domingo, 5 de outubro de 2014

Uma cidade iluminada por resíduos não-recicláveis

por Julio Canuto

Imagem: daily geek show
Uma interessante notícia veio por e-mail - sim, ainda uso, e muito! - em uma conversa sobre recursos naturais e está publicada no site daily geek show: "Pela primeira vez na França, uma cidade é iluminada com os resíduos de seus habitantes" (a matéria, em francês, pode ser acessada clicando AQUI)

A cidade é Plessis-Gassot, e sua central de produção de energia, Electr'od, gera energia a partir do biogás, resultado da fermentação dos resíduos. 

A eletricidade produzida pela usina (130 000 MWh/ano), será capaz de abastecer cerca de 41.200 residências. Isso corresponde à produção anual de electricidade de 40 turbinas eólicas. Este é um grande passo adiante, porque com 10 motores com uma potência total de 17 MW e de 100 milhões de m3 de biogás processados ​​anualmente, a fábrica tornou-se a maior unidade francesa de produção de energia a partir do biogás. Tudo por um investimento de 16,5 milhões de euros. 

A cidade será capaz de produzir mais energia que o necessário, vendendo o excedente a  Rede de Distribuição de Eletricidade da França (Electricité Réseau Distribution France - ERDF) e utilizada por indivíduos e empresas, que passarão a se beneficiar da energia limpa e da sensível diminuição no custo. Outra contribuição do sistema é a diminuição das consequência da mudança climática, com o aproveitamento do gás metano, que quando não aproveitado contribui para agravar o efeito estufa.

Outras iniciativas como essa já ocorrem em outros países europeus. Esperamos que a ação se espalhe e se torne comum em vários países. O assunto e a tecnologia não são novas, embora ainda pouco utilizado, dado o potencial energético

Para saber de experiência da utilização do biogás no Brasil, basta uma rápida pesquisa em sites de artigos científicos. Abaixo, alguns exemplos. Clique no titulo para acessar:

COELHO, S.T., GARCILASSOV.P., VELAZQUEZ. Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás Proveniente de Aterro Sanitário – Estudo de CasoCENBIO – Centro Nacional de Referência em Biomassa.

COSTA, D.F. Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás do Tratamento do Esgoto. USP (Dissertação de Mestrado). São Paulo, 2006.

PNUD e MMA. Estudo sobre o Potencial de Geração de Energia a partir de Resíduos de Saneamento (lixo, esgoto), visando incrementar o uso de biogás como fonte alternativa de energia renovável. Arcadis Tetraplan. São Paulo. 2010.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

João do Rio - Esse ilustre desconhecido

por Leonardo André

João do Rio é um dos vários pseudônimos de Paulo Barreto. Nascido no Rio de Janeiro em 1881, foi um jornalista inovador, cronista, contista e teatrólogo. Ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Morreu jovem, prestes a completar 40 anos, em 1921, até hoje não teve o devido reconhecimento. 

Abaixo, segue o programa De Lá Pra Cá sobre João do Rio, exibido na TV Brasil, para você conhecer um pouco mais sobre esse ilustre brasileiro.


Antes porém, transcrevo o capítulo A Pintura das Ruas do livro A Alma Encantadora das Ruas, de 1908. Trata-se de uma de suas tantas crônicas que retratam o Rio de Janeiro do início do século passado. 

A Pintura das Ruas


Há duas coisas no mundo verdadeiramente fatigantes: ouvir um tenor célebre e conversar com pessoas notáveis. Eu tenho medo de pessoas notáveis. Se a notabilidade reside num cavalheiro dado à poesia, ele e Lecomte de Lisle, ele e Baudelaire, ele e Apolonius de Rodes desprezam a crítica e o Sr. José Veríssimo; se o sucesso acompanha o indivíduo dado à crítica, este país é uma cavalariça sem palafreneiros; e se por acaso a fama, que os romanos sábios confundiam com o falso boato, louva os trabalhos de um pintor, ele como Mantegna, ele como Leonardo Da Vinci, ele como todos os grandes, tem uma vida de tormentos, de sacrifícios, de ataque aos seus processos; e jamais se julga recompensado pelo governo, pelo país, pelos contemporâneos, de ter nascido numa terra de bugres e numa época de revoltante mercantilismo. É fatigante e talvez pouco útil. Um homem absoluta, totalmente notável só é aceitável através do cartão-postal — porque afinal fala de si, mas fala pouco. Foi, pois, com susto que ontem, domingo, recebi a proposta de um amigo:

