domingo, 29 de novembro de 2015

Entrevista com Noam Chomsky (maio de 2015)

A seguir, entrevista com Noam Chomsky para a RTP, Portugal, Maio de 2015. 

Para quem não o conhece, a Wikipédia sugere uma boa apresentação: Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como "o pai da linguística moderna",também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica (https://pt.wikipedia.org/wiki/Noam_Chomsky).

Nesta entrevista ele fala sobre a política de Obama, a crise nos países da Europa e sobre o Estados Islamico, dentre outras coisas. 

Continuamos celebrando olhares alternativos. Agora já são 10 anos!




Ainda sobre o tema: O horror, a humanidade

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

16 Sinais de que você é um escravo da Matrix

Sigmund Fraud: Waking Times
Tradução: Leonardo André





O mundo de hoje é um lugar estranho. Somos inundados com sinais desde muito cedo na vida, encorajando cada um de nós a trilhar um caminho particular, que obscurecem nossa visão ao longo do caminho, nos desencorajando a procurar alternativas para aquilo que o rebanho está fazendo ou pensando. A vida é tão complexa que ao longo do tempo, se prestarmos atenção, percebemos que há infinitas possibilidades para a experiência humana, e que o mundo está em chamas porque os indivíduos raramente questionam a razão das coisas serem do jeito que são, sem notar que a sua mentalidade ou comportamento precisa de ajustes em favor de mais inteligência, bom senso ou padrões sustentáveis ​​de existência.

Sem pretender ser abertamente crítico às escolhas de estilo de vida de qualquer pessoa ou situação pessoal, os 16 sinais listados abaixo de que você é um escravo da matrix são destinados exclusivamente como uma abordagem observacional para ajudá-lo a identificar as áreas de sua vida onde você pode estar perdendo uma oportunidade para libertar-se do projeto autodestrutivo de outra pessoa para sua vida.

Fique à vontade de acrescentar qualquer coisa que você gostaria de adicionar à lista nos comentários.

1. Você paga impostos para pessoas que você gostaria de ver trancadas na cadeia. Este é talvez o maior indicador de que somos escravos da matrix. A noção tradicional de escravidão evoca imagens de pessoas nos grilhões forçados a trabalhar nas plantações para sustentar fazendeiros ricos. A versão moderna disto é a taxação obrigatória, onde os nossos rendimentos são automaticamente descontados na fonte, independentemente de aprovarmos a forma como o dinheiro é gasto.

2. Você vai ao médico, mas continua doente. A assistência médica moderna, com todo o progresso científico, tem infelizmente se tornado assistência aos doentes, em que raramente somos aconselhados a comer bem e atentar para a nossa saúde física e mental e, ao invés disso, somos rotineiramente aconselhados a consumir medicamentos e procedimentos caros que nos são empurrados visando o lucro da assistência médica da matrix.

3. Você escolheu os democratas ou os republicanos e se pôs a discutir com os seus amigos, familiares e colegas de trabalho sobre política. Esta é a estratégia de dividir para conquistar e controlar em nossa sociedade. Ambos os principais partidos são corruptos por completo, e os candidatos independentes não estão sequer autorizados a participar de debates públicos. Crendo em uma dessas duas partes e queimando a sua energia pessoal discutindo com outras pessoas comuns você está entregando sua alma a matrix, e fazendo sua parte para garantir que "nós, o povo” nunca se una contra a corrupção.

4. Você trabalha duro em algo que você odeia para ganhar dinheiro. O trabalho é importante e o dinheiro serve para pagar as contas, no entanto, muitas pessoas perdem os melhores anos de suas vidas fazendo coisas que odeiam, apenas por dinheiro. A verdade sobre o dinheiro hoje é que não temos dinheiro, mas ao invés disso, temos uma moeda fiduciária que é de propriedade privada e de valor manipulado. Como ainda é necessário para sobreviver neste mundo, é melhor que você valorize seu tempo fazendo algo que você gosta ou trabalhando com pessoas que você não despreze. Viver com pouco dinheiro é mais fácil do que você pode acreditar, você apenas tem que estar disposto a ir contra a corrente e perceber isso.

