segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Entre compras e solidariedades

Regiane Santana

Imagem de Instituto Alana
 (Feira de Troca de Brinquedos)
Em meio outras coisas que o clima Natalino desperta, talvez o que mais nos saltas aos olhos, é o clima de solidariedade que se espalha por todos os cantos. Dentre eles a vontade latente* de presentear as "crianças carentes”.  

Palavras como: criança, presente e brinquedo são quase que sinônimos. Daí meu estranhamento desse comportamento aparecer somente nesta época do ano. Criança brinca todos os dias com ou sem brinquedo.  Comumente vemos pessoas divulgando em suas timelines seus feitos de presentear crianças com seus “montes” de brinquedos, vemos também pessoas procurando por Instituições carentes para “adotarem” uma criança e assim presenteá-la. Depois de escolhida a criança, começa a corrida frenética atrás dos presentes, o que era pra ser um prazer passa a ser um fardo a carregar - o que comprar? O que não comprar? Tá caro? Isso não vamos levar porque a criança é carente e não vai precisar disso! - Por mais absurdo que possam parecer essas frases, eu posso garantir que as escutei, e não foi só uma vez.

É preciso compreender que hoje em dia entregar um produto a uma criança não é mérito (e nem bondade) de ninguém. Digo produto porque se ele é destituído de prazer, ele não é mais um presente. Um presente, bem como sugere a palavra, é a lembrança naquele exato momento, ou seja, algo que é oferecida a outra pessoa como forma de carinho e atenção. 

Então não engane suas almas bondosas, pensando que mandar um presente ou entrega-lo contribui para tirar aquela criança do seu estado de carência. Acho que está claro que não sou contra presentear crianças carentes, mas que precisamos perceber mais quais são suas carências, que em geral são afetivas. Elas (as crianças) querem conversar, contar suas histórias, seus feitos durante todo um ano, o que passou na escola, o irmãozinho que nasceu, etc. Elas querem é falar, e falar também é brincar. E se for pra ser solidário, que tal OUVIR uma criança? Entre bonecas e carrinhos, com abraços e beijinhos eles gostam mais!!!

domingo, 7 de dezembro de 2014

Sobre a WEB

por Julio Canuto

Na verdade, as tirinhas a seguir são sobre comportamento na web e, principalmente, nas redes sociais. Todas de André Dahmerforam retiradas do site www.malvados.com.br, onde há muito mais sobre este e outros temas. 





 







quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Bocó


Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas na beira do rio até duas horas da tarde, ali também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia de ver aquele moço a catar caracóis na beira do rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Foi o que o moço colheu em seus trinta e dois dicionários. E ele se estimou.

Manoel de Barros

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sistema político e participação política

por Julio Canuto

A autorização de referendo ou plebiscito passa necessariamente pelo Congresso Nacional. É enganosa a ideia que está sendo colocada, como se a presidente fosse lançar, por conta própria, um plebiscito. Mesmo porque, se assim o fizesse, seria uma medida inconstitucional.
João Montanaro. Folha de S.Paulo, 01/11/2014.

O mês eleitoral foi tenso, desgastante, repugnante até. Dei uma olhada nas postagens sobre a eleição anterior, de 2010. Naquela época eu ainda tentava argumentar contra o fogo cruzado eleitoral, as trocas de acusações e, pior ainda, as mensagens preconceituosas, raivosas, contra uns e outros. Poderia usar as mesmas postagens esse ano, trocando apenas o nome do candidato de oposição. Por isso deixei de escrever neste período.

Se é verdade que, como disse o cientista político José Murilo de Carvalho na ultima semana, "a baixaria é típica de democracia imatura" e que "em matéria de etiqueta política, ainda comemos com a mão", me assusta pensar, nesta época de decisões eleitorais, que estamos regredindo, pois saímos de um período de efervescência dos movimentos populares, passamos pela construção da Constituição Cidadã, construímos um moderno sistema eleitoral, para chegarmos a um debate político dominado pelo marketing, onde as propostas de governo são o que menos importa, com projetos impossíveis de serem realizados, anunciados apenas para satisfazer os interesses dos diversos grupos políticos, econômicos e sociais. Ainda assim penso que acabado o embate promovido pelo marketing as coisas se acalmarão, pois a rotina se impõe. 

E algo que continua sem solução são as tão faladas reformas. Mais uma vez o tema da reforma do sistema político veio à tona e tomou boa parte do debate. No entanto, em  2010 ele também foi debatido. Exceto a aprovação e aplicação da chamada Lei da Ficha Limpa que, diga-se, de iniciativa popular, nada avançou. E pior, parece não avançar. Portanto, financiamentos de campanha continuarão a serem feitos por grandes empresas, que esperarão receber a contrapartida por parte do candidato eleito, dentre outras práticas que favorecem a corrupção, desvia o Estado de suas funções e geram outros problemas.

CONTRATEMPOS

A presidente Dilma passou a afirmar que colocaria a reforma política em votação popular através de plebiscito. Congressistas a criticaram, afirmando que a Câmara e o Senado, eleitos pelo povo, são representantes legítimos e por isso podem votar a reforma política. Alguns dos congressistas acreditam que um referendo seria uma medida justa.

Ao mesmo tempo que essa discussão ganhava destaque, em 28/10, a Câmara derrubou o Decreto Presidencial nº 8.243/2014, que vinculava decisões governamentais de interesse social à opinião de conselhos populares.

A mídia, muitas vezes trabalhando para a desinformação, relacionou os dois casos e está alarmando nos editoriais e nos textos de alguns colunistas (me refiro sobretudo a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo) que estamos prestes a nos tornarmos um Estado bolivariano, e que isso seria o totalitarismo (na verdade o incômodo é pela proposta de regulação ou controle social da mídia, que coloca o dedo em uma grave ferida brasileira: a concentração da mídia, mas isso já é uma outra história). 

Este fato revela muito do fazer política no Brasil, por isso vou propor a análise sob dois pontos de vista: o da representação popular e o da Constituição. 

REPRESENTAÇÃO POPULAR: CONFIANÇAS E DESCONFIANÇAS SOBRE O CONGRESSO NACIONAL, MOVIMENTOS SOCIAIS E CONSELHOS POPULARES

Sim, há razão no argumento de que o Congresso eleito é o representante legítimo da vontade popular. Está na Constituição. Na prática, porém, sabemos do descrédito que Câmara e Senado carregam. 

Uma simples pesquisa, como o Índice de Confiança Social (ICS) realizada anualmente pelo IBOPE Inteligência, mostra o nível de confiança da população com 18 instituições. E as duas instituições com menor taxa de confiança são o Congresso Nacional e os partidos políticos. Abaixo a tabela mostra os dados de 2014, em percentuais de confiança:

Você ai se lembra em quem votou para deputado e senador? Pois é, são essas pessoas que propõem e votam as leis que influenciam na sua vida. São essas pessoas que vão tratar da Reforma Política. Mas enfim, foram eleitos!