— Vamos ver as grandes decorações dos pintores da cidade?

— Heim? Estás decididamente desvairando. As grandes decorações? Uma visita aos
ateliers?

— Não; a outros locais.

— E havemos de encontrar celebridades?

— Pois está claro. Não há cidade no mundo onde haja mais gente célebre que a cidade de S. Sebastião. Mas não penses que te arrasto a ver algum Vítor Meireles, alguns Castagnetto apócrifos ou os trabalhos aclamados pelos jornais. Não! Não é isso. Vamos ver, levemente e sem custo, os pintores anônimos, os pintores da rua, os heróis da tabuleta, os artistas da arte prática. É curiosíssimo. Há lições de filosofia nos borrões sem perspectiva e nas “botas” sem desenho. Encontrarás a confusão da populaça, os germes de todos os gêneros, todas as escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada.

Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas. Saí, devagar e a pé, a visitar bodegas reles, lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim arrasado de confusão cerebral e de encanto. Quantos pintores pensa a cidade que possui? A estatística da Escola é falsíssima. Em cada canto de rua depara a gente com a obra de um pintor, cuja existência é ignorada por toda a gente.

O meu amigo começou por pequenas amostras da arte popular, que eu vira sempre sem prestar atenção: os macacos trepados em pipas de parati, homens de olho esbugalhado mostrando, sob o verde das parreiras, a excelência de um quinto de vinho, umas mulheres com molhos de trigo na mão apainelando interiores de padarias e talvez recordando Ceres, a fecunda. Depois iniciou a parte segunda:

— Vamos entrar agora nas composições das marinhas. Os pintores populares afirmam a sua individualidade pintando a Guanabara e a praia de Icaraí. Por essas pinturas é que se vê quanto o “ponto de vista” influi. Há o Pão de Açúcar redondo como uma bola, no Estácio; há o Pão de Açúcar do feitio de uma valise no Andaraí; e encontras o mesmo Pão, comprido e fino, em S. Cristóvão. O povo tem uma alta noção dos nossos destinos navais; a sua opinião é exatamente a mesma que a do ministro da marinha — rumo ao mar! Por isso, não há Guanabara pintada pelos cenógrafos da calçada que não tenha à entrada da barra um vaso de guerra. A parreira como o bêbado tem uma conclusão fatal: carga ao mar!

— E depois? — Depois entramos nas grandes telas, as grandes telas que a cidade ignora. Estávamos na Rua do Núncio. O meu excelente amigo fez-me entrar num botequim da esquina da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram na parede da casa, alheio ao ruído, ao vozear, ao estrépito da gente que entrava e saía. Eu estava diante de uma grande pintura mural comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou de todos nós ao vermos a Avenida Central, resolveu pintá-la, torná-la imorredoura, da Rua do Ouvidor à Prainha. A concepção era grandiosa, o assunto era vasto—o advento do nosso progresso estatelava-se ali para todo o sempre, enquanto não se demolir a Rua do Núncio. Reparei que a Casa Colombo e o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro plano e que aos poucos, em tal arejamento, os prédios iam fugindo numa confusão precipitada.

Talvez esse grande trabalho tivesse defeitos. Os dos “salões” de toda a parte do mundo também os têm. Mas quantos artigos admiráveis um crítico poderia escrever a respeito! Havia decerto naquele deboche de casaria o início da pintura moral, da pintura intuitiva, da pintura política, da pintura alegórica... Indaguei, rouco:

— Quem fez isto?

