segunda-feira, 20 de maio de 2013

A Virada ainda vira?

por Julio Canuto

Hoje pela manhã estava percorrendo os sites dos jornais para saber das notícias do dia e do final de semana, sobretudo da Virada Cultural, da qual nem havia visto a programação. No portal do Estadão, o título da notícia me chamou a atenção:  "SP tem Virada Cultural mais violenta; PM e Haddad culpam ‘vinda’ de ladrões". Como assim? - pensei.

No texto, a confirmação do meu espanto. Nas palavras do prefeito, publicadas na notícia:
"O comportamento das pessoas muda. Pessoas que não vinham vieram (à Virada, no centro) com propósitos diferentes", disse o prefeito Fernando Haddad (PT), ao comentar os resultados da primeira Virada de sua gestão. "Mas não podemos nos intimidar. Temos de ir para as ruas." A seu lado, o coronel Reinaldo Simões Rossi, comandante da PM, disse que o efetivo policial deste ano foi o maior de todos – 3.424 homens da corporação (350 a mais do que no ano passado) e 1.400 guardas-civis. "A PM tem expertise em policiamento de multidões. O comportamento dos protagonistas dos roubos, contudo, transcende qualquer planejamento", disse (ESTADÃO, 19 de maio de 2013|21h33m).

Com este recorte e ao lado do comandante da PM a frase do prefeito dá margem para várias interpretações e algumas dúvidas:  "pessoas que não vinham vieram com propósitos diferentes". Ao colocar a culpa nos de fora que vieram o prefeito afirma que a Virada é um evento excludente? De onde vieram estes com outros propósitos? Sendo de fora, só pode ter vindo das regiões onde não há a Virada. Aliás, há que se registrar que em 2007 (o único ano que me lembro) as atividades da Virada Cultural foram estendidas aos CEUs, nos bairros da periferia da cidade de São Paulo, mas não teve continuidade.

O governador se manifestou afirmando que "Precisamos verificar os locais em que são feitos. Tanto Estado como a prefeitura devem se debruçar nesse trabalho." (FOLHA DE S.PAULO, 20/05/2013|17h25).

Fico pensando quais serão as ações para prevenir que assaltos e demais cenas de violência voltem a acontecer nos locais onde acontece a Virada Cultural. Será que vão copiar o padrão FIFA e cercar as ruas, com entrada controlada? Neste caso, que sentido faria a Virada? 

Claro que isto é só uma provocação, mas é por essas e outras que já não vejo nenhuma graça na Virada Cultural. Nem ao menos me interesso em ver a programação - apesar de receber em mãos.

Em primeiro lugar: centralizar as ações no centro. Parece redundância, não? Mas infelizmente não é. Os bairros da periferia não receberam nenhuma "atração" da Virada. Tampouco seus artistas e coletivos de arte tiveram espaço, ou se tiveram foi muito pouco. 

Em segundo lugar: o orçamento. Cerca de R$10 milhões são gastos para preparar a Virada Cultural, um evento de 24 horas. A título de comparação, o Programa de Valorização de Iniciativas Culturais - VAI, tem orçamento de R$4 milhões, divididos em projetos de no máximo R$25.500,00 e prazo de execução em oito meses (em uma conta rasa, são até 156 projetos financiados no valor máximo por edital). Ou seja, com os R$10 milhões daria para incentivar 390 projetos.

Em terceiro lugar: Prefeitura, de que "cultura" vocês estão falando? É espetáculo? É número? É o que?

Podem até argumentar que os R$10 milhões são revertidos em gastos dos frequentadores no comércio, na arrecadação de impostos, e até mesmo na apropriação do centro da cidade pela população de todos os cantos da cidade - "óia como disse bunito agora, hein?". Mas todos esses benefícios não poderiam ser convertidos em ações nos locais onde não há equipamentos de cultura, ou para os coletivos que bravamente produzem arte nas periferias, ou de maneira permanente para que se estruture o fazer artístico, o olhar crítico e a criatividade em todas as regiões da cidade? Sem contar que a população diariamente transita pelo centro da cidade, pois é lá que os empregos estão centralizados. Eu, aqui na periferia, não tenho saco para me deslocar até o centro nos finais de semana, embora as vezes faça esse trajeto por falta de opções no extremo.