Por outro lado, e aqui retomando a questão da rejeição do Congresso Nacional do decreto presidencial 8.243/204, uma das críticas (e justificativa para a rejeição) da oposição é que os Conselhos seriam "instrumentalizados" pelo governo. Sim, a cooptação é uma marca de nosso sistema político e social, desde antes da República, do nosso fazer política que tantas vezes atrapalha nosso desenvolvimento. No entanto, se estes espaços são ocupados majoritariamente por militantes ou simpatizantes dos partidos de centro-esquerda ou esquerda, isso é resultado do histórico de construção desses partidos, de suas bases, por mais que alguns acabem deixando suas ideologias de lado, estabelecendo alianças antes impensáveis para a permanência no poder. É verdade também que há outros tantos movimentos populares que não levantam bandeiras partidárias. Portanto, os argumentos não devem ser construídos com base apenas em um lado da história. Conselhos, audiências públicas, fóruns e outras iniciativas existem aos montes pelo país, e penso que muitas vezes o problema é o inverso: a falta de efetividade dessas atividades na definição da agenda política e nas ações do executivo. 

Enfim, para finalizar esta parte, todos esses instrumentos são válidos para ampliar a participação, dentre os quais os que trato a seguir e que está no centro do debate sobre a reforma política.

PLEBISCITO E REFERENDO

Afinal de contas, o que é plebiscito e o que é referendo? Quais as principais diferenças entre elas? Porque o debate é tão intenso? Consulta popular pode se transformar em golpe? 

De fato há variadas formas de definição e até mesmo uso, ao longo da história, dos plebiscitos e referendos. O plebiscito já foi tido como sinônimo de referendo, mas também como forma de legitimar atos estatais que se concluíram em golpes. A respeito dessas variadas formas de definição de Plebiscito, o Dicionário de Política de Norberto Bobbio, nos informa que:
Assim, há quem defenda que existe Plebiscito, quando o povo delibera sobre um assunto sem ato prévio dos órgãos estatais, cuja presença caracterizaria o referendum. Mas tal definição é contestada pela existência de Plebiscitos, realizados para ratificar atos estatais, como, por exemplo, a aprovação da constituição de 22 de brumário do ano VIII, que abriria caminho ao golpe de Estado de Napoleão I (Gladio Gemma. Plebiscito. In: BOBBIO, 1998. p.927).
Fica claro, portanto, que as críticas atuais não são mera invenção, mas a retomada de uma questão que tem suas evidências históricas. No entanto, levando em consideração toda a evolução histórica do conceito, conclui Gemma:
dada a sua normal excepcionalidade, se usa mais freqüentemente o termo Plebiscito para indicar pronunciamentos populares não precedidos por atos estatais, máxime sobre fatos ou eventos (não atos normativos) que, por sua natureza excepcional, não contam com uma disciplina constitucional (idem).
Ou seja, essencialmente, o que diferencia o plebiscito do referendo é que, no primeiro caso, a população vota antes da criação do ato normativo, enquanto que no segundo a população expressa se aceita ou recusa o ato normativo já criado. 

O mais importante de tudo é o que está na Constituição (que deveria ser a primeira a ser consultada).  Está lá, em seu Capítulo IV - Dos Direitos Políticos, no Art. 14:

Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:
I - plebiscito, 
II -referendo 
III - iniciativa popular. 

Já no Título IV - Da Organização dos Poderes, em seu Capítulo I - Do Poder Legislativo, Seção I - Do Congresso Nacional, o Art.49, no item XV, deixa claro que é da competência exclusiva do Congresso Nacional (entre outras coisas) autorizar referendo e convocar plebiscito.

Portanto não há golpe, não há atropelo do Congresso. A autorização de referendo ou plebiscito passa necessariamente pelo Congresso Nacional. É enganosa a ideia que está sendo colocada, como se a presidente fosse lançar, por conta própria, um plebiscito. A afirmação da presidente de lançar um plebiscito deve ser entendido, na pior das hipóteses, como o uso político de um recurso constitucional, mas que não está ao seu alcance pura e simplesmente. Mesmo porque, se assim o fizesse, seria uma medida inconstitucional. A crítica deveria ser feita nesses termos, e não alardeando sobre o projeto de um Estado totalitário, que na verdade atende a outros interesses como exposto no início do texto. 

OPINIÃO

Particularmente penso que a reforma do sistema político, por englobar vários temas e várias visões sobre cada um desses temas, deve ser amplamente debatida (quem sabe as redes sociais se tornem uma importante ferramenta para isso?) e, neste sentido, entendo que o plebiscito seria a melhor maneira de se estabelecer os parâmetros nos quais a norma ou lei pudesse ser criada. Deixar a decisão exclusivamente a quem se beneficia do atual sistema me parece um grande equívoco.

O que espero ansioso é que este assunto não caia no esquecimento, sendo resgatado apenas em 2018, para impressionar eleitores durante a campanha presidencial. Em 2010 foi assim.

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REFERÊNCIA

BOBBIO, Norberto, 1909- Dicionário de política I Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. - Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1 la ed., 1998. Vol. 1: 674 p. (total: 1.330 p.) Vários Colaboradores. Obra em 2v.

DALLARI, D.A. Conselhos populares e democracia participativa. Migalhas, 24/06/2014.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

VOTO SEVERINO*

Texto de introdução: Julio Canuto.

Para além das provocações e textos de altíssimo teor preconceituoso, o texto abaixo, uma crônica, é apenas para avisar aos desinformados que há, sim, racionalidade nos votos. Seja os "do sul" ou "do norte", como muito se tem falado. Se aqui a voz é do nordestino é porque considero que contra ele foram feitas as mais graves agressões. O problema, em um regime democrático, é querer impor a sua opinião sobre os demais, como se estivéssemos em um contexto em que uma parcela da população detém o monopólio da verdade, e a outra é a pura expressão da ignorância. Mais proveitoso seria se entendêssemos as racionalidades envolvidas nos processos de escolha. Por que os chamados neoliberais estiveram no poder por três mandatos? Por que os populistas estão prestes a entrar no quarto mandato consecutivo? Ser brasileiro, este que em sua origem é ninguém (que não queria ser negro e índio para não ser escravo, mas também não podia ser português), que foi jogado a sua própria sorte, é ser justamente aquele que deve superar as diferenças, aquele que tem o dever de desvendar a complexidade do que lhe constitui. A América portuguesa tornou-se um só país, oficialmente em 1822. E é um só país! Nossas diferenças não são entre regiões e estados. Nossas diferenças estão expostas em nosso núcleo familiar. E a democracia é o dissenso!


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VOTO SEVERINO
* do matuto escrevinhadô Gustavo Rossetto.