5. Você está propenso a acumular uma dívida pessoal para financiar um estilo de vida orientada para o consumo. Cada vez que um cartão de crédito é passado cria-se dígitos sobre os balanços dos bancos que estão envolvidos com a pilhagem financeira do mundo de hoje. Esses dígitos são então multiplicados eletronicamente pelo sistema de reservas fracionárias, que aumenta exponencialmente o poder destas instituições. Ao participar disto e concordar em devolver esse dinheiro falso com juros, a fim de manter um certo estilo de vida, é um forte indício de que você é compelido por um dos principais dogmas da matrix - o consumismo.

6. Você conversa com pessoas reais sobre os acontecimentos em curso em programas de TV. A TV é a ferramenta mais potente para o controle da mente e a "programação" que está disponível, embora certamente legal ou divertida é voltada para reforçar determinados comportamentos entre as massas. Dramatizar a importância do ego, sexualizar tudo, glorificar a violência e ensinar a submissão às autoridades de araque são as principais características da TV moderna. Ao tomar o que está acontecendo na tela como parte de sua vida real, você está fazendo a sua parte em apoiar o desejo da matrix de nos confundir sobre a natureza da realidade, provando que algo não precisa acontecer de fato para as pessoas senti-lo como se fosse real.

7. Você não tem nada a esconder da vigilância total. Se você não se incomoda que alguém, em algum lugar, trabalha para alguém que está assistindo você, ouvindo suas conversas e monitorando seus movimentos, então, você é um bom escravo da matrix. Vigilância invisível é uma forma insidiosa de controle do pensamento, e usando a lógica do “eu não tenho nada a esconder, portanto, ele não vai me fazer dano algum ao me vigiar”, então você está admitindo sem pensar que você tem um mestre terrestre e não é soberano quanto a sua mente e seu corpo.

8. Você acha que o mundo seria mais seguro se apenas os governos tivessem armas. Este é um mundo violento e os criminosos se envolvem na criminalidade contra pessoas honestas em todos os níveis da sociedade, inclusive de dentro do governo. Claro, em um mundo perfeito, as armas não seriam necessárias para ninguém, mas, infelizmente, o nosso mundo está longe de ser perfeito, e as armas de fogo são de fato uma forma muito eficaz de proteção contra criminosos comuns e contra os governos abusivos igualmente. A vontade de renunciar a seu direito de autodefesa é um sinal de que você relegou responsabilidade pessoal para outra pessoa. Tendo as massas abdicado da responsabilidade pessoal é um dos meios mais importantes de controlá-los. Bem-vindo à matrix.

9. Você bebe água fluoretada com conhecimento de causa. De todos os debates de saúde que ocorrem hoje, o tema da água fluoretada é o mais fácil de entender, pois é um subproduto tóxico de um processo industrial... veneno. A água é fluoretada supostamente para ajudar na saúde dental, o que já é discutível em si, mas mesmo se assim fosse, a fluoretação involuntária da água da rede pública seria uma medicação sem o seu consentimento... uma forma de escravidão. Sabendo disso e continuar a beber água fluoretada é um sinal de que você está contente com a sua submissão total à matrix.

10. Você conscientemente consume venenos tóxicos como o aspartame e GMS (Glutamato Monossódico). Estes dois produtos químicos são amplamente conhecidos como sendo tóxico para o corpo humano. Sabendo disso e continuar a envenenar-se com esses saborosos, mas altamente tóxicos, alimentos processados ​​é um sinal de que a matrix tem programado você a colocar menos valor em sua saúde e futuro do que em sua satisfação imediata.

11. Você depende do complexo industrial farmacêutico para a gestão da sua própria saúde mental. O uso de medicamentos psicotrópicos está aumentando rapidamente em nossa sociedade, porque as pessoas foram convencidas de que os estados mentais e emocionais podem ser classificados como doenças, enquanto a verdade sobre a saúde mental natural tem sido ofuscada pela mídia corporativa e por uma classe médica que visam apenas o lucro. Se você está tomando medicamentos psicotrópicos, então você está sob uma das formas mais potentes de controle da mente disponível. Parte deste controle é convencê-lo de que você não tem nenhuma autoridade sobre sua própria mente. Esta é talvez a mais terrível mentira da matrix, e ao tomar voluntariamente estes medicamentos psicotrópicos você está em conformidade com o pior tipo de escravidão, e inibindo as suas respostas mentais e emocionais naturais decorrentes das pressões da vida que sinalizam para você que você precisa mudar comportamentos e hábitos.