Enfim, esses são apenas os pensamentos que me arrastaram a mente enquanto lia as notícias da Virada.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Salário Mínimo na análise das condições de vida das famílias brasileiras


por Julio Canuto

O economista Marcelo Neri, em seu livro intitulado A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide expõe um quadro otimista da situação de renda das famílias brasileiras, indicando uma tendência de desenvolvimento/crescimento sustentável, uma vez que alguns indicadores mostram a diminuição da desigualdade. Com isso, a chamada nova classe média apresenta característica que apontam para sua consolidação e desenvolvimento.
Para definição de classes econômicas, Neri utiliza três perspectivas desenvolvidas em estudos sobre a pobreza realizados no Brasil pela ONU e trabalhos oriundos destes. São eles: potencial de consumo, sendo este um índice criado com base no Critério Brasil aplicado sobre a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD); a geração de renda, que agrega medidas da relação Produto Interno Bruto (PIB) x renda familiar (PNAD) e indicadores de sustentabilidade, que aferem renda e consumo e os chamados “estoques de ativos”, referente ao consumo de serviços que garantem a estabilidade econômica dos indivíduos, como a educação que proporciona melhor ocupação profissional; e expectativas sobre o futuro, com a convergência da definição de classe média de Thomas Friedman[1] e os resultados o Indice de Felicidade Futura (IFF) do Gallup World Poll, reunindo assim o otimismo e o planejamento.
Já os estratos de renda, que irão revelar a parcela da população que se encontra em cada classe econômica, são definidos segundo os seguintes critérios: conceito referente à família, baseado na solidariedade interna familiar; renda per capita familiar, como forma de distinguir domicílios ou famílias com mesmo total de rendimentos, mas números diferentes de membros que dividem esta renda; e a recusa a utilização do salário mínimo, pois este falha em manter o poder de compra ao longo do tempo e as diferenças regionais. Assim, Neri define a classe C como a classe central, abaixo das A e B e acima das D e E. O estrato de renda da classe C é de R$1.200,00 a R$5.174,00, com dados de 2009, ano no qual agregava 50,4% da população brasileira, ou aproximadamente 95 milhões de pessoas.
Com os recortes brevemente apresentados acima, Neri discorre sobre as características dessa nova classe média, que consome muitos bens e serviços (antes relegados aos poucos privilegiados de nossa pirâmide social), trabalham com carteira assinada e por isso dentro da seguridade, e também procuram qualificação.
Mas se tomarmos outros parâmetros, quais outras interpretações podem ser feitas? Confesso que ao ler o estudo, algumas dúvidas surgiram na minha mente:
1.      O crescimento da renda vem acompanhado de aumento da inflação?
2.      Se levarmos em consideração o salário mínimo, nosso quadro será tão otimista? Isto porque se o maior crescimento de renda tem sido observado nas faixas de renda mais baixas e se cada vez mais pessoas assumem postos de trabalho com registro em carteira e geralmente com baixa qualificação, observar o movimento do salário mínimo não teria certa importância para avaliar a condição destas famílias?
Estas são algumas questões que me proponho a comentar baseado em dados da PNAD sobre classes de rendimento mensal das famílias (salários mínimos) no período de 2001 a 2011 (excluindo 2010, uma vez que a PNAD não foi a campo neste ano por conta do CENSO), em números absolutos e percentuais, e valor do rendimento médio mensal familiar, comparando o comportamento em cada mês de setembro (mesmo mês de referencia da PNAD) do salário mínimo necessário, calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que para seu cálculo.
considera o preceito constitucional de que o salário mínimo deve atender as necessidades básicas do trabalhador e de sua família e que é único para todo o país. Usa como base também o Decreto lei 399, que estabelece que o gasto com alimentação de um trabalhador adulto não pode ser inferior ao custo da Cesta Básica Nacional. A família considerada para o cálculo é composta por 2 adultos e 2 crianças, que por hipótese, consomem como 1 adulto (DIEESE, 1993. p. 6 e 7).
O preceito citado consta do Art. 7º - IV de nossa Constituição, como segue:
salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo (BRASIL, 1988).
Assim, há um indicador que acompanha o poder de compra do salário mínimo, e portanto da inflação, calculado com base em uma família “média”, pelo qual também podemos medir a evolução da renda familiar e qualidade de vida.
A seguir alguns comentário com base em tabelas geradas a partir dos dados da PNAD, retiradas do SIDRA, do IBGE. Com base nas tabelas elaborei alguns gráficos para comparação de dados e melhor visualização da evolução histórica.
A tabela 1 apresenta a quantidade de famílias por classes de rendimento, que vai de sem rendimento a mais de 20 salários mínimos. Nota-se uma evolução positiva nas classes até 10 salários mínimos, e negativa nas classes com mais de 10 salários mínimos e também entre as famílias sem rendimento.