Vem o cabra mais branco que o branco Nassau, mas longe de ser um branco como o branco que foi Nabuco, todo queixoso de que aqui pra cima o sujeito é abestado e não faz escolha direita; que lá pra baixo a terra é boa e a gente é lida e da lida, gente que ele diz que aqui pra cima não existe nem nasce. Mas o sertanejo, todo despudor e língua maior que a boca, não lhe deixou incontestado:

"Ói, cabra, que lhe digo de uma vez e uma vez só, que não me sobra muito tempo pra prosa porque a enxada tem que cavoucar fundo o massapê rachado: lhe pergunto quão negra é a dor da fome, preta toda como o céu do sertão, mas despovoada do punhado de estrela, molhada do último gosto de farinha e pelejando em não deixar o caboclo dormir; ouso falar ainda, cabra do sul, que lá a água não tem cor nem sabor, mas que teu filho tem professor e tem doutor. Não me diga, então, com a cabeça lambuzada de brilhante, que a sorte é amiga do suor, nem me diga que o caminho da tua graça foi tua mão que fez; verdade pela verdade, meu caminho já foi feito pela mão da parteira, assim como foi o teu, cabra. Deixe disso. Ave-Maria, que não me estranho com ninguém e não me ponho pra esse tipo de prosa que adoece a cabeça da gente. Mas vou lhe contar é uma história dessas que aqui teve quem não vingou pra poder ver, nem meu pai, nem minha mãe, Deus tenha junto. Veja você, se não foi obra de Padinho Ciço, foi a Virgem que botou o manto: só sei que a minha mesa se encheu e o menino virou o primeiro ano. Fez da mulher uma alegria danada, dava gosto de ver. A desacreditada da terra castigada pelo sol, que coisa, saiu da penumbra que matava mais que a carabina do poderoso Lampião. Meu menino, forte que só, veja ele ali botando o lápis e a brochura no embornal em que eu só botava semente. Se eu não fosse muito homem, corria lágrima de admirar. Quem é mais acertado pois então, eu ou tu? Se aqui se fizesse a mesma escolha que se faz lá no sul, era trazer de volta aquela sombra feita debaixo de sol, embiocada e aparecida qual tocaia de coronel, prontinha pra se alimentar. Lá pro sul, cabra, fazia dia enquanto aqui fazia noite, dois pedaços de chão separados nesse mundo. Agora que o sol deixou de castigar o sertanejo pra alumiar a sombra, não venha me pedir, não a mim que sou prova do que vivi, que eu faça a escolha lá do sul. Aproveita essa luz, cabra apessoado, e venha ver o que se tem feito desse lado. Chega de papo. Bora tomar um café agorinha passado?"



domingo, 5 de outubro de 2014

Uma cidade iluminada por resíduos não-recicláveis

por Julio Canuto

Imagem: daily geek show
Uma interessante notícia veio por e-mail - sim, ainda uso, e muito! - em uma conversa sobre recursos naturais e está publicada no site daily geek show: "Pela primeira vez na França, uma cidade é iluminada com os resíduos de seus habitantes" (a matéria, em francês, pode ser acessada clicando AQUI)

A cidade é Plessis-Gassot, e sua central de produção de energia, Electr'od, gera energia a partir do biogás, resultado da fermentação dos resíduos. 

A eletricidade produzida pela usina (130 000 MWh/ano), será capaz de abastecer cerca de 41.200 residências. Isso corresponde à produção anual de electricidade de 40 turbinas eólicas. Este é um grande passo adiante, porque com 10 motores com uma potência total de 17 MW e de 100 milhões de m3 de biogás processados ​​anualmente, a fábrica tornou-se a maior unidade francesa de produção de energia a partir do biogás. Tudo por um investimento de 16,5 milhões de euros. 

A cidade será capaz de produzir mais energia que o necessário, vendendo o excedente a  Rede de Distribuição de Eletricidade da França (Electricité Réseau Distribution France - ERDF) e utilizada por indivíduos e empresas, que passarão a se beneficiar da energia limpa e da sensível diminuição no custo. Outra contribuição do sistema é a diminuição das consequência da mudança climática, com o aproveitamento do gás metano, que quando não aproveitado contribui para agravar o efeito estufa.

Outras iniciativas como essa já ocorrem em outros países europeus. Esperamos que a ação se espalhe e se torne comum em vários países. O assunto e a tecnologia não são novas, embora ainda pouco utilizado, dado o potencial energético

Para saber de experiência da utilização do biogás no Brasil, basta uma rápida pesquisa em sites de artigos científicos. Abaixo, alguns exemplos. Clique no titulo para acessar:

COELHO, S.T., GARCILASSOV.P., VELAZQUEZ. Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás Proveniente de Aterro Sanitário – Estudo de CasoCENBIO – Centro Nacional de Referência em Biomassa.

COSTA, D.F. Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás do Tratamento do Esgoto. USP (Dissertação de Mestrado). São Paulo, 2006.

PNUD e MMA. Estudo sobre o Potencial de Geração de Energia a partir de Resíduos de Saneamento (lixo, esgoto), visando incrementar o uso de biogás como fonte alternativa de energia renovável. Arcadis Tetraplan. São Paulo. 2010.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

João do Rio - Esse ilustre desconhecido

por Leonardo André

João do Rio é um dos vários pseudônimos de Paulo Barreto. Nascido no Rio de Janeiro em 1881, foi um jornalista inovador, cronista, contista e teatrólogo. Ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Morreu jovem, prestes a completar 40 anos, em 1921, até hoje não teve o devido reconhecimento. 

Abaixo, segue o programa De Lá Pra Cá sobre João do Rio, exibido na TV Brasil, para você conhecer um pouco mais sobre esse ilustre brasileiro.


Antes porém, transcrevo o capítulo A Pintura das Ruas do livro A Alma Encantadora das Ruas, de 1908. Trata-se de uma de suas tantas crônicas que retratam o Rio de Janeiro do início do século passado. 

A Pintura das Ruas


Há duas coisas no mundo verdadeiramente fatigantes: ouvir um tenor célebre e conversar com pessoas notáveis. Eu tenho medo de pessoas notáveis. Se a notabilidade reside num cavalheiro dado à poesia, ele e Lecomte de Lisle, ele e Baudelaire, ele e Apolonius de Rodes desprezam a crítica e o Sr. José Veríssimo; se o sucesso acompanha o indivíduo dado à crítica, este país é uma cavalariça sem palafreneiros; e se por acaso a fama, que os romanos sábios confundiam com o falso boato, louva os trabalhos de um pintor, ele como Mantegna, ele como Leonardo Da Vinci, ele como todos os grandes, tem uma vida de tormentos, de sacrifícios, de ataque aos seus processos; e jamais se julga recompensado pelo governo, pelo país, pelos contemporâneos, de ter nascido numa terra de bugres e numa época de revoltante mercantilismo. É fatigante e talvez pouco útil. Um homem absoluta, totalmente notável só é aceitável através do cartão-postal — porque afinal fala de si, mas fala pouco. Foi, pois, com susto que ontem, domingo, recebi a proposta de um amigo:

— Vamos ver as grandes decorações dos pintores da cidade?