— O Paiva, pintor cuja fama é extraordinária entre os colegas.

Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era café, era uma catedral dos grandes fatos. Na parede fronteira, entre ondas tremendas de um mar muito cinzento rendado de branco, alguns destroyers rasgavam o azul denso do céu com projeções de holofotes colossais.

— Há coisas piores nos museus.

— Mas isto é digno de uma pinacoteca naval.


O amador, que é o dono do botequim, e o artista cheio de imaginação, que é o Paiva, não se haviam contentado, porém, com essas duas visões do progresso: a avenida e o holofote. Na outra parede havia mais uma verdadeira orgia de paisagem: grutas, cascatas, rios marginados de flores vermelhas, palmas emaranhadas, um pandemônio de cores.

Quando me viu inteiramente assombrado, esse excelente amigo levou-me ao café Paraíso, na Avenida Floriano.

— Já viste a arte-reclamo, a arte social. Vamos ver a arte patriótica.

— E depois?

— Depois ainda hás de ver os artistas que se repetem, a arte romântica e infernal.

A arte patriótica, ou antes regional, dos pintores da calçada é o desejo, aliás louvável, de reproduzir nas paredes trechos de aldeia, trechos do estado, trechos da terra em que o proprietário da casa, ou o pintor, viu a luz. No café Paraíso, o artista, que se chama Viana, pintou a cidade de Lourenço Marques, vista em conjunto, mas, como qualquer sentimento de amor naquela elaboração difícil brotasse de súbito no seu coração, Viana colocou à entrada de Lourenço Marques um couraçado desfraldando ao vento africano o pavilhão do Brasil. Dessas pinturas há uma infinidade — e eu vi não sei quantas pontes metálicas do Douro ao atravessar algumas ruas.

— Entremos neste botequim, aqui à esquina da Rua da Conceição. Vais conhecer o Colon, pintor espanhol. Colon tem estilo: este painel é um exemplo. Que vês? Uma paisagem campestre, arvoredo muito verde, e lá ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da casa. É sempre assim. Há outros mais curiosos. O Oliveira completa os trabalhos sempre com cortinas iguais às que se usavam nos antigos panos de boca dos teatros. O trabalho é o abuso do azul, desde o azul claro ao azul negro.

— Mas estás a contar os tiques de grandes pintores.

— São parecidos. Eu conheço muitos mais: o velho Marcelino, que tem a especialidade de pintar os homens no pifão; o Henrique da Gama, o primeiro dos nossos fingidores, que faz um metro de mármore em cada cinco minutos; o Francisco de Paula, que adora os papagaios e faz caricaturas; o Malheiros, que reúne gatos, cachorros, cascatas e caboclos em cada tela. É o ideal da arte! São eles os autores dos estandartes dos cordões; são eles que enriquecem! Já entraste num desses ateliers, no Cunha dos PP, no Garcia Fernandes da Rua do Senhor dos Passos? Pois é como um desses studios da Flandres antiga, em que os grandes artistas assinavam os trabalhos dos discípulos, é como se entrasse na grande manufatura da pintura assinada. Vamos ao Cunha.

— Não, não, por hoje basta.

— Mas pelo menos vem admirar na Rua Frei Caneca 1660 famoso trabalho do Xavier.

— O famoso trabalho?

Se os outros, que não eram famosos e não eram de Xavier, tanta admiração me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier e sendo famoso. Precipitei-me num bonde, saltei comovido como se me assegurassem que eu iria ver a Joconda de Da Vinci, e, quando os meus olhos sôfregos pousaram na criação do pintor, uma exclamação abriu-me os lábios e os braços. Era simplesmente um incêndio, o incêndio de uma cidade inteira, a chama ardente, o fogo queimando, torcendo, destruindo, desmoronando a cidade do vício. Tudo desaparecia numa violentação rubra de fornalha candente. Seria o fogo sagrado, a purificar como em Gomorra, ou o fogo da luxúria, o símbolo devastador das paixões carnais, a reprodução alegórica de como a licença dos instintos devora e queima a vida?