12. Você ainda não parou de assistir a programação de notícias local e nacional. A grande mídia de notícias é uma ferramenta de controle e manipulação, e por continuar apoiando tais ideias e visões de mundo, dando-lhes a sua atenção você está entregando-se a esta forma não tão sutil de programação mental. Mesmo a notícia local é roteirizada em nível nacional por agentes de um punhado de corporações com a tarefa de moldar nossas opiniões sobre os eventos.

13. Você está mais preocupado com os esportes televisionados ou outras distrações sem sentido do que com a qualidade do seu meio ambiente natural. A Deepwater Horizon, Alberta Tar Sands, a ascensão de Fracking, o sacrifício da Amazônia, e Fukushima são todos os eventos impactantes para a vida que irão afetar gravemente nosso futuro no planeta Terra. Estar despreocupado com tudo isso sintonizando um fluxo interminável de notícias banais e levando a vida à base de distrações baratas é um sinal de que seu senso de autopreservação foi roubado e substituído por uma tendência impulsiva para trivialidade e escapismo.

14. Você é cético em relação a qualquer área da vida que não tenha sido "comprovada" ou validada pela ciência moderna. A própria essência da ciência é investigar o desconhecido, o que implica que, até a ciência entender alguma coisa, essa coisa é inexplicável. Desacreditar ou ridicularizar experiências que outras pessoas têm, que ainda escapam à compreensão científica, como experiências de quase-morte, acupuntura ou os efeitos da Ayahuasca sobre a percepção da vida, então você está servilmente reduzindo sua compreensão do mundo a uma estreita faixa de possibilidades. A matrix é possível graças aos esforços de zeladores voluntários relutantes a pensar fora da caixa.

15. Você nunca questionou a versão popularizada da história antiga e as origens da nossa civilização. Há muitas perguntas não respondidas sobre as origens da raça humana que apontam para uma versão diferente da história humana que é ensinada na escola. Por não questionar o que nos foi dito sobre a nossa origem, estamos concordando com muitos dos sistemas de crenças impostas e a estreita visão sobre o potencial humano que a matrix promove.

16. Você ainda não percebeu que você é um ser espiritual vivendo uma experiência humana.


Se você pode se relacionar com qualquer um dos itens na lista, então a matrix está em você, e agora é seu dever envolver-se mais profundamente quanto à sua libertação. 


Sobre o autor

Sigmund Fraude é um sobrevivente da psiquiatria moderna e um ativista mental dedicado. Ele é parte da equipe que escreve para WakingTimes.com onde ele se dedica à possibilidade de uma grande mudança em direção a um futuro mais psicologicamente consciente para a humanidade.

Original: http://www.wakingtimes.com/2014/04/28/16-signs-youre-slave-matrix/

***



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Arte e argumento nos protege, a censura não

Os críticos do Charlie Hebdo que dizem que é irresponsável ofender a religião estão errados, argumenta Terri Murray.


- Por Terri Murray*/Charlie Hebdo - Set/15
- Traduzido por Leonardo André



Em maio, a equipe editorial do Charlie Hebdo – oito dos quais foram assassinados no início do ano – foi rejeitada por mais de 200 autores norte-americanos proeminentes. Depois de emitir observações superficiais sobre a validade de se proteger a liberdade de expressão, os escritores passaram a explicar por que eles estavam boicotando um evento de gala oferecido pela PEN, organização pela liberdade de expressão, destinada a homenagear a revista. Os escritores caracterizaram a crítica rude de Charlie Hebdo sobre a religião e de suas principais figuras como "gratuita", o que implica que tais tolices infantis não servem para fins sociais vitais.

A alegação deles, no entanto, é baseada em premissas equivocadas sobre a natureza da infração, particularmente quando se trata de grupos minoritários na sociedade. Em primeiro lugar, os grupos religiosos não são homogêneos em suas crenças, práticas ou sentimentos. A mesma visão ou imagem que pode ser experimentada por um membro de uma comunidade religiosa como profundamente ofensiva, para outro pode ser catártica, libertadora ou profundamente salvadora. Pensar o contrário é generalizar sobre todos os membros de uma cultura religiosa.