— Heim? Estás decididamente desvairando. As grandes decorações? Uma visita aos
ateliers?

— Não; a outros locais.

— E havemos de encontrar celebridades?

— Pois está claro. Não há cidade no mundo onde haja mais gente célebre que a cidade de S. Sebastião. Mas não penses que te arrasto a ver algum Vítor Meireles, alguns Castagnetto apócrifos ou os trabalhos aclamados pelos jornais. Não! Não é isso. Vamos ver, levemente e sem custo, os pintores anônimos, os pintores da rua, os heróis da tabuleta, os artistas da arte prática. É curiosíssimo. Há lições de filosofia nos borrões sem perspectiva e nas “botas” sem desenho. Encontrarás a confusão da populaça, os germes de todos os gêneros, todas as escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada.

Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas. Saí, devagar e a pé, a visitar bodegas reles, lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim arrasado de confusão cerebral e de encanto. Quantos pintores pensa a cidade que possui? A estatística da Escola é falsíssima. Em cada canto de rua depara a gente com a obra de um pintor, cuja existência é ignorada por toda a gente.

O meu amigo começou por pequenas amostras da arte popular, que eu vira sempre sem prestar atenção: os macacos trepados em pipas de parati, homens de olho esbugalhado mostrando, sob o verde das parreiras, a excelência de um quinto de vinho, umas mulheres com molhos de trigo na mão apainelando interiores de padarias e talvez recordando Ceres, a fecunda. Depois iniciou a parte segunda:

— Vamos entrar agora nas composições das marinhas. Os pintores populares afirmam a sua individualidade pintando a Guanabara e a praia de Icaraí. Por essas pinturas é que se vê quanto o “ponto de vista” influi. Há o Pão de Açúcar redondo como uma bola, no Estácio; há o Pão de Açúcar do feitio de uma valise no Andaraí; e encontras o mesmo Pão, comprido e fino, em S. Cristóvão. O povo tem uma alta noção dos nossos destinos navais; a sua opinião é exatamente a mesma que a do ministro da marinha — rumo ao mar! Por isso, não há Guanabara pintada pelos cenógrafos da calçada que não tenha à entrada da barra um vaso de guerra. A parreira como o bêbado tem uma conclusão fatal: carga ao mar!

— E depois? — Depois entramos nas grandes telas, as grandes telas que a cidade ignora. Estávamos na Rua do Núncio. O meu excelente amigo fez-me entrar num botequim da esquina da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram na parede da casa, alheio ao ruído, ao vozear, ao estrépito da gente que entrava e saía. Eu estava diante de uma grande pintura mural comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou de todos nós ao vermos a Avenida Central, resolveu pintá-la, torná-la imorredoura, da Rua do Ouvidor à Prainha. A concepção era grandiosa, o assunto era vasto—o advento do nosso progresso estatelava-se ali para todo o sempre, enquanto não se demolir a Rua do Núncio. Reparei que a Casa Colombo e o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro plano e que aos poucos, em tal arejamento, os prédios iam fugindo numa confusão precipitada.

Talvez esse grande trabalho tivesse defeitos. Os dos “salões” de toda a parte do mundo também os têm. Mas quantos artigos admiráveis um crítico poderia escrever a respeito! Havia decerto naquele deboche de casaria o início da pintura moral, da pintura intuitiva, da pintura política, da pintura alegórica... Indaguei, rouco:

— Quem fez isto?

— O Paiva, pintor cuja fama é extraordinária entre os colegas.

Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era café, era uma catedral dos grandes fatos. Na parede fronteira, entre ondas tremendas de um mar muito cinzento rendado de branco, alguns destroyers rasgavam o azul denso do céu com projeções de holofotes colossais.

— Há coisas piores nos museus.

— Mas isto é digno de uma pinacoteca naval.


O amador, que é o dono do botequim, e o artista cheio de imaginação, que é o Paiva, não se haviam contentado, porém, com essas duas visões do progresso: a avenida e o holofote. Na outra parede havia mais uma verdadeira orgia de paisagem: grutas, cascatas, rios marginados de flores vermelhas, palmas emaranhadas, um pandemônio de cores.

Quando me viu inteiramente assombrado, esse excelente amigo levou-me ao café Paraíso, na Avenida Floriano.

— Já viste a arte-reclamo, a arte social. Vamos ver a arte patriótica.

— E depois?

— Depois ainda hás de ver os artistas que se repetem, a arte romântica e infernal.

A arte patriótica, ou antes regional, dos pintores da calçada é o desejo, aliás louvável, de reproduzir nas paredes trechos de aldeia, trechos do estado, trechos da terra em que o proprietário da casa, ou o pintor, viu a luz. No café Paraíso, o artista, que se chama Viana, pintou a cidade de Lourenço Marques, vista em conjunto, mas, como qualquer sentimento de amor naquela elaboração difícil brotasse de súbito no seu coração, Viana colocou à entrada de Lourenço Marques um couraçado desfraldando ao vento africano o pavilhão do Brasil. Dessas pinturas há uma infinidade — e eu vi não sei quantas pontes metálicas do Douro ao atravessar algumas ruas.

— Entremos neste botequim, aqui à esquina da Rua da Conceição. Vais conhecer o Colon, pintor espanhol. Colon tem estilo: este painel é um exemplo. Que vês? Uma paisagem campestre, arvoredo muito verde, e lá ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da casa. É sempre assim. Há outros mais curiosos. O Oliveira completa os trabalhos sempre com cortinas iguais às que se usavam nos antigos panos de boca dos teatros. O trabalho é o abuso do azul, desde o azul claro ao azul negro.

— Mas estás a contar os tiques de grandes pintores.

— São parecidos. Eu conheço muitos mais: o velho Marcelino, que tem a especialidade de pintar os homens no pifão; o Henrique da Gama, o primeiro dos nossos fingidores, que faz um metro de mármore em cada cinco minutos; o Francisco de Paula, que adora os papagaios e faz caricaturas; o Malheiros, que reúne gatos, cachorros, cascatas e caboclos em cada tela. É o ideal da arte! São eles os autores dos estandartes dos cordões; são eles que enriquecem! Já entraste num desses ateliers, no Cunha dos PP, no Garcia Fernandes da Rua do Senhor dos Passos? Pois é como um desses studios da Flandres antiga, em que os grandes artistas assinavam os trabalhos dos discípulos, é como se entrasse na grande manufatura da pintura assinada. Vamos ao Cunha.