Xavier fora mais longe. Aquele mar de incêndio, aquele braseiro desesperado e perene era a fixação do fogo maldito da luxúria, era o fogo de Satanás, porque Satanás, em pessoa, no primeiro plano, completamente cor de pitanga, com as pernas tortas e o ar furioso, abatia a seus pés, vestida de azul celeste, uma pobre senhora.

Esse último painel punha-me inteiramente tonto. Mas não é uma das grandes preocupações da Arte comover os mortais, comovê-los até mais não poder? Xavier comovia, eu estava comovido. Nem sempre é possível obter tanta coisa nas exposições anuais. O meu amigo levou o excesso a apresentar-me o ilustre artista.

— Aqui está o Xavier.

Voltei-me.

— Os meus sinceros cumprimentos. Há sopro romântico, há imaginação, há ardência nesta decoração, fiz com o ar dogmático dos críticos ignorantes de pintura. Ingenuamente, Xavier olhou para mim e, primeiro homem que não se julga célebre neste país, balbuciou:

— Eu não sei nada...Isso está para aí...Se soubesse fazer alguma coisa de valor até ficava triste — só com a idéia de que um dia talvez a levassem do meu país...


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Depois desse delicioso aperitivo, segue o programa De Lá Pra Cá, sobre João Do Rio.







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+ Para baixar o livro A Alma Encantadora das Ruas  clique aqui.

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domingo, 28 de setembro de 2014

Vitória dos Movimentos Culturais de São Paulo

por Julio Canuto

Após longa luta dos movimentos de cultura da periferia paulista, as Casas de Cultura retornam para a administração da Secretaria Municipal de Cultura. A oficialização ocorreu na noite da ultima sexta feira (26.09.2014), na Praça das Artes, no centro de Sampa.

A SMC, em sua página no portal da Prefeitura de São Paulo, afirma que o decreto "é resultado de mais de um ano de discussões entre as secretarias envolvidas e os movimentos culturais." 

Confira os 18 espaços transferidos: 
  • Casa de Cultura do Butantã (Butantã/zona oeste), 
  • Casa de Cultura Palhaço Carequinha (Capela do Socorro/zona sul), 
  • Casa de Cultura Salvador Ligabue (Freguesia do Ó-Brasilândia/zona norte), 
  • Casa de Cultura Chico Science (Ipiranga/zona sul), 
  • Casa de Cultura Itaim Paulista (Itaim Paulista/zona leste); 
  • Casa de Cultura Raul Seixas (Itaquera/zona leste), 
  • Casa de Cultura do Tremembé (Jaçanã-Tremembé/zona norte), 
  • Casa de Cultura Tendal da Lapa (Lapa/zona oeste), 
  • Casa de Cultura M’Boi Mirim (M’Boi Mirim/zona sul), 
  • Paço Cultural Julio Guerra (Santo Amaro/zona sul), 
  • Casa de Cultura Cora Coralina (Santo Amaro/zona sul), 
  • Casa de Cultura Manoel Cardoso de Mendonça (Santo Amaro/zona sul), 
  • Casa de Cultura São Miguel Paulista – Antonio Marcos (São Miguel/zona leste), 
  • Casa de Cultura Campo Limpo (Campo Limpo/zona sul), 
  • Casa de Cultura de Cidade Tiradentes (Cidade Tiradentes/zona leste), 
  • Casa de Cultura Brasilândia (Freguesia do Ó-Brasilândia/zona norte), 
  • Casa de Cultura Lajeado (Lajeado/zona leste) e  
  • Casa de Cultura São Mateus (São Mateus/zona leste). 