Para assumir que todos os muçulmanos serão tão ou quase tão "ofendidos" por certa charge, piada ou categoria de discurso é basear-se na teoria ingênua de que só há uma maneira de ser muçulmano. Poucos muçulmanos têm suas identidades definidas apenas pela sua religião, assim como as identidades de apenas alguns ateus são definidas unicamente pela falta de crença em Deus.

Censurar insultos religiosos não irá proteger uma cultura minoritária de culturas externas assim como impedirá a livre escolha dentro dessas culturas menores suprimindo a diversidade de opiniões internas. Se adotarmos uma proibição irrestrita a toda "ofensa religiosa" é difícil ver como os muçulmanos liberais ou pluralistas, então, viriam a exercer o seu direito de criticar islâmicos autoritários que, de outra forma, obrigariam todos os muçulmanos a estarem em conformidade com as leis fundamentalistas e "respeitar" (ou seja, obedecer) seus tabus. A liberdade de expressão beneficia todos os tipos de muçulmanos, enquanto que a censura só beneficiaria os extremistas.

Muçulmanos como grupo são, por vezes, vistos como "terroristas", difamando aqueles que não são, mas uma lei que encubra ofensas - ou tabus - não protegeria esta maioria moderada. Eles já são robustamente protegidos dentro de estados seculares, onde a liberdade de expressão é rigorosa. Por definição, apenas o intolerante poderia desejar o uso da violência ou da coerção legal para suprimir a crítica pública de suas crenças. O resto de nós – incluindo muitos muçulmanos – utilizam argumento, arte, comédia e sátira para demonstrar nosso ponto de vista e desafiar nossos oponentes. A proibição permanente da liberdade de expressão não é um preço que vale a pena ser pago em troca de proteção contra o desconforto temporário de palavras insultuosas.

Chegamos ao cerne da questão: a religião pouco tem se relacionado com crenças particulares e convicções pessoais. Com demasiada frequência, tem se ocupado com os outros e como eles devem viver. Religiosos moderados por definição não se ofendem com discordância e crítica, porque não exigem que os outros concordem com eles ou vivam de acordo com modo de vida escolhido por eles.

A religião raramente tem se limitado a crenças particulares de cada indivíduo e as escolhas da vida, e é por isso que deve permanecer aberta ao escrutínio público e ao ridículo. Onde é permitido, ideologias religiosas intolerantes ditam tabus sociais e definem comportamentos inofensivos como "imorais". Este é o caso em muitas sociedades e culturas ao redor do globo.

É por isso que não posso concordar com os críticos do Charlie Hebdo que pensam que ofender a religião é um jogo infantil "irresponsável". As mesmas liberdades que hoje são concedidas a estes adultos encerrados em seu meio social ocidental (tanto que eles estão preparados para jogá-los fora sem pensar duas vezes) foram conquistados para eles por mártires "infantis" que pagaram por eles com suas vidas.

Liberalismo político baseia-se na crença de que nenhum ser humano é infalível, portanto, nenhum está em posição para censurar a livre expressão de qualquer ideia, não importa o quão ofensivo ou impopular seja. Isso configura um padrão único para todos, de modo que as ideias possam ser "testadas" contra os méritos de outros pontos de vista. 

Esta não é uma "ideologia ocidental", mas um quadro justo em que qualquer ideologia pode ser livremente discutida e perseguida, bem como criticada e rejeitada. Em contrapartida, censurar a dissidência impede o debate e limita as oportunidades de aprender com novas evidências, admitindo apenas a retidão pessoal e a estagnação cultural. O "respeito" que acumula para o status quo é mais semelhante a temer do que a estimar. As crenças dominantes não são realizadas porque eles ganharam a competição com alternativas, mas porque as alternativas foram silenciadas.


_____________________________________________________
Dr. Terri Murray é um ensaísta, autor, católico "reabilitado" e defensor dedicado à liberdade de expressão.


Este artigo foi trazido a você por New Humanist, uma revista trimestral de idéias, ciência e cultura.