— Não, não, por hoje basta.

— Mas pelo menos vem admirar na Rua Frei Caneca 1660 famoso trabalho do Xavier.

— O famoso trabalho?

Se os outros, que não eram famosos e não eram de Xavier, tanta admiração me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier e sendo famoso. Precipitei-me num bonde, saltei comovido como se me assegurassem que eu iria ver a Joconda de Da Vinci, e, quando os meus olhos sôfregos pousaram na criação do pintor, uma exclamação abriu-me os lábios e os braços. Era simplesmente um incêndio, o incêndio de uma cidade inteira, a chama ardente, o fogo queimando, torcendo, destruindo, desmoronando a cidade do vício. Tudo desaparecia numa violentação rubra de fornalha candente. Seria o fogo sagrado, a purificar como em Gomorra, ou o fogo da luxúria, o símbolo devastador das paixões carnais, a reprodução alegórica de como a licença dos instintos devora e queima a vida?

Xavier fora mais longe. Aquele mar de incêndio, aquele braseiro desesperado e perene era a fixação do fogo maldito da luxúria, era o fogo de Satanás, porque Satanás, em pessoa, no primeiro plano, completamente cor de pitanga, com as pernas tortas e o ar furioso, abatia a seus pés, vestida de azul celeste, uma pobre senhora.

Esse último painel punha-me inteiramente tonto. Mas não é uma das grandes preocupações da Arte comover os mortais, comovê-los até mais não poder? Xavier comovia, eu estava comovido. Nem sempre é possível obter tanta coisa nas exposições anuais. O meu amigo levou o excesso a apresentar-me o ilustre artista.

— Aqui está o Xavier.

Voltei-me.

— Os meus sinceros cumprimentos. Há sopro romântico, há imaginação, há ardência nesta decoração, fiz com o ar dogmático dos críticos ignorantes de pintura. Ingenuamente, Xavier olhou para mim e, primeiro homem que não se julga célebre neste país, balbuciou:

— Eu não sei nada...Isso está para aí...Se soubesse fazer alguma coisa de valor até ficava triste — só com a idéia de que um dia talvez a levassem do meu país...


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Depois desse delicioso aperitivo, segue o programa De Lá Pra Cá, sobre João Do Rio.







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+ Para baixar o livro A Alma Encantadora das Ruas  clique aqui.

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domingo, 28 de setembro de 2014

Vitória dos Movimentos Culturais de São Paulo

por Julio Canuto

Após longa luta dos movimentos de cultura da periferia paulista, as Casas de Cultura retornam para a administração da Secretaria Municipal de Cultura. A oficialização ocorreu na noite da ultima sexta feira (26.09.2014), na Praça das Artes, no centro de Sampa.

A SMC, em sua página no portal da Prefeitura de São Paulo, afirma que o decreto "é resultado de mais de um ano de discussões entre as secretarias envolvidas e os movimentos culturais." 

Confira os 18 espaços transferidos: 
  • Casa de Cultura do Butantã (Butantã/zona oeste), 
  • Casa de Cultura Palhaço Carequinha (Capela do Socorro/zona sul), 
  • Casa de Cultura Salvador Ligabue (Freguesia do Ó-Brasilândia/zona norte), 
  • Casa de Cultura Chico Science (Ipiranga/zona sul), 
  • Casa de Cultura Itaim Paulista (Itaim Paulista/zona leste); 
  • Casa de Cultura Raul Seixas (Itaquera/zona leste), 
  • Casa de Cultura do Tremembé (Jaçanã-Tremembé/zona norte), 
  • Casa de Cultura Tendal da Lapa (Lapa/zona oeste), 
  • Casa de Cultura M’Boi Mirim (M’Boi Mirim/zona sul), 
  • Paço Cultural Julio Guerra (Santo Amaro/zona sul), 
  • Casa de Cultura Cora Coralina (Santo Amaro/zona sul), 
  • Casa de Cultura Manoel Cardoso de Mendonça (Santo Amaro/zona sul), 
  • Casa de Cultura São Miguel Paulista – Antonio Marcos (São Miguel/zona leste), 
  • Casa de Cultura Campo Limpo (Campo Limpo/zona sul), 
  • Casa de Cultura de Cidade Tiradentes (Cidade Tiradentes/zona leste), 
  • Casa de Cultura Brasilândia (Freguesia do Ó-Brasilândia/zona norte), 
  • Casa de Cultura Lajeado (Lajeado/zona leste) e  
  • Casa de Cultura São Mateus (São Mateus/zona leste). 

As próximas ações, que também constam do decreto, são:

Criação de uma comissão de transição da administração dos espaços, que será composta por representantes das Secretarias de Coordenação das Subprefeituras e de Cultura. 
Serão realizadas reuniões específicas com os gestores e subprefeitos, a fim de apresentar com clareza as diretrizes e colocar em discussão as propostas de ocupação destes locais estratégicos. 
Serão organizadas quatro audiências públicas do programa da Secretaria Municipal de Cultura destinado à construção colaborativa de políticas públicas, o #ExisteDiálogoemSP/CasasdeCultura. 

A SMC também informa que "após ter concluído a transição de sua administração, serão criados conselhos participativos das Casas, que ajudarão a definir o funcionamento dos espaços, atendendo às necessidades específicas de cada região".

Leia a notícia na íntegra, clicando AQUI.

O Fórum de Cultura da Zona Leste alerta:

Não sabemos  ainda em que condições estas casas retornam, a questão da estrutura, dos profissionais que estarão a frente disso, as supervisões de cultura, a  abertura de concurso público, dotação orçamentária própria, como é que  fica a questão da lei das casas de cultura, a forma de gestão, a  participação popular, a construção de ao menos uma casa para cada distrito,  enfim, uma coisa é certa: 

EXIGIMOS A CULTURA FORA DO BALCÃO DE NEGÓCIOS  por entender que CULTURA É DIREITO!  

O Decreto 55.547, de 26 de setembro de 2014 pode ser lido AQUI.

__________________________
FÓRUM DE CULTURA DA ZONA LESTE - FCZL - 
 #PelaLeideFomentoAPeriferia

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Manifesto pela Cultura na cidade de São Paulo. 09.agosto.2014: http://pulaomuro.blogspot.com.br/2014/08/manifesto-pela-cultura-na-cidade-de-sao.html

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O nobre Pacifismo de Bertrand Russell



Ele passou a vida inteira contra a guerra - mas como o legado de nosso mais famoso ativista da paz se sai diante de uma análise? 


