 1966. Xilogravura a cores 
sobre papel de arroz. 47,5 x 29,5 cm.


Retomando, agora de maneira mais específica, o assunto da postagem de 04 de fevereiro de 2014, Um rolê pelas ideias, na qual falava sobre as alternativas de entretenimento e cultura na periferia, das dificuldades da atuação dos grupos de arte nestes locais e da lógica do rentismo especulativo, passo a apresentar um interessante trabalho teórico da artista plástica Fayga Ostrower (1920-2001) - com algumas de suas obras ilustrando a postagem).


Nascida em Lodz, na Polônia, Fayga mudou-se para o Brasil em 1934, com residência no Rio de Janeiro. Cursou Artes Gráficas na FGV. Como artista plástica, foi gravadora, pintora, desenhista, ilustradora. Também foi teórica da arte e professora no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, além de outras universidades brasileiras, lecionando também nos EUA e Inglaterra.


Em obra de 1977 intitulada "Criatividade e processos de criação"(28a edição, Ed.Vozes, RJ, 2013, 186 págs.), Fayga trata o problema da criatividade não como reflexão teórica, o que já seria uma obra interessante, mas como ponto central de nossa experiência vital. Não tenho a pretensão de explicar a obra, nem mesmo irei me alongar relacionando o conteúdo com outras questões. Faço apenas algumas observações e deixo alguns trechos, todos do primeiro capítulo, apenas como estímulo à leitura.

A criatividade - a liberdade de criar - é o potencial da condição de ser humano. Como processos de criação trata das condições individuais e sociais para que a criatividade floresça, com análise histórica das condições sociais nas quais importantes transformações culturais ocorreram. Por isso, Fayga inicia a introdução da seguinte forma:
O tema deste livro é a criatividade. O enfoque, o ser humano criativo.Consideramos a criatividade um potencial inerente ao homem, e a realização desse potencial uma de suas necessidades (p.5).
Em uma sociedade massificada, totalizante, a condição de ser humano é sufocada.

5823. 1958. Xilogravura em preto sobre papel de arroz. 29,7 x 84,5 cm
Site do Instituto Fayga Ostrower

Fayga trata do homem como ser consciente-sensível-cultural. A consciência e a sensibilidade são heranças biológicas, enquanto a cultura é fruto do desenvolvimento social do homem. "O comportamento de cada ser humano se molda pelos padrões culturais, históricos, do grupo em que ele, indivíduo, nasce e cresce" (p.11). Isto é, vinculado a padrões coletivos, mas com desenvolvimento individual. Ao viver, o homem transforma a natureza e também se transforma. Ao mesmo tempo que percebe as transformações, também se percebe nelas. Daí também a importância da memória como forma de compreensão da sua formação.


Sem Título. 1947. Linóleo em preto 
sobre papel de arroz 31,5 x 22,1 cm.


A percepção é a forma consciente da sensibilidade. Isto é, elaboração mental das sensações em formas organizadas (ordenadas).

Mais um trecho para elucidar a definição acima:
Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo da atividade, trata-se, nesse "novo", de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar (p.9).
Para criar, é necessário que o indivíduo tenha sua sensibilidade estimulada, e para isso sua atividade deve lhe ser significativa. Tudo isso pode parecer óbvio. No entanto, se olharmos para nossa história política e econômica, veremos que os valores do mundo cotidiano são os da produtividade, do foco no resultado, da fragmentação do trabalho, donde a ruim sensação da diminuição do tempo "útil". Mas como, se hoje temos tanta tecnologia ao nosso alcance, tanta informação de maneira rápida? Aparentemente contraditória, essa sensação refere-se à produtividade exaustiva, em prejuízo da contemplação. Daí a alienação, o que implica diretamente no bloqueio da sensibilidade.