Fonte: PNAD, IBGE, a partir do SIDRA.

             De cara podemos imaginar que a queda de 25,7% das famílias sem rendimento deve-se a expansão de programas sociais voltados a essa parcela da população, o que contribui para o aumento da renda nacional. Mas e quanto aos percentuais negativos nas classes de maior rendimento? A próxima tabela nos ajuda a responder a questão.
            A tabela 2 apresenta o valor do rendimento médio mensal das famílias e nas duas ultimas linhas o salário mínimo necessário e o salário mínimo vigente no mês de referência em cada ano, para comparação. Em termos percentuais, nota-se que a maior evolução foi a do salário mínimo (202,8%) e a menor a do salário mínimo necessário (112,4%). Todas as classes de rendimento e o rendimento médio mensal familiar total apresentam evolução entre estes dois percentuais, o que indica a melhoria nas condições de vida das famílias. Assim, podemos também aferir que o fato de menos famílias estarem nas faixas de rendimento mais elevadas, não significa que houve diminuição de renda, mas ao contrário, por haver maior aumento proporcional do salário mínimo ficou mais difícil, em 2011, atingir rendas que contemplem mais que 10 salários mínimos.

Fonte: PNAD, IBGE, a partir do SIDRA. DIEESE.

            O gráfico 1, a seguir, apresenta a título comparativo a distribuição percentual de famílias por classes de rendimento em 2001 e 2011. Nota-se que houve crescimento nas classes intermediárias, que vai de rendas acima de 1 até 5 salários mínimos.
  
Gráfico 1 – Proporção de Famílias por Classes de Rendimento. Brasil 2001 e 2011.
Fonte: PNAD, IBGE, a partir do SIDRA.

O gráfico 2, por sua vez, traz um comparativo da evolução do rendimento médio mensal das famílias brasileiras em relação ao salário mínimo necessário. O gráfico aponta que houve melhoria. Hoje em dia, com a renda média é possível ter acesso aos bens e serviços básicos necessários a uma boa qualidade de vida. Mas estamos usando a média, e isso pode ser uma medida enganosa. Mesmo porque o salário mínimo (medida real) mostra defasagem no período, apesar de seu maior aumento proporcional.

Gráfico 2 - Rendimento Médio Mensal das Famílias, Salário Mínimo Necessário e Salário Mínimo (Reais).
Brasil, 2001 a 2009 e 2011.
Fonte: PNAD, IBGE, a partir do SIDRA. DIEESE.

Para tentar tirar a dúvida quanto a média total, o gráfico 3 traz a comparação da evolução do salário mínimo necessário com o rendimento médio por classes de rendimento. A despeito da evolução constatada anteriormente, nota-se que com o rendimento médio das famílias que se situam nas faixas de até 5 salários mínimos ainda não é possível satisfazer as necessidades básicas de que trata nossa Constituição.

Gráfico 3 – Classes de Rendimento Médio Mensal das Famílias e Salário Mínimo Necessário (Reais).
Brasil, 2001 a 2009 e 2011.
Fonte: PNAD, IBGE, a partir do SIDRA. DIEESE.

Há que se destacar que dentro da faixa de renda de mais de 3 a 5 salários mínimos, em 2001, o teto era de R$900,00, em uma época que o salário mínimo necessário era de R$1.076,00, enquanto que em 2011, nesta mesma classe de rendimento, o teto era de R$2.725,00, enquanto o salário mínimo necessário era de R$2.285,00.
Com base nestes dados, podemos responder as duas primeiras questões colocadas no início do texto. Em primeiro lugar, verificamos que a inflação tem acompanhado o aumento da renda. Em segundo lugar, acompanhar o movimento do salário mínimo, tendo junto a isso o indicador de salário mínimo necessário que mede a inflação e os custos dos bens e serviços necessários a qualidade de vida familiar é interessante, e revela um movimento bom, mas não tão otimista quanto o desenhado por Neri no início de seu trabalho.
A melhor e mais otimista definição que posso encontrar para o momento das famílias brasileiras é que há reais esforços para melhoria das condições de vida. O conjunto de programas sociais, aumento do salário mínimo, redução de juros com incentivo ao crédito e consumo, tem elevado o padrão de vida e qualidade de vida das famílias brasileiras. Arrisco-me a dizer que mais o padrão que a qualidade de vida. Arranjos estruturais precisam de maior atenção e esforços, até mesmo para garantir a sustentabilidade do processo. Neste sentido, entendo que a educação, tanto como formação quanto como profissionalização, é o principal item.