***

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Assassinato de Trotsky e a Lata de Lixo da História




Foi um assassinato. Mas foi, sobretudo, uma tragédia política que marcou profundamente o século passado e deixou feridas ainda não cicatrizadas.
No dia 21 de agosto completam-se 75 anos do atentado que tirou a vida de Leon Trotsky, uma das mais fascinantes figuras surgidas antes, durante e depois da revolução que acabou com o império russo e criou o primeiro país comunista, a União Soviética, desaparecida aos 74 anos.
O Nobel de literatura, Romain Rolland, ao terminar uma peça teatral sobre Robespierre, escreveu a um amigo: “É simplista acreditar que a revolução francesa foi demolida pelos seus inimigos – ela foi destruída por dentro, por revolucionários autênticos”.
Preferido por Vladimir Lenin para sucedê-lo, Trotsky foi perseguido de forma implacável por Joseph Stalin. Além do despeito pela preterição, o ex-seminarista Stalin não suportava o brilho intelectual do jornalista, orador e criador do Exército Vermelho. Mas as diferenças táticas e ideológicas pesaram muito.



Por Alberto Dines em 11/08/2015 - Observatório da Imprensa

***

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Criadores falam sobre conta falsa no Instagram que mostra a jornada de um migrante

"Nós ficamos chocados ao vê-la publicada", diz a TIME produtor espanhol por trás da conta de "Abdou Diouf"

Olivier Laurent*/TIME - ago/2015
Tradução: Leonardo André









  • A super moto para a primeira fase. Eu não sei o que nos espera. Problemas, lágrimas e frio, mas estou confiante que agora meu amigo Hagi vai me levar para Nouadhibou.


  • Dois dias de caminhada. O guia diz que não posso parar. Ou vamos perder dois mil euros que eu paguei ao barco para atravessar.


  • Escondido na parte de trás de um tronco. Tentando atravessar a fronteira. Sem ar. Minhas pernas doem. Me deseje sorte.


  • Correndo para o futuro. Estamos em Marrocos. O sonho está mais perto. Sem olhar para trás.


  • Finalmente, a terra de oportunidades. Estamos cansados, mas felizes. Viagem muito perigosa.


  • As boas-vindas da polícia perto da praia, eles não são amigos de sonhadores ilegais.


  • Cobertores térmicos antes de ir para o centro de internamento. Eles chamam isso CIE. Não é um bom lugar para ficar.






Uma conta Instagram que pretendia mostrar as adversidades de um migrante senegalês ao embarcar em uma viagem ilegal para a Espanha acabou por ser uma estratégia de campanha para promover um festival de fotografia.

Lançada há uma semana, a conta queria mostrar como "Abdou Diouf" deixou Dakar, sua terra natal no Senegal, para encontrar uma vida melhor na Europa. As imagens – todas autorretratos – mostram Diouf em vários estágios de sua "viagem". Em uma imagem, ele é visto embarcando em um pequeno bote flutuante, enquanto outra mostra sua chegada à costa espanhola.

A conta tornou-se viral no fim de semana após o Huffington Post escrever sobre a jornada de Diouf. No entanto, como a atenção internacional voltou-se para as postagens misteriosas de Diouf e seu uso de hashtags ainda não relacionadas, a conta foi considerada falsa. Segundo Oriol Caba produtor da Volga, uma empresa de produção espanhola, trata-se de uma campanha para um festival internacional de fotografia em Getxo na Espanha.

O Getxophoto festival contratou a Volga e o estúdio Barcelona Manson para produzir uma série de vídeos e imagens que promovessem o evento, bem como levantar questões sobre o uso da fotografia na sociedade de hoje.

"Nos países desenvolvidos, há uma utilização da autoimagem que não é comum a outras partes do mundo", diz Caba. "[Nós queríamos] mostrar como a banalidade do tratamento da autoimagem poderia ser usada para produzir uma imagem de si mesmo, mas em um contexto muito diferente do real, como as viagens perigosas e traumáticas de pessoas que embarcam em busca de uma vida melhor. Nós pensamos que era forte e poderoso o suficiente para fazer uma demonstração e levantar questões".

A conta falsa também foi uma forma da organização do festival mostrar como a "narração da realidade sempre está nas mãos de pessoas com poder, e não nas mãos de pessoas que vivem essa realidade", diz Caba.

Mas todos os envolvidos dizem que não imaginavam que a conta chamaria tanta atenção internacional. "Ficamos chocados ao vê-la publicada no Huffington Post e ver outras organizações de mídia segui-los", diz Caba à TIME. "Nós nunca havíamos pensado sobre a questão do poder dessas organizações. Eu acho que a necessidade de vender, ter visitas e ser o primeiro a publicar está baixando os padrões de notícias".