Por Jonathan Rée*
Tradução Leonardo André


Ilustração de Martin Nicolausson / MP Arts

Bertrand Russell deve ser um dos intelectuais públicos mais célebres de todos os tempos. No início do século 20 ele ganhou fama internacional por suas contribuições para a lógica matemática e a defesa do "método científico na filosofia". Mais tarde, ele gerou muita polêmica ao questionar o cristianismo e a moralidade sexual tradicional. Mas na década de 1960, ele se tornou ainda mais famoso por conta de sua militância na causa do desarmamento nuclear e da paz: a questão, tanto quanto ele estava preocupado, não era apenas o bem-estar humano, mas indagar se "há futuro para o homem". Ao final de sua vida (ele morreu em 1970, aos 97 anos de idade), ele descreveu seu legado filosófico como algo "trivial" e indigno de atenção dos estudiosos, "pelo menos", como ele dizia, "se comparado ao valor existência humana".

Russell tornou-se o primeiro presidente da Campanha para o Desarmamento Nuclear em 1958, mas renunciou dois anos mais tarde, a fim de presidir o Comitê dos 100, em que prometia ser mais militante do que a CND, usando todos os meios necessários para que o governo britânico viesse a proibir a bomba.

"Há", ele escreveu,

um sentimento muito generalizado de que por pior que seja a política, não há nada que as pessoas privadas possam fazer a respeito. Este é um erro completo. Se todos aqueles que desaprovam a política do governo tomarem parte em grandes manifestações de desobediência civil,  poderiam tornar impossível a insensatez do governo e obrigar os chamados estadistas a concordar com medidas favoráveis à vida humana.

O impacto da retórica de Russell - seus sarcasmos astutos, certezas serenas e antíteses contundentes - foi reforçada pela imagen de um velho cavalheiro garboso sentado na rua com outros manifestantes e por ser preso em 1961 por violação da paz. Quando perguntado pelo magistrado se ele prometeria melhorar seu comportamento, ele disse: "Não, eu não" e foi condenado a sete dias de prisão em Brixton.

Mesmo para aqueles que não concordavam com ele, o idoso Russell tornou-se um emblema da retidão moral aliado a inteligência sobrenatural. Mas havia alguns que tinham dúvidas, tanto sobre sua análise da guerra e da violência, quanto sobre seu estilo carismático de liderança. Ele não era um pouco ansioso demais para fazer o papel de um salvador angelical? Um pouco interessado demais em apresentar-se como um intelecto prodigioso, que graciosamente descera das alturas do Olimpo para resolver a confusão que nós, terráqueos insensatos, nos  metemos? Ele não ficou, talvez, um pouco confortável demais em sua imagem de pessoa de princípios impecáveis e solitário contra toda a maldade dos políticos? E para aqueles com um senso de história também havia a suspeita de que ele estava voltando, na velhice, para aquele papel que ele havia criado para si mesmo de defensor da paz durante a Primeira Guerra Mundial, e que, em vez de aprender com o passado, ele estava simplesmente repetindo-o.

Sempre houve uma certa altivez sobre Russell, como pensador e como ativista. Ele nasceu na aristocracia, e recebeu a sua formação de professores particulares na casa palaciana de seu avô, Earl Russell, que serviu como Primeiro-Ministro da rainha Victoria. Ele então foi para o Trinity College, Cambridge, e depois de se formar, em 1895, recebeu uma grande herança e se tornou um cavalheiro de meios independentes. Ele começou a se interessar por política, pela agitação pelo comércio livre, publicou um estudo sobre o movimento socialista na Alemanha e defendeu o sufrágio feminino no parlamento em 1907. Mas ele também teve inclinação para as certezas da razão pura, e colocou-se a tarefa de reformar a matemática, fornecendo-lhe bases lógicas de um tipo nunca visto antes. Em 1903, expôs a sua visão de certeza transcendental em um pequeno livro chamado Princípios da Matemática, e ao longo da década seguinte, explorou suas implicações em três grandes volumes de Principia Mathematica, escrito com a ajuda do lógico A. N. Whitehead, que deixou incompleta em 1913.

Russell então retornou ao Trinity College para dar palestras sobre sua pesquisa, mas sua confiança foi abalada quando um jovem engenheiro austríaco chamado Ludwig Wittgenstein passou a fazer perguntas embaraçosas sobre a suposta realidade dos objetos da lógica e da matemática. Logo depois, a Grande Guerra eclodiu, e Wittgenstein partiu para lutar por seu país. Russell estava chocado - não porque Wittgenstein estava lutando do lado errado, mas porque ele estava lutando contra tudo - e ele anunciou então que se juntaria às "agitações pela paz", e que ele iria "desistir da filosofia" por isso. Em agosto de 1914 ele se juntou a vários amigos - nomeadamente Lady Ottoline Morrell ("totalmente imoral Ottoline Morrell" como algumas pessoas a chamavam) - na criação de uma organização anti-guerra conhecida como a União de Controle Democrático. A lógica matemática agora lhe parecia "uma ocupação um tanto fútil", e ele começou a dirigir reuniões de protesto, onde combateria a injustiça da guerra e o enganoso Estado britânico.

Mas ele acabou frustrado. Sua audiência consistia de ricos jovens românticos trajados em roupas da moda que gostavam de ter a sua rebeldia endossada por um filósofo famoso, mesmo que seu trabalho fosse, como eles mesmos admitiam, "totalmente além de nossa compreensão". Russell estava determinado a chegar a um público mais amplo - jovens de todas as classes que formavam até então um voluntariado ansioso para o serviço militar - e Lady Ottoline se ofereceu para ajudar. Em fevereiro de 1915 ela levou Russell a uma casa de campo em Sussex para encontrar seu jovem amigo D.H. Lawrence, famoso autor de Filhos e Amantes, romance que retratava a vida da classe trabalhadora. Lawrence compartilhou o desprezo de Russell para com a política de guerra, mas não acreditava que a paz poderia ser provocada por apelos abstratos a probidade, a razão e ao progresso. Depois de uma longa conversa Russell foi convertido. "Ele é incrível", disse ele a Morrell enquanto voltavam para Londres; "Ele é infalível ... ele vê tudo e tem sempre razão." Dentro de alguns dias, ele concordou em colaborar com Lawrence na construção de uma nova teoria política baseada na ideia de que as vidas humanas são moldadas por impulso irracional e não por um cálculo consciente. "Deve haver uma revolução no Estado," Lawrence disse a ele; "Deve começar com nacionalização de tudo... indústrias e meios de comunicação, da terra – e de um só golpe", e a revolução passaria pelo "casamento e pelo amor e por tudo... então, e somente então, começaremos a viver ".

Russell estava fascinado, e Lawrence correspondia, confessando uma "manifestação real de amor". Ele se sentiu "terrivelmente importante", quando foi convidado a se encontrar com amigos de Russell em Cambridge, e sonhava em inserir-se, proclamando que "a grande experiência de vida para cada homem é a sua aventura com a mulher." Mas ele logo descobriu que os membros do círculo de Russell, com seus apelidos brincalhões e vozes superiores, não estavam interessados ​​naquele tipo de coisa, e passou a odiá-los. Russell estava inclinado a concordar. Ele decidiu se juntar a Lawrence na formação de uma "pequena sociedade" para propagar a política da paz, e propôs iniciar com uma série conjunta de palestras públicas em Londres, no Outono.