Em nota de rodapé ela deixa uma tarefa para sociólogos:
...para se realizarem as potencialidades individuais dentro do quadro de possíveis propostas culturais, será sempre também uma questão de níveis de integração que existam em uma sociedade e se proponham aos indivíduos. Todavia, este é o problema da alienação e seria objeto de estudos sociológicos da criatividade, com específicos conhecimentos teóricos e específica metodologia. Levantada a questão, fica a tarefa de analisá-la e interpretá-la para um especialista da matéria (p.17-18).
Apenas para dar um exemplo da gravidade do tema: esses bloqueios aparecem no sistema de ensino, responsável pela integração cultural (1) em nossa sociedade, quando estimula a competitividade, avaliando a memorização de dados, ao invés de valorizar as dúvidas. É notório que os documentos internacionais e as diretrizes educacionais nacionais apontam para um caminho de aprendizagem que estimule a criatividade, mas até mesmo as formas de avaliação de escolas e docentes acabam se contaminando pelo valor da produtividade. A escola, portanto, se vê pressionada entre os valores sociais atuais e os esforços para proporcionar o desenvolvimento do potencial criativo do indivíduo. O mesmo se dá com o pouco estímulo a iniciativas artísticas fora das características de espetáculo, como falamos na postagem citada no início deste texto.

A obra de Fayga vai muito além da abordagem inicial apresentada nesta postagem.

Para finalizar, deixo os títulos dos capítulos:

I. Potencial
II. Materialidade e imaginação criativa
III. Caminhos intuitivos e inspiração
IV. Relacionamentos: forma e configuração
V. Valores e contextos culturais
VI. Crescimento e maturidade
VII. Espontaneidade, liberdade



____________________

Conheça o site do Instituto Fayga Ostrower: http://www.faygaostrower.org.br/

Leia o primeiro capítulo de Criatividade e processos de criação, 28a edição, Ed.Vozes, RJ, 2013, 186 págs. clicando AQUI.

(1) BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas simbólicas. 7ª edição – São Paulo: Perspectiva, 2011.

VARIAÇÕES DO MESMO TEMA:





Tempo livre. Você tem?, janeiro de 2014.



domingo, 25 de maio de 2014

O povo brasileiro

por Julio Canuto

A TV Cultura está reprisando o documentário O povo brasileiro, dividido em episódios. Baseado na obra homônima do antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro (1922-1997), o documentário, passados quase 20 anos de sua produção, continua material essencial para o conhecimento da nossa formação como povo, que originado a partir das matrizes indígena, lusitana e africana, dentro das quais as várias etnias que as compõem com diferenças radicais no modo de entender o mundo e a vida, com diferentes cosmologias, aqui se chocaram e formaram uma identidade única no mundo, sincrética, e por isso bastante complexa.
Para os que chegavam, o mundo em que entravam era a arena dos seus ganhos, em ouro e glórias. Para os índios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver. Este foi o efeito do encontro fatal que ali se dera. Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros tal qual eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções, não só diferentes mas opostas, do mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Os navegantes, barbudos, hirsutos, fedentos, escalavrados de feridas de escorbuto, olhavam o que parecia ser a inocência e a beleza encarnadas. Os índios, esplêndidos de vigor e de beleza, viam, ainda mais pasmos, aqueles seres que saíam do mar. (Darcy Ribeiro. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Cia das Letras, 1995)
O povo brasileiro é a ultima e mais importante obra de Darcy. Abaixo você tem o documentário na íntegra. São quase quatro horas e meia, brevíssimo tempo para a quantidade de conhecimento registrado na obra de Darcy. 


Idealização e Direção: Isa Grinspum Ferraz 
Roteiros: Antônio Risério, Isa Grispum Ferraz, Marcos Pompéia 
Produção Executiva: Zita Carvalhosa 
Direção de filmagem: Flávio Frederico, Mauro Farias 
Direção de fotografia: Adrian Cooper, Carlos Ebert, José Guerra 
Direção de arte: Rico Lins 
Direção de produção: Fernanda Senatori 
Montagem: Idê Lacreta, Vânia Debs 
Trilha Original: Marco Antônio Guimarães 
Edição de som / Mixagem: Eduardo Santos Mendes, João Godoy 
Coordenação pesquisa de arquivo: Stella Grisotti 
Abertura: Rico Lins, Siron Franco 
Narração: Matheus Nachtergaele

Participação Especial 
Chico Buarque 
Tom Zé 
Gilberto Gil 
O depoimento de Darcy Ribeiro foi filmado na cidade de maricá em junho de 1995