[1] “Thomas Friedman, colunista do New York Times, em seu recente best-seller O mundo é plano, define classe média como aquela que tem um plano bem definido de ascenção social para o futuro.” (NERI, p.80).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Presidência da República, Casa Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

DIEESE. Metodologia. 1993. Disponível em: http://www.dieese.org.br/metodologia/metodologiaCestaBasica.pdf

DIEESE. Salário Mínimo Nominal e Necessário. Disponível em: http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html

NERI, Marcelo. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide. São Paulo, Saraiva: 2011.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Dúvidas...

por Julio Canuto


Nesta semana uma notícia no blog de Diego Zanchetta, no Estadão, trouxe uma informação que todos que estão antenados a cultura já sabia: "Organizadores do ‘Existe Amor em SP’ entram para o governo do PT". Segundo o jornalista, 
O prefeito Fernando Haddad (PT) levou para seu governo alguns dos jovens que organizaram no ano passado o Festival Existe Amor em SP, evento que levou cerca de 10 mil pessoas para a Praça Roosevelt, no centro paulistano. Na época, os integrantes da festa tinham como um dos bordões “Fora Russomano”, então segundo colocado nas pesquisas na disputa das eleições municipais, à frente de Haddad.
[....] O prefeito também chamou integrantes de coletivos dedicados à cultura alternativa, como Matilha Cultural, Fora do Eixo e Voodoohop, para ter assentos no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e para conselhos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos.
Pelo conteúdo da notícia, entendi que a turma, já com forte influência no governo federal, veio de caso pensado e articulou para que o candidato petista vencesse a eleição e que tivessem espaço privilegiado na administração pública municipal.

Nada disso, porém, me deixou surpreso ou mesmo inconformado. É o jogo político. O que me incomodou foi a infeliz frase do vereador Paulo Fiorilo (PT), comentando o assunto: "São coletivos que adquiriram expressão na cidade, e que merecem ser ouvidos". 

E o incômodo gerou questões:


Em primeiro lugar: o que é esta "expressão" que foi adquirida? Quem a define? Quem a legitima? 

Em segundo lugar: por que "merecem ser ouvidos"? Há então quem não mereça? Há quem não faça por merecer? O que define o merecimento?

Em terceiro lugar: e os outros coletivos que ha anos (décadas) vem promovendo a arte pelos bairros periféricos, na raça, com poucos recursos e sem o apoio da administração pública? Por acaso eles não têm "expressão"? Não "merecem" ser ouvidos?

Para quem quiser saber mais, a recente tese de Tiaraju Pablo D´andrea intitulada "A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo" apresentada ao Departamento de Sociologia da USP, sob orientação da Professora Doutora Vera da Silva Telles tem um capítulo específico sobre os coletivos da periferia. Vale a pena a leitura, e muito mais a visita aos coletivos.

Enfim, tudo isso acirra os ânimos, provoca discussões, polemiza. Corre-se o risco, inclusive, de afastar as ações concretas do horizonte de grupos, coletivos e movimentos em seu diálogo com a administração pública.

Algo a se pensar seriamente. Momento de intensificar a ação.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Porta...

por Julio Canuto

Em uma rua de Santa Teresa, Rio de Janeiro...


Julio Canuto. Santa Teresa, RJ, abril de 2013.


terça-feira, 19 de março de 2013

O conto do vigário*

Um pouco de nossa história...

*Publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 18/03/2013


José de Souza Martins
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O conto do vigário

18 de março de 2013 | 2h 02

José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo
O conto do vigário já era comum em São Paulo quando o Viaduto do Chá foi inaugurado em 1892. O Viaduto veio a calhar para os vigaristas. Fazendeiros e negociantes do interior, que vinham a São Paulo, ficavam deslumbrados com a ponte de metal importado da Alemanha. Uma pinguela daquele tamanhão para passar por cima de um corguinho que nem o Anhangabaú! E ainda se pagava para usá-la: quase um tostão por pessoa. Tinha até porteira! Uma cancela na saída da Rua Direita vedava a passagem a quem não pagasse o pedágio. Mais leve do que colher café!