O resultado final, segundo comunicado do festival, oferece "uma reflexão sobre a forma como processamos e compartilhamos as imagens de deslocamentos e migrações na grande mídia e nas redes sociais."

Agora, o festival está pronto para potenciais reações. "Não vai ser surpreendente para nós se formos acusados ​​de banalizar este problema", diz Caba. "Mas nós já podemos ver isso todos os dias na passividade das pessoas e governos [confrontados] para a questão da imigração em cada cidade europeia”.

"Temos muito respeito por pessoas que passar por essas lutas inacreditáveis", ele acrescenta.


______________________________________________


* Olivier Laurent é o editor de TIME LightBox. Siga-o no Twitter e no Instagram

Veja o original em time.com


***

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A Esquerda Revelada


Na postagem anterior, comentamos o livro "O Homem que Amava os Cachorros", do jornalista cubano Leonardo Padura, lançado em 2009, onde o autor narra os dias de exílio e o assassinato de Liev Dadidovitch, o Trótsky.

A URSS e o regime soviético, também são temas tratados por Jacob Gorender, um dos mais importantes historiadores e cientistas sociais marxistas brasileiros, na entrevista que disponibilizamos abaixo;

Jacob Gorender - A Esquerda Revelada




***

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Utopias, crenças, medos e fatos. Sobre "o homem que amava os cachorros", de Leonardo Padura

por Julio Canuto


Há alguns meses li "O homem que amava os cachorros", do jornalista cubano Leonardo Padura. Lançado em 2009, o livro narra os dias de exílio de Liev Dadidovitch, o Trótsky, desde a Sibéria até o México, onde foi assassinado, e a trajetória do catalão Ramón Mercader, ativo na guerra civil espanhola, a quem foi atribuída a missão de assassinar o líder bolchevique e por isso passando a assumir varias identidades, entre as quais um belga chamado Jacques Monard, a que usava no dia do assassinato. Intermediando as trajetórias, o encontro de um escritor cubano, Iván Cardenas, com um personagem misterioso em Cuba, Jaime López - o homem que amava os cachorros -, o Mercader mais velho nos dias finais de sua vida. Com isso, narra a condução do regime comunista na União Soviética por Stálin, chamado por Trótsky de "o coveiro da revolução", desde o ápice de seu poder e o consequente declínio da utopia socialista, com as condenações de ex aliados do regime, acusados de traição, e toda a trama para aniquilar o líder bolchevique, organizador e ex comandante do Exército Vermelho

Destaco a seguir quatro trechos do livro que em minha opinião resumem muito bem as crenças, as esperanças, as ações e as angústias dos que tiveram uma participação ativa, embora nem sempre conscientes da história, bem como os de quem, após o fim da URSS, volta o olhar em retrospectiva. Fala sobre sonhos, revoluções, fé, medo, luta pelo poder e o seu peso sobre os homens.