Direção de filmagem: Rafic Farah 
Direção de fotografia: José Guerra 
Produção: Carolina Vendramini 
Técnico de som: Guilherme Ayrosa 
Produtores Associados: Fundar - Fundação Darcy Ribeiro / Texto e Imagem


Publicado no canal de Senhor da Voz no youtube.




domingo, 4 de maio de 2014

Domingo

por Julio Canuto


Chuva. UrbanArts: digital art & design
Hoje o dia tá assim...... desbotado! Todas as cores de ontem se desgastaram. Não dá vontade de comer. Não dá vontade de beber. Não dá vontade de ver ninguém. 
Também não há ninguém em casa.
Não há nem música - só o relógio na cozinha contando os segundos, bem concentrado, com bastante cuidado para não perder a conta: TIC... TAC... TIC... TAC... TIC... TAC.... Segundos que nunca passaram tão devagar. 
O domingo não quer ir embora. Quer aproveitar o final de semana até o último "TAC". Só ele parece ainda animado! Ninguém mais tá afim.
Os moços já guardaram suas motos. As moças já tiraram a maquiagem (ah, esse bairro jovem!) O padre já se retirou. O bar já fechou. Daí o domingo fica assim, com essa cara de "emburrado". E solitário, acaba chateando todos.
Mas todo final de semana é assim: ele vem sempre depois do sábado. Chega de manhã com um sorriso tímido, um sol que não esquenta. Compra o jornal, vê um pouco o futebol de várzea, come um pastel na feira, almoça já bem tarde. Daí é só sofá! E quando parece que vai terminar o dia assim, pelo contrário: é à noite que ele se anima - quando estão todos desanimados.
E insiste em ficar.
Veja só: eu já me despedi dele. Mas ele tá aqui, ainda do meu lado.
Vou tentar um acordo, que é pra ninguém sair chateado: vou sair e dar uma volta com o domingo. Andamos, conversamos. E quando ele já estiver enturmado saio na surdina, deixo ele na esquina.
E quando ele voltar já estou dormindo.
E quando eu acordar, já será segunda...

(texto de maio de 2007, revisão em maio de 2014)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalhador

por Julio Canuto

Olha a Hora, de Hudson Melo.
UrbanArts: digital art & design
Como sociólogo e, portanto, pesquisador, deixo como mensagem para o Dia do Trabalhador um trecho dos registros de José de Souza Martins reunidos em A sociologia como aventura (Editora Contexto, 2013. 351 páginas), em que ele fala de seu trabalho como pesquisador e educador, em especial suas experiências nos cursos para trabalhadores no interior do Brasil. Martins é um grande estudioso do cotidiano e do homem simples, trabalha com fotografia e até mesmo com o onírico. No trecho a seguir, algumas questões sobre a pesquisa empírica, a relação entre pesquisador e pesquisado, técnicas de pesquisa e descobertas muito interessantes, como as palavras da cortadora de cana do interior de São Paulo que traduz de forma simples e exata a exploração do trabalho. 
    Aliás, a Sociologia é inviável sem a pesquisa empírica, pois é na pesquisa empírica que as inovações teóricas se propõem. Nenhum verdadeiro clássico da Sociologia criou coisa alguma sem a pesquisa empírica e mesmo o trabalho de campo. Nem Weber, tido indevidamente como modelo de sociólogo que dispensa o trabalho de campo. Do mesmo modo que os chamados resenhões do já dito pelos grandes sociólogos estão muito longe de constituir trabalho verdadeiramente teórico, original e criativo.   É verdade que no privilegiamento do trabalho de campo sempre se corre o risco de ouvir a pergunta difícil que ouvi certo dia, num povoado do Maranhão, de um homem simples que me observava curioso enquanto eu entrevistava crianças de uma escola: "Vem cá: além de bater papo com as pessoas, você trabalha?" Ou, pior ainda, quando fui procurado por uma jovem no barraco em que eu me arranchara, no mesmo povoado, e de sopetão perguntou ao grupo que ali se encontrava: "Cadê o cientista que chegou aí?" Fiquei entre preocupado com a possibilidade de que era mais uma observadora trabalhando para a repressão e feliz por saber que ali, nos confins do sertão, uma cidadã lúcida me tratava apropriadamente pela qualificação que eu tinha. "Sou eu mesmo", respondi, orgulhoso. Ela não teve dúvida: estendeu-me a mão aberta e ordenou: "Então, leia a minha mão!"    Mas há aí, também, a riqueza teórica potencial que na pesquisa empírica emerge da aguda consciência das contradições do vivido. Não poucas vezes, foi nos cursos que dei para trabalhadores, usando a técnica da pergunta que provoca respostas densas e esclarecedoras, e das respostas como ponto de partida do esclarecimento, que fiz descobertas sobre a concepção popular da realidade que podiam dar novo rumo ao meu trabalho. Num curso para cortadores de cana no interior de São Paulo, pediram-me para lhes explicar por que, tendo que trabalhar mais, ganhavam sempre menos, o que mediam pela crescente redução da capacidade de compra de seu salário. Disse-lhes que o nome disso era exploração do trabalho, embora achassem que eram explorados pelos vendeiros. E pedi a cada um que me explicasse o que o fazia pensar que era explorado. Uma cortadora de cana relativamente jovem, mãe de família, me explicou que sabia que era explorada porque quando fazia amor com seu marido, seu corpo doía. Mas seu corpo não doía quando estava cortando cana no canavial, no trabalho pesado de uma jornada inteira, de sol a sol. Era explorada porque seu corpo já não era seu: pertencia ao canavial. Nesse sentido, a própria fala de quem depõe, derivada da pergunta dirigida do sociólogo, raramente revela as dimensões ocultas e invisíveis, profundas, tanto da consciência do homem comum quanto do modo como ele vive e interpreta as relações sociais.Ao mesmo tempo, a pesquisa empírica em si mesma em nada contribui para descobertas e aprimoramentos teóricos senão com base na pesquisa teórica, na dialética de teoria e pesquisa. (MARTINS, J.S. Sociologia, ciência da esperança. In: A Sociologia como Aventura. Ed. Contexto, São Paulo, 2013. p.242-243)



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia Nacional do Choro

por Julio Canuto



Hoje, 23 de abril, comemora-se o Dia Nacional do Choro. 

Como disse Heitor Villa-Lobos, o choro é a essência e a alma da música do Brasil. Mistura de danças de salão europeias como a polca e a valsa (estrutura melódica e harmônica), rítmica africana e a melancolia na interpretação do índio brasileiro, é a primeira música urbana genuinamente brasileira, com primeiros registros por volta da segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro. 

Mais antigo que o samba e que o jazz, o choro tem coração e técnica. Nas rodas os clássicos são tocados sempre com variações, com improvisos, a ponto de músicos já com grande estrada, prêmios e experiência, chegarem devagar, aprendendo com quem já faz parte do meio. É a verdadeira escola dos músicos brasileiros. Tem alegria e tristeza. Não precisa de letra, pois sua linguagem é universal, embora algumas letras também estejam na memória dos brasileiros, mesmo os que nunca voltaram seus ouvidos para o choro.

A data foi escolhida por ser o aniversário do grande patrono do choro: Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha. Nascido a 23 de abril de 1897, no Rio de Janeiro, Pixinguinha foi flautista, saxofonista, arranjador e um dos maiores compositores da música popular brasileira, contribuindo decisivamente para o formato musical definitivo do choro (veja mais AQUI e AQUI).

Em comemoração ao dia do choro, publicamos o filme documentário Brasileirinho (2005), dirigido por Mika Kaurismaki. O filme, em seus 90 minutos, mostra grandes músicos brasileiros como Guinga, Paulo Moura, Zé da Velha, Yamandú Costa, Trio Madeira, Luciana Rabello e Maurício Carrilho, entre outros, falando sobre a história do choro, as formas como se aproximaram do choro, bem como de seus instrumentos, encontrando-se no palco. 

Antes, porém, uma homenagem ao patrono do choro, na bela composição de Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro, que conta a história de Pixinguinha no samba Som de Prata e o bem trabalhado vídeo publicado por Daniel Lunardelli no youtube, que exibe imagens do Rio de Janeiro e de Pixinguinha





BRASILEIRINHO