Se é verdade ou não, só Deus o sabe. Quem foi logrado não contou. Mas as histórias atravessaram o tempo: muito caipira teria comprado o Viaduto de vigaristas que de sua ingenuidade se aproveitavam. Roceiros que desconfiavam de banco, guardavam dinheiro dentro do colchão de palha de milho e dormiam em cima dele. Chegavam a São Paulo com o maço de notas enroladas e amarradas numa trouxinha de lenço de tabaco, bem guardada na algibeira. Muitas dessas histórias vinham do preconceito contra o caipira, é verdade. Mas o certo é que a vigarice se tornou rapidamente um item cotidiano da criminalidade local, mesmo que sem o exagero de histórias como essa. Os arredores das estações do Norte e da Luz demarcavam a geografia da malandragem. 

O peculiar do conto do vigário é que o vigarista faz da vítima um cúmplice, o esperto que é tonto. Forma comum foi a de dar grande quantia de dinheiro bom em troca de quantia muito maior de dinheiro falso. Depois, o esperto comprador, imaginando que ia ganhar uma fortuna, descobria que o paco de dinheiro falso tinha só em cima e em baixo notas verdadeiras de 20 mil réis. O resto era papel de jornal cortado no tamanho do dinheiro de verdade. E havia quem, enganado, ainda ia à polícia fazer queixa: acabava preso porque, sem o saber, confessara-se cúmplice de falsário. 

O conto do vigário começou a se difundir entre nós pouco antes da abolição da escravatura, com a grande imigração. Não só caipiras eram suas vítimas, brancos e negros, mas também os próprios imigrantes. Muito italiano caiu no logro, logrado por italiano. Um preto, mascate em Tietê, em 1894, vindo a São Paulo, para fazer as compras de seu negócio, foi enrolado por um forasteiro, na Praça da República. Quando viu, estava limpo. 

No começo, eram chamados de "passadores do conto do vigário". Aos poucos, começou a ser usada a palavra "vigarista" e, bem mais tarde, a palavra "vigarice". O conto do vigário havia se tornado uma profissão. A modernidade chegara a São Paulo. Aliás, uma das primeiras notícias de vigarice na província de São Paulo dava como vítima o vigário de São Carlos, enganado, em 1887, no próprio confessionário, de quem o vigarista tungou nada menos do que 12 contos de réis, uma verdadeira fortuna. 


quarta-feira, 6 de março de 2013

Legitimidade e poder

por Julio Canuto

Hugo Chávez morreu. E este será o assunto da semana, do mês e ainda será lembrado por muito tempo na mídia em geral. Se me pedirem para dar uma opinião sobre Chávez, pedirei desculpas e direi que não tenho conhecimento suficiente para dar uma opinião. As informações sempre foram confusas, com alguns destacando todos os pontos negativos, e outros destacando pontos positivos de seu governo.

Quero, no entanto, destacar duas coisas:

1. Apesar de tantos anos no poder (e sou contra isso, mas não cabe a mim discutir as regras eleitorais de outro país), Chávez sempre esteve lá por ter vencido as sucessivas eleições. Sendo assim, seu governo sempre foi legítimo. 

2. Quando todos os meios de comunicação falam a mesma coisa, ou emitem opiniões muito semelhantes, algo está errado. O que quero dizer com isso? Como nos ensinou Norberto Bobbio em o futuro da democracia, a democracia não é o consenso. Isto seria impossível em um regime democrático. Consenso só há em regimes totalitários, e por isso são falsos consensos. Em democracias sempre haverá dissenso - e é bom que assim seja. 

Por isso escolhi o vídeo abaixo para todos aqueles que se interessarem em saber sobre o governo de Hugo Chávez - ou pelo menos uma parte da história de seu governo. Trata-se do documentário a revolução não será televisionadade Kim Bartley e Donnacha O'Briain sobre o golpe ocorrido na Venezuela em abril de 2002, que tirou Chávez do poder, mas que pouco tempo depois foi derrotado e o presidente legitimamente eleito foi reconduzido ao poder.

Quero que prestem atenção à guerra travada pela legitimidade, não a que vem das urnas e da lei, mas a legitimidade dos símbolos, costumes e tudo mais que garantem uma determinada ordem social... e o poder. Evidentemente que a relação entre mídia e política é o centro das atenções.