O primeiro trecho é sobre Trótski, enquanto na URSS vários ex companheiros da revolução eram condenados sob acusação de traição.Ou seja, era a visão de um perseguido:
     Convencido de que se aproximavam tempos ainda mais turbulentos, Liev Davidovitch encarregou seu secretário Erwin Wolf de fazer chegar a Liova a ultima versão de A revolução traída. Embora tivesse dado o livro por encerrado no início do verão, os acontecimentos de Moscou levaram-no a atrasar seu envio aos editores, porque esperava poder acrescentar uma reflexão sobre o julgamento contra Zinoviev, Kamenev e seus companheiros de destino. No entanto, diante da incerteza do que poderia acontecer à sua vida, decidira acrescentar apenas um pequeno prefácio. O livro seria uma espécie de manifesto onde Liev Davidovitch adequava seu pensamento à necessidade de uma revolução política na União Soviética, de uma mudança social enérgica que permitisse aniquilar o sistema imposto pelo stalinismo. Não deixava de reparar na estranha ironia de uma proposta política nunca antes concebida nem pelas mais febris mentes marxistas, para as quais teria sido impossível imaginar que, atingido o sonho socialista, fosse necessário chamar o proletariado a revoltar-se contra o seu próprio Estado. A grande lição proposta pelo livro era que, da mesma forma que a burguesia criara diversas formas de governo, o Estado operário parecia criar as suas e o stalinismo revelava-se como a forma reacionária e ditatorial do modelo socialista. Com a esperança de que fosse possível salvar ainda a revolução, ele tentara desligar o marxismo da deformação stalinista, que qualificava como o governo de uma minoria burocrática que, através da força, da coação, do medo e da supressão de qualquer vislumbre de democracia, protegia seus interesses contra o descontentamento majoritário no interior do país e contra os surtos revolucionários da luta de classes no mundo. E terminava interrogando: se já tinham sido pervertidos até as entranhas o sonho social e a utopia econômica que o sustentava, o que restaria da experiência mais generosa jamais sonhada pelo homem? E respondia: nada. Ou restaria, para o futuro, a marca de um egoísmo que tinha usado e enganado a classe trabalhadora mundial; permaneceria a lembrança da ditadura mais férrea e desprezível que o delírio humano poderia conceber. A União Soviética legaria ao futuro o seu fracasso e o medo de muitas gerações à procura de um sonho de igualdade que, na vida real, se transformara no pesadelo da maioria (p.213).
O segundo trecho é parte do diálogo de Ramón Mercader com seu mentor, já em Moscou após ter cumprido sua pena. Soubera que seu mentor também iria a julgamento como outros tantos já haviam ido injustamente, e que fatalmente seria condenado a morte, mas por ocasião das circunstâncias políticas acabou se livrando. Após traçar um perfil de Stalin através de seus atos com os camaradas mais próximos, ele conclui:
Nessa altura compreendi que a crueldade de Stalin não obedecia apenas à necessidade política ou ao desejo de poder: devia-se também ao seu ódio pelos homens, pior que isso, ao seu ódio pela memória dos homens que o ajudaram a criar suas mentiras, a foder e a reescrever a história. Mas, na verdade, não sei quem estava mais doente, se Stalin ou a sociedade que o deixou crescer...Suka!
-  Era o mesmo Stalin que você adorava e me ensinou a adorar? - Sempre que  entrava naqueles terrenos pantanosos, Ramón sentia-se desorientado, como se lhe falassem de uma história alheia à sua, de uma realidade diferente da que ele próprio tinha construído em sua cabeça. (p.531-532).
Ainda nesta longa conversa, Ramón comenta sobre o conteúdo de uma carta que recebeu na prisão, em 1948, remetida por "um judeu que vivia em Nova York", e que na verdade, ambos reconheceram, era Alexander Orlov.
- Estava assinada por um tal de Josué não sei quê, e dizia que ia me contar coisas que lhe tinham sido confiadas por um velho agente da contraespionagem soviética, seu amigo próximo, coisas que achava que eu devia saber... Na verdade não dizia nada que eu já não tivesse pensado, mas, dito por ele, tudo aquilo adquiria outra dimensão, o que me obrigou a refletir... Falava do engano, dos enganos, na verdade. Dizia que Stalin nunca desejara que os republicanos espanhóis ganhassem a guerra e que seu amigo fora enviado para a Espanha justamente a fim de evitar, primeiro, uma revolução e, evidentemente, uma vitória republicana. A guerra deveria durar apenas o suficiente para que Stalin pudesse utilizar a Espanha como moeda de troca em seus pactos com Hitler e, quando esse momento chegou, abandonou-nos à própria sorte, embora tenha levado a fama de ter ajudado os republicanos e, como prêmio adicional, ficando também com o ouro espanhol. Falava-me ainda do assassinato de Andreu Nin. Seu amigo tinha participado daquela encenação, e dizia-me que todas as hipotéticas