As próximas ações, que também constam do decreto, são:

Criação de uma comissão de transição da administração dos espaços, que será composta por representantes das Secretarias de Coordenação das Subprefeituras e de Cultura. 
Serão realizadas reuniões específicas com os gestores e subprefeitos, a fim de apresentar com clareza as diretrizes e colocar em discussão as propostas de ocupação destes locais estratégicos. 
Serão organizadas quatro audiências públicas do programa da Secretaria Municipal de Cultura destinado à construção colaborativa de políticas públicas, o #ExisteDiálogoemSP/CasasdeCultura. 

A SMC também informa que "após ter concluído a transição de sua administração, serão criados conselhos participativos das Casas, que ajudarão a definir o funcionamento dos espaços, atendendo às necessidades específicas de cada região".

Leia a notícia na íntegra, clicando AQUI.

O Fórum de Cultura da Zona Leste alerta:

Não sabemos  ainda em que condições estas casas retornam, a questão da estrutura, dos profissionais que estarão a frente disso, as supervisões de cultura, a  abertura de concurso público, dotação orçamentária própria, como é que  fica a questão da lei das casas de cultura, a forma de gestão, a  participação popular, a construção de ao menos uma casa para cada distrito,  enfim, uma coisa é certa: 

EXIGIMOS A CULTURA FORA DO BALCÃO DE NEGÓCIOS  por entender que CULTURA É DIREITO!  

O Decreto 55.547, de 26 de setembro de 2014 pode ser lido AQUI.

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FÓRUM DE CULTURA DA ZONA LESTE - FCZL - 
 #PelaLeideFomentoAPeriferia

Postagens relacionadas:

Manifesto pela Cultura na cidade de São Paulo. 09.agosto.2014: http://pulaomuro.blogspot.com.br/2014/08/manifesto-pela-cultura-na-cidade-de-sao.html

2% do orçamento para a Cultura já! Carta aos vereadores. 03.dezembro.2013: http://pulaomuro.blogspot.com.br/2013/12/2-do-orcamento-para-cultura-ja-carta.html


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O nobre Pacifismo de Bertrand Russell



Ele passou a vida inteira contra a guerra - mas como o legado de nosso mais famoso ativista da paz se sai diante de uma análise? 


Por Jonathan Rée*
Tradução Leonardo André


Ilustração de Martin Nicolausson / MP Arts

Bertrand Russell deve ser um dos intelectuais públicos mais célebres de todos os tempos. No início do século 20 ele ganhou fama internacional por suas contribuições para a lógica matemática e a defesa do "método científico na filosofia". Mais tarde, ele gerou muita polêmica ao questionar o cristianismo e a moralidade sexual tradicional. Mas na década de 1960, ele se tornou ainda mais famoso por conta de sua militância na causa do desarmamento nuclear e da paz: a questão, tanto quanto ele estava preocupado, não era apenas o bem-estar humano, mas indagar se "há futuro para o homem". Ao final de sua vida (ele morreu em 1970, aos 97 anos de idade), ele descreveu seu legado filosófico como algo "trivial" e indigno de atenção dos estudiosos, "pelo menos", como ele dizia, "se comparado ao valor existência humana".

Russell tornou-se o primeiro presidente da Campanha para o Desarmamento Nuclear em 1958, mas renunciou dois anos mais tarde, a fim de presidir o Comitê dos 100, em que prometia ser mais militante do que a CND, usando todos os meios necessários para que o governo britânico viesse a proibir a bomba.

"Há", ele escreveu,

um sentimento muito generalizado de que por pior que seja a política, não há nada que as pessoas privadas possam fazer a respeito. Este é um erro completo. Se todos aqueles que desaprovam a política do governo tomarem parte em grandes manifestações de desobediência civil,  poderiam tornar impossível a insensatez do governo e obrigar os chamados estadistas a concordar com medidas favoráveis à vida humana.

O impacto da retórica de Russell - seus sarcasmos astutos, certezas serenas e antíteses contundentes - foi reforçada pela imagen de um velho cavalheiro garboso sentado na rua com outros manifestantes e por ser preso em 1961 por violação da paz. Quando perguntado pelo magistrado se ele prometeria melhorar seu comportamento, ele disse: "Não, eu não" e foi condenado a sete dias de prisão em Brixton.