Russell prontamente apresentou uma sinopse de suas palestras, baseando seu argumento no contraste proposto por Lawrence entre impulsos "possessivos", que levam à violência e à guerra, e impulsos "criativos", que florescem através do amor e da verdadeira democracia. Lawrence não ficou impressionado. Russell deveria abandonar a "consciência mental", disse ele, em favor do "conhecimento de sangue que vem ou através da mãe ou através de relações sexuais". Russell não estava preparado para ir tão longe. "Lawrence é um crítico tão feroz quanto Wittgenstein", ele confidenciou a Morrell, "mas eu acho que Wittgenstein está certo e Lawrence  está errado." Lawrence retaliou com brio ("Eu preferiria a rapinagem e a crueldade dos soldados alemães, do que suas palavras de bondade "), e desde então os seus caminhos divergiram.

Implacável, Russell levou suas leituras ao Caxton Hall, Westminster, na primavera de 1916, logo que o governo tornou o serviço militar obrigatório. Sua audiência incluía um grupo de amigos que dizia estar planejando indicá-lo ao cargo de Primeiro-Ministro - seu avô tinha sido um, afinal de contas, e ele era um aristocrata adequado ao cargo, e o plano certamente poderia ser efetivado conversando com as pessoas certas. Houve também um grupo de jovens admiradores, "deslumbrados", como um deles disse, com a perspectiva de "um intelecto de poder analítico aterrorizante... expondo e desintegrando as ilusões do patriotismo em tempos de guerra". A resposta de Morrell foi mais comedida.

"Foi uma ocasião bastante cômica", escreveu ela,

todos as baba-ovos que assistem palestras sobre qualquer assunto estavam lá, e entre eles havia um tal Capitão White, um tanto quanto doido, que fez um longo discurso sobre o sexo e o amor livre, ressaltando que se uma criança nasce de pais que se amam, um ao outro, não teria motivos para lutar... Então Vernon Lee levantou-se e fez um longo discurso sobre uma carteira de cigarros, agitando as mãos, com os óculos balançando...; e, claro, um representante das Artes e Ofícios que fez um discurso apaixonado e enfadonho - dizendo que a arte curaria qualquer tendência para a guerra. Bertie ficou na plateia comolhar infeliz. Por fim, ele teve que pedir-lhes para se sentarem.

Russell recebeu uma carta de Lawrence dizendo-lhe que suas palestras estavam fadadas a ser inúteis, mas Russel já não estava mais interessado; ele havia chegado à conclusão de que Lawrence era um egoísta monstruoso, sem o “real desejo de tornar o mundo melhor, repetindo seu monólogo eloquente sobre o quão ruim o mundo era".

Em matéria de eloquência autoindulgente, no entanto, Russell estava começando a demonstrar que poderia ser tão ruim quanto Lawrence. "Anseio levar ao país uma campanha “anti-guerra", disse ele, e ele certamente achou essa atividade gratificante; Lytton Strachey notou que seu triste amigo famoso "estava finalmente feliz - regozijando-se diante dos horrores e suas lições de moral". Russell não ficou desapontado quando, no final de maio, o Ministério da Guerra o processou por "fazer declarações susceptíveis de prejudicar a disciplina de recrutamento das forças de Sua Majestade". Ele só se irritou quando foi despojado de seu cargo no Trinity College e expulso de seus aposentos, mas ficou encantado quando uma aliança de ilustres colegas - incluindo alguns que não concordavam com ele sobre a guerra - protestou contra o tratamento desrespeitoso do governo dedicado ao aristocrático e renomado filósofo. Ele seguiu em frente e cumpriu sua pena de dois meses de prisão, calculando que iria gerar mais simpatia para a sua causa, mas o plano foi frustrado quando o conteúdo de seus aposentos foi apreendido e leiloado para pagar sua fiança. Em vez de ir para a prisão, ele partiu para uma turnê de palestras no sul de Gales, onde foi estimulado pelo entusiasmo de seu público da classe trabalhadora.

Em seu retorno, ele preparou um conjunto de discursos sobre os "ideais políticos" para apresentar em vários centros industriais no outono, mas descobriu que o Ministério da Guerra o havia impedido de visitar "áreas proibidas", como Glasgow, Edimburgo e Newcastle, por medo que seus "princípios viciosos" pudessem se espalhar entre os trabalhadores da indústria. (ele conseguiu levar seus discursos a Manchester e Birmingham, os quais foram prontamente publicados nos Estados Unidos, embora tenham sido proibidos na Grã-Bretanha). Seu caso foi repetidamente tratado no parlamento, para irritação generalizada: "Não seria economia de tempo para a Câmara e benefício para o país", como perguntou um membro do Tory, "se este homem fosse preso ou enviado para a Alemanha? "

As Palestras de Russell em Caxton Hall foram publicadas como Princípios de Reconstrução Social, no final do ano, e o idoso Conde de Cromer os condenou como "completamente perniciosos". Cromer admitiu que Russell era um "homem culto" e uma “pessoa superior – na verdade, muito superior”, mas sua teoria de impulsos "criativo" e "possessivo" era claramente "um incentivo para o ódio de classe", e ele parecia estar paralisado por um desejo de "martírio mental". A acusação de auto-glorificação foi aprovada, a partir de um ângulo diferente, por Lawrence: Russell e seus amigos eram, segundo ele, "antiquados, pacifistas atrapalhados e amantes da humanidade" – em suma, "a nossa doença, e não a nossa esperança".

O livro vendeu bem, e Russell se tornou "objeto de culto a heróis", como disse um observador; "Sua intransigência franca deu coragem a opositores de menos monta contra a guerra", e ele se tornou "símbolo de fé na razão e na tolerância". Quando um jovem e valente oficial chamado Siegfried Sassoon começou a perder a fé na guerra, Russell o recebeu em seu apartamento em Londres com bondade e paciência. "Seu intelecto científico austero foi muito além do meu alcance", como recorda Sassoon, mas quando Russell disse que ele poderia "servir o mundo por pensar de forma independente", ele o convenceu a proclamar sua oposição à guerra, e "assumir as consequências".

Russell estava feliz por ter ajudado Sassoon e alguns outros como ele, mas em 1917 ele estava chegando à conclusão de que suas tentativas de conter o caos da guerra tinham sido totalmente infrutíferas. Assim, decidiu retirar-se do ativismo e retornar à Filosofia. Ele havia perdido a confiança em sua capacidade de trabalho original  "principalmente por causa de Wittgenstein", como ele disse a Morrell – mas ele estava pronto para relançar a si mesmo como um escritor popular e professor freelance, mantendo um fluxo de comentários políticos dissidentes. Em seguida, em janeiro de 1918, ele publicou uma crítica precipitada sobre o exército norte-americano, que o levou a uma acusação de obstruir a diplomacia internacional e a uma pena de seis meses de prisão em Brixton.