Creio que a principal diferença de Chávez para outros líderes é o esforço por criar uma nova cultura política na Venezuela, ou que ao menos sempre deixou isso muito claro. Isso pode ser visto como benéfico ou maléfico. Não estou aqui para julgar, mas apenas para tentar mostrar um outro lado da disputa que se travou. Disputa que custaram vidas, muitas vezes apoiados em jargões políticos que ressurgem em momentos de tensão.

Aconselho também o leitor que se interessou pela postagem e pelo documentário, que procure outros materiais para que avalie este e outros episódios ocorridos sobretudo em nossa América Latina.  

Muito cuidado com o que lê, muito cuidado com o que vê.


A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pense nisso...

por Julio Canuto


Auto-retrato. E.Delacroix
"Todos os temas tornam-se bons pelo mérito do autor. Oh! jovem artista, aguarda um tema? Tudo pode servir, o tema é você mesmo, são as suas impressões e emoções diante da natureza. É em você que é preciso sondar, e não em seu redor". 

Eugène Delacroix



... e voltaremos a  falar. Ficarei agradecido se deixar sua impressão.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Renan NÃO! 2 - a luta continua

por Julio Canuto.

Lembram-se de postagem anterior onde coloquei campanha da AVAAZ para tentar impedir a posse de Renan Calheiros como presidente do Senado? Pois então, ele conseguiu chegar lá. Mas ainda assim a campanha não terminou. Novas estratégias foram traçadas, novas ações executadas e tudo com grande repercussão, ao ponto do próprio Renan afirmar, cinicamente, que se fosse jovem também estaria nos protestos contra ele

É mole?

Segue mensagem que recebi do Avaaz nesta madrugada de 27/02/2013, a qual repasso com TOTAL APOIO!

SEGUIMOS TODOS NA LUTA!
RENAN NÃO!



Caros amigos do Brasil, 

Quando o Senado abriu suas portas na semana passada eles foram recebidos por um banner enorme com uma mensagem clara: 1,6 milhão dizem “Fora Renan!” Em seguida, surpreendemos o Senado ao entregar a nossa petição diretamente aos senadores de cinco partidos diferentes na frente de inúmeras câmeras de TV. Nós nos tornamos o pior pesadelo de Renan, e agora estamos levando este movimento para a próxima fase... 

Entrega no SenadoNas últimas três semanas, a nossa petição se tornou provavelmente a petição com maior crescimento no Brasil, e, em apenas alguns dias, enviamos 164.000 mensagens diretamente para as caixas de entrada de emails dos senadores. Quando mostramos a petição ao senador Cristovam Buarque, ele disse: "O Senado não tem o direito de virar as costas para essa questão", e o senador Pedro Simon disse, "Nós só vamos moralizar o Congresso dessa maneira, com vocês, as pessoas, tomando uma posição. Isso vai crescer, e juntos faremos as mudanças que precisamos!". A campanha esteve em toda a imprensa e foi destaque nas revistas semanais mais influentes fora do país.

Nossas vozes abalaram Brasília – deixamos claro que os brasileiros não aguentam mais nem corrupção nem Renan. Agora, alguns senadores estão começando a reagir e outros estão se amendrontando, e se aumentarmos a pressão, juntos podemos levá-los a abandonar Renan, e vencer. 

Aqui está o que podemos fazer juntos:
    Bandeira da Avaaz
  • Pressionar cada senador a abandonar Renan, pois ele é uma ameaça à nossa democracia. Mais da metade dos nossos senadores não votaram em Renan ou estão com medo de admitir que votaram. Se todos nós escrevermos e ligarmos para nossos senadores exigindo ação, vamos dar a eles um mandato da opinião pública impossível de ser ignorado para bloquear este sujeito sob suspeitas. Se pudermos conseguir um senador, depois dois, depois 10, depois 30 senadores nos prometendo obstruir as negociações do Senado até que Renan renuncie, nós venceremos. Foi isso que aconteceu em 2007, e agora temos um movimento popular muito mais forte para pressioná-los.

  • Mostrar aos senadores que a maioria dos brasileiros quer Renan fora. 1,6 milhão de nós – o dobro do número de pessoas que o elegeram – já pediram que Renan deixe o poder. Mas se fizermos uma pesquisa de opinião e pudermos mostrar que a esmagadora maioria dos brasileiros quer Renan fora, os senadores, que concorrerão às eleições do ano que vem, vão se sentir ainda mais pressionados para responder a demanda popular.