provas contra Nin, tal como as que havia contra Tukhatchevski e os marechais, tinham sido preparadas em Moscou e em Berlim, como parte da colaboração facista. (...) - E falava-me de Trotski... - Ramón emudeceu, acendeu um cigarro, esfregou o nariz. - Contava uma coisa que você sabia muito bem: que o velho nunca tinha feito acordos com os alemães. A prova de fogo foram os julgamentos de Nuremberg, onde não apareceu um único vestígio da suposta colaboração fascista de Trótski... Dizia que eu tinha sido um instrumento do ódio e que, caso não acreditasse nele, esperava que eu vivesse tempo suficiente para ver como aquela tramoia acabaria vindo à luz do dia... Quando li o discurso de Kruschev, em 1956, lembrei-me muito dessa carta. O mais difícil em todos esses anos foi saber dessas verdades e ter a certeza de que, apesar dos enganos, não podia falar.- Sabe por quê? Porque no fundo somos uns cínicos, tal como Orlov. E porque somos, sobretudo, uns covardes. Sempre tivemos medo, e o que nos moveu não foi a fé, como dizíamos a nós mesmos todos os dias, mas o medo. Por medo muitos calaram a boca, pois não tinham remédio, mas nós, Ramón, fomos mais além, esmagamos pessoas, chegamos a matar... porque acreditávamos, mas também por medo - disse e, para espanto de Ramón, sorriu. - Ambos sabemos que, para nós, não há perdão... Mas, por sorte, como já não acreditamos em nada, podemos beber vodka e até comer caviar neste inferno materialista dialético em que nos calhou viver por nossas ações e pensamentos... (p.536-537)
Por fim, uma reflexão de Ivan Cárdenas, quando em 1983 recebeu os manuscritos de López:
Enquanto lia, senti que o horror me inundava. Segundo o homem que amava os cachorros, depois daquele encontro casual, Ramón fora lhe contando os pormenores que eu já conhecia acerca de sua entrada no mundo das trevas, sua transformação espiritual e mesmo física e suas ações sob a pele de Jacques Monard e Frank Jacson. Mas também lhe confiara tudo o que, com os anos, tinha conseguido saber sobre si próprio e sobre as maquinações e os objetivos mais sinistros dos homens que o levaram até Coyoacán e lhe colocaram uma picareta nas mãos. Se antes eu tinha pensado que López excedia com frequência os limites da credibilidade, o que contava naquela longa missiva superava o  concebível, apesar de tudo o que, desde o nosso último encontro, eu pudera ler acerca do mundo obscuro mas tão bem encoberto do stalinismo. Como é fácil deduzir, aquela história (recebida anos antes das revelações da glasnost) foi como uma explosão de luz, capaz de me iluminar não só sobre o destino tétrico de Mercader, mas sobre o de milhões de homens. Aquela era a própria crônica do aviltamento de um sonho e o testemunho de um dos crimes mais abjetos já cometidos, porque não atingia apenas o destino de Trótski, ao fim e ao cabo antagonista naquela luta pelo poder e protagonista de vários horrores históricos, mas o de muitos milhões de pessoas arrastadas - sem que o tivessem pedido, muitas vezes sem que ninguém jamais tivesse lhes perguntado seus desejos - pela ressaca da história e pela fúria de seus patrões - disfarçados de benfeitores, de Messias, de eleitos, de filhos da necessidade histórica e da dialética inelutável da luta de classes... (p.336-337).
Enfim, esses trechos constituem peças de destaque que o leitor irá relacionar e descobrir os detalhes. É, sem dúvida, um dos mais impressionantes romances que li, com várias revelações sobre as trajetórias de cada um dos personagens desse pedaço da história do século XX. A habilidade de Padura em reconstruir a história a partir do ponto de vista dos três principais personagens, sendo Ivan o representante do povo vivendo sob aquele regime, fazem as 585 páginas passarem de maneira muito breve e intensa. 

_______________________________

autor: Leonardo Padura
prefácio: Gilberto Maringoni
orelha: Frei Betto
páginas: 592

sábado, 6 de junho de 2015

Em constante movimento

por Julio Canuto


O vídeo abaixo mostra as constantes mudanças das fronteiras nacionais na Europa (e parte da Ásia, Oriente Médio e Norte da África,) do ano 1100 a 2012. Interessante verificar a existência dos impérios no passado, como foram se expandindo e depois extintos, como o Império Bizantino, o Sacro Império Romano-Germânico e o Império Otomano, ou mais recentemente a União das Repúblicas Socialistas Soviética. Interessante se pensarmos que apesar do tempo - pouco mais de 900 anos de história em 3 minutos e 23 segundos - há em toda essa região uma teia complexa de culturas, religiões e , por consequências, valores. Reflete os conflitos entre Nações e Estados.

O vídeo serve, antes de tudo, para atiçar a curiosidade de quem o assiste. Espero que se interessem a ponto de pesquisar mais a fundo a história dessa região, da qual indiretamente também fazemos parte, e que pode lançar luzes sobre conflitos atuais.


video