A perspectiva de prisão não foi totalmente desagradável para Russell: estar à parte da publicidade política, proporcionou-lhe condições perfeitas para a escrita filosófica. Através de um recurso lhe foi atribuído a "Primeira Divisão" do sistema prisional, o que significava que ele seria tratado de forma adequada à sua condição social: permissão para usar suas próprias roupas, alugar um quarto privativo com seus próprios livros e mobiliário, comer o seu próprio alimento e empregar outros prisioneiros como empregados. (Tal opção tinha sido abolida quando ele voltou a Brixton mais de quarenta anos mais tarde). "A vida aqui é como a vida em um transatlântico", disse ele, e ele pode acompanhar os últimos movimentos da guerra ao obter de volta sua velha rotina e escrever a Introdução à Filosofia Matemática.

No verão de 1919, ele recebeu uma mensagem de Wittgenstein, que tinha sobrevivido aos perigos da linha de frente dos campos de batalha e agora estava aguardando liberação de um campo de prisioneiros de guerra na Itália. Wittgenstein esperava que eles pudessem reviver sua relação filosófica, e Russell, com sua generosidade habitual, marcou um encontro com ele, em Haia, em dezembro. Quando Wittgenstein mostrou-lhe um esboço do que se tornaria o seu Tractatus Logico-Philosophicus, Russell declarou ser um "ótimo livro", mas Wittgenstein não foi capaz de devolver o elogio: ele considerava Introdução à Filosofia Matemática de Russell superficial, equivocado e não regenerado . Russell não tentou defendê-la (era apenas um "livro popular", disse ele) e mesmo assim ele tinha outras coisas em mente. Logo depois, ele estava sendo homenageado em Barcelona, ​​não só como um lógico, mas como um militante heroico em nome da paz mundial, e, em seguida, ele fez uma turnê pela Rússia Soviética, discursando com Lenin, Trotsky e outros líderes revolucionários, antes de passar um ano alegre na China, onde ele pregava as virtudes do pensamento científico moderno para o público, que incluia o jovem Mao.

Apesar de todas estas aventuras – além de ter se divorciado e casado novamente e ter se tornado pai – Russell não esquecia Wittgenstein, que agora estava ensinando em uma escola primária nos Alpes austríacos. Em agosto de 1922 Russell estava passando pela Áustria em seu caminho para uma escola de verão italiano da Liga Internacional das Mulheres para a Paz e Liberdade, e marcou um encontro com Wittgenstein novamente. O encontro não foi um sucesso. Wittgenstein considerava o trabalho filosófico de Russell bobo e superficial, e ele ridicularizou a ideia de uma Liga pela Paz e Liberdade. "Eu suponho que você preferiria uma liga pela Guerra e Escravidão", Russell respondeu, e Wittgenstein replicou "eher noch!" - "Muito melhor, muito melhor!" Essa posição não era totalmente séria, claro: é óbvio ululante que a paz é melhor do que a guerra, e a liberdade preferível à escravidão, assim como a saúde é melhor do que a doença, e felicidade é preferível à depressão. Mas ele não estava brincando: diferenças políticas genuínas, pensou ele, não são resolvidas declarando-se o óbvio. Entretanto, ele respeitava as virtudes do antigo estadista: prudência, diplomacia e devida cautela sobre as consequências não intencionais da ação política. Apresentar-se como defensor da "Paz e da Liberdade" era um exercício de presunção e auto-propaganda, em vez de um ato heroico de virtude moral ou política, ou uma contribuição substancial para o bem comum. Russell pode ser um ateu na teoria, mas ele parecia estar se realizando como um pastor hipócrita. "Russell e os padres", como Wittgenstein diria, "tem feito um mal infinito, um mal infinito".

Parece-me que Wittgenstein tinha um ponto. A agenda da paz de Russell e seus seguidores sempre esteve baseada na suposição de que a guerra é simplesmente um eufemismo para a loucura do assassinato em massa patrocinado pelo Estado, e que poderíamos impedi-lo, direcionando-se para a sanidade moral e política –, comprometendo-nos com a justiça mundial e o fim da pobreza, por exemplo, ou a igualdade social e sexual, ou de propriedade, ou o um governo mundial, ou uma explosão de criatividade e sexo como na teoria D.H. Lawrence. Mas os caminhos para a guerra são pavimentados não apenas com maldade, mas com a certeza da justiça. As pessoas que optam por participar de ações militares são mais propensas a ser altruístas do que egoístas: estão preparadas para sacrificar suas vidas por causa de algo que as transcende, como o seu país ou a sua religião, ou o socialismo, o secularismo ou a democracia, ou um mundo onde a paz e a tolerância reinará para sempre. É claro que eles são responsáveis​​, como o resto de nós, por estarem seriamente equivocados de inúmeras maneiras: eles provavelmente têm uma escala de valores inconsistente, uma frágil compreensão dos fatos e senso de proporção imperfeito. Podem, assim, possivelmente, estar abertos à persuasão através da argumentação diplomática, negociação sutil e retórica engenhosa, mas nada vamos conseguir nada acusando-os de egoísmo, niilismo ou idiotice moral, ou dando palestras sobre auto-sacrifício, princípios elevados e o futuro da humanidade.

Diferentes ameaças à paz, como diferentes ameaças à saúde, exigem diferentes cuidados e intervenções diferentes, dependendo de cada caso individualmente, e sucesso em evitar a guerra vai depender da sorte, tanto quanto o julgamento. Se a perspectiva de extermínio nuclear tem diminuído desde o momento em que Russell estava profetizando isso, a explicação reside menos em campanhas pela paz e liberdade do que nas consequências inesperadas de acontecimentos que ninguém poderia ter previsto - os cálculos e erros de cálculo de Mikhail Gorbachev, para exemplo, ou a astúcia acidental de Ronald Reagan. A ironia é uma força da história, bem como uma figura de linguagem, e na política você precisa estar preparado para surpresas, mesmo se você é tão inteligente quanto Bertrand Russell.

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*Jonathan Rée se descreve como "filósofo freelance e historiador", mas qualquer um que tenha lido seu jornalismo amplamente divulgado irá conhecê-lo simplesmente como um dos melhores escritores de todos. Sua escrita tem aparecido em Evening Standard,  London Review of Books, Prospect,  Independent, Times Literary Supplement, entre muitos outros.


Este artigo foi trazido a você por New Humanist, uma revista trimestral de idéias, ciência e cultura.