  • Apelar ao Supremo Tribunal Federal para acelerar o caso Renan. Já existe um processo contra Renan no STF e a Ordem dos Advogados do Brasil está prestes a apresentar um caso desafiando o voto secreto que o elegeu presidente como inconstitucional, e pedindo a anulação dessa eleição. Nós não podemos interferir nas suas deliberações, mas podemos exigir que sendo estes casos de importância nacional eles devem ser analisados rapidamente e não podem ser esquecidos em um lamaçal de desculpas e atrasos.
Estas são as três táticas para levar nossa campanha para a próxima fase, mas agora somos uma sólida comunidade de 3 milhões de pessoas no Brasil e se todos nós compartilharmos nossas melhores idéias, poderemos construir uma estratégia política bombástica para vencer. Clique para postar suas melhores sugestões e ver as ideias dos outros para nos livrarmos de Renan e limpar o Congresso:


Renan representa tudo de pior do antigo estilo brasileiro de política suja e ele vai lutar para se agarrar ao poder. Os desafios poderão vir intensamente, e nossa comunidade já tem respondido retumbantemente contra os ataques a este movimento, comentário por comentário. Mas para vencer nós vamos ter que continuar a mostrar mais e mais/marcando presença até que os nossos políticos percebam que esse novo movimento popular não vai recuar até que Renan esteja fora.

Há apenas três semanas o Senado pensava que poderia escapar com o voto secreto, apesar das acusações de corrupção devastadoras contra o Renan. Eles quiseram nos fazer de palhaços. Agora, este é um confronto para defender nossa democracia. O sentimento anti-Renan está galvanizando todo o páis e se ficarmos juntos podemos nos livrar de Renan e transformar o país. Clique para participar do grande bate-papo de sugestões de ideias do “Fora Renan” e junte-se a este movimento por mudança.


Eles vão nos dizer que é impossível, mas podemos vencer. O poder popular venceu no passado com a Ficha Limpa, apesar de por muito tempo as pessoas terem dito que a lei não seria aprovada. Agora vamos limpar de fato a política de cima pra baixo e tirar a mácula do Renan da nossa democracia.

Com esperança,

Pedro, Alex, Carol, Diego, Paul, Alice e toda a equipe da Avaaz

PS. Nossa incrível petição de 1.6 milhao de pessoas começada pelo Emiliano, um jovem de 26 anos de Ribeirão Preto. Com apenas alguns cliques, qualquer pessoa pode criar uma campanha para aproveitar o poder da nossa comunidade -- clique abaixo para ver o quão fácil é começar sua própria petição na comunidade da Avaaz: http://avaaz.org/po/petition/start_a_petition/?22372

PPS: Emiliano, que começou essa enorme petição no Petições da Comunidade, convida você a se juntar ao grupo do Facebook EuQueroORenanFora para aumentar a pressão da opinião pública e lutar contra a corrupção.



A Avaaz é uma rede de campanhas globais de 19 milhões de pessoas que se mobiliza para garantir que os valores e visões da sociedade civil global influenciem questões políticas internacionais. ("Avaaz" significa "voz" e "canção" em várias línguas). Membros da Avaaz vivem em todos os países do planeta e a nossa equipe está espalhada em 18 países de 6 continentes, operando em 17 línguas. Saiba mais sobre as nossas campanhas aqui, nos siga no Facebook ou Twitter.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

"Escola de Samba", livro do Mestre Candeia e Isnard

por Julio Canuto



Hoje trago aos leitores do blog alguns comentários sobre outra preciosidade sobre nosso carnaval. Trata-se agora do livro de Isnard e do Mestre Candeia, intitulado Escola de Samba: a árvore que esqueceu a raiz, publicado em 1978 pela Editora Lidador/SEEC-RJ. 

Os primeiros parágrafos da apresentação, escrita por Sérgio Cabral, já expõem, sem metáforas, rimas ou poesias, do que se trata:
O samba é a mais expressiva linguagem musical do povo carioca. Hoje enriquece os donos do mercado musical, enquanto as escolas de samba são utilizadas pelo seu potencial turístico, sugadas pelo que oferecem de supérfluo e desprezadas pelo fundamental. Há tantos interesses em torno do samba e das escolas que fica muito difícil saber onde é a fronteira entre a manifestação espontânea do povo e a ganância.
Há pessoas que não sabem, porém, que a vitória do samba - se assim se pode chamar o que existe atualmente - pertence a uma parcela da população que sofreu violências, perseguições e preconceitos exclusivamente pelo "crime" de cantar, tocar e dançar esse mesmo samba.
Este livro é um grande avanço na luta de artistas populares contra os preconceitos. É uma obra sem intermediários, escritas pelos próprios personagens. Não é, portanto, um livro de escritor, mas um repositório de informações, experiências e posições que não são apenas dos dois autores. Pertencem também aos velhos sambistas que formaram um dos mais importantes centro da criação popular do Rio de Janeiro, a Escola de Samba Portela.
O conteúdo destas primeiras palavras, que pode ser entendido como "radical", já que hoje tanto se fala em economia da cultura, geração de empregos e renda pelo turismo, desenvolvimento local, etc. é na verdade um desabafo porque mostra o valor do samba na cultura nacional, que deve sim ser sempre relembrada - e até mesmo ensinada nas escolas como uma importante face de nossa história, como uma boa análise sociológica de nossa formação social. É a história do samba e de seus personagens, que resistiram a repressão das primeiras décadas logo após a abolição. É, portanto, não apenas a história de um ritmo popular, que já ha muito tempo virou identidade nacional, é a história da resistência, da luta cultural, da luta contra o preconceito, da luta do negro e sua fundamental contribuição a formação desta nação. O tema é sério, a proposta é ambiciosa, seu resultado importante.

A evolução do samba em suas dimensões sociais, primeiro com o processo que influenciou os cultos religiosos - até mesmo o catolicismo - no Brasil, com os variados instrumentos dos cultos religiosos africanos, e daí para a variedade de ritmos do samba, com suas danças e misticismo.

O cenário histórico é Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. E não por simples preferência ou viés analítico, mas porque o bairro é um território privilegiado onde houve esse processo e que, exclusivamente, foi o local de surgimento de uma das principais escolas de samba. Também pelos personagens tão importantes para os blocos dos anos de 1920, dentre eles o Paulo da Portela.

O livro está dividido em nove partes. A primeira apresenta as raízes do samba; a segunda apresenta a Portela, do surgimento, história da escola e dos carnavais; a terceira parte apresenta "os setores da escola de samba (importância, origem e aspectos básicos)"; da quarta a nona parte são focados diversos aspectos que constituem a identidade do samba: curiosidades históricas; cultura própria da escola de samba; criatividade do sambista; dilemas das organizações sambistas; futuro e ideal das escolas de samba. Ao final um texto sobre o Quilombo, também escola de samba, mas principalmente "o núcleo de defesa do sambista".

Enfim, é uma importante obra escrita por profundos conhecedores do samba e do carnaval, e faz um resgate  da história desta festa popular, da escola de samba, além de curiosidades e da análise socioeconômica e cultural dos sambistas. Afirmo até que é uma obra imprescindível por quem tem interesse pelo carnaval, pela samba e pela cultura nacional.

O livro está a disposição para download a partir do excelente Blog Receita de Samba, que pode ser acessado clicando AQUI.

O agradecimento dos autores a seus filhos, pode ser estendido a todos os leitores: "esperançosos estamos no sentido de que ele venha a ser útil algum dia e que possa exercer influência benéfica em suas consciências".

Boa leitura.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Curta Sexta Curta 24 - "Carnival in Rio 1954"

por Julio Canuto

O carnaval se aproxima, e o Curta Sexta Curta de hoje traz o vídeo "Carnival in Rio", produção da Warner Bross. de apenas 9 minutos, com imagens de 1954. E TUDO EM CORES!

Vale a pena verificar a enorme diferença da festa de ontem e de hoje, e por ai perceber a evolução da festa que já foi mais popular.

Por indicação da Stella Maia, que enviou o vídeo, peço que façam duas observações:

1. Logo no início dê uma pausa na chegada de Getúlio Vargas e poderão observar seu guarda costas pessoal Gregório Fortunato (de chapéu Panamá) , que veio a ser responsabilizado pelo atentado a Carlos Lacerda desencadeando a crise que culminou com o suicídio de Getúlio  mergulhado no "Mar de Lama", em 24 de agosto desse mesmo ano;

2. O mais interessante: todo mundo era magro. Nem gordos, nem "malhados". Todos comiam arroz, feijão, batata, ovo e outros alimentos naturais. E por ai podemos ter ideia das mudanças nos hábitos alimentares nestes quase 60 anos.

Enfim, veja tudo, perceba mais coisas, faça comentários e divulgue.

Uma preciosidade!

CARNIVAL IN RIO