Mesmo para aqueles que não concordavam com ele, o idoso Russell tornou-se um emblema da retidão moral aliado a inteligência sobrenatural. Mas havia alguns que tinham dúvidas, tanto sobre sua análise da guerra e da violência, quanto sobre seu estilo carismático de liderança. Ele não era um pouco ansioso demais para fazer o papel de um salvador angelical? Um pouco interessado demais em apresentar-se como um intelecto prodigioso, que graciosamente descera das alturas do Olimpo para resolver a confusão que nós, terráqueos insensatos, nos  metemos? Ele não ficou, talvez, um pouco confortável demais em sua imagem de pessoa de princípios impecáveis e solitário contra toda a maldade dos políticos? E para aqueles com um senso de história também havia a suspeita de que ele estava voltando, na velhice, para aquele papel que ele havia criado para si mesmo de defensor da paz durante a Primeira Guerra Mundial, e que, em vez de aprender com o passado, ele estava simplesmente repetindo-o.

Sempre houve uma certa altivez sobre Russell, como pensador e como ativista. Ele nasceu na aristocracia, e recebeu a sua formação de professores particulares na casa palaciana de seu avô, Earl Russell, que serviu como Primeiro-Ministro da rainha Victoria. Ele então foi para o Trinity College, Cambridge, e depois de se formar, em 1895, recebeu uma grande herança e se tornou um cavalheiro de meios independentes. Ele começou a se interessar por política, pela agitação pelo comércio livre, publicou um estudo sobre o movimento socialista na Alemanha e defendeu o sufrágio feminino no parlamento em 1907. Mas ele também teve inclinação para as certezas da razão pura, e colocou-se a tarefa de reformar a matemática, fornecendo-lhe bases lógicas de um tipo nunca visto antes. Em 1903, expôs a sua visão de certeza transcendental em um pequeno livro chamado Princípios da Matemática, e ao longo da década seguinte, explorou suas implicações em três grandes volumes de Principia Mathematica, escrito com a ajuda do lógico A. N. Whitehead, que deixou incompleta em 1913.

Russell então retornou ao Trinity College para dar palestras sobre sua pesquisa, mas sua confiança foi abalada quando um jovem engenheiro austríaco chamado Ludwig Wittgenstein passou a fazer perguntas embaraçosas sobre a suposta realidade dos objetos da lógica e da matemática. Logo depois, a Grande Guerra eclodiu, e Wittgenstein partiu para lutar por seu país. Russell estava chocado - não porque Wittgenstein estava lutando do lado errado, mas porque ele estava lutando contra tudo - e ele anunciou então que se juntaria às "agitações pela paz", e que ele iria "desistir da filosofia" por isso. Em agosto de 1914 ele se juntou a vários amigos - nomeadamente Lady Ottoline Morrell ("totalmente imoral Ottoline Morrell" como algumas pessoas a chamavam) - na criação de uma organização anti-guerra conhecida como a União de Controle Democrático. A lógica matemática agora lhe parecia "uma ocupação um tanto fútil", e ele começou a dirigir reuniões de protesto, onde combateria a injustiça da guerra e o enganoso Estado britânico.

Mas ele acabou frustrado. Sua audiência consistia de ricos jovens românticos trajados em roupas da moda que gostavam de ter a sua rebeldia endossada por um filósofo famoso, mesmo que seu trabalho fosse, como eles mesmos admitiam, "totalmente além de nossa compreensão". Russell estava determinado a chegar a um público mais amplo - jovens de todas as classes que formavam até então um voluntariado ansioso para o serviço militar - e Lady Ottoline se ofereceu para ajudar. Em fevereiro de 1915 ela levou Russell a uma casa de campo em Sussex para encontrar seu jovem amigo D.H. Lawrence, famoso autor de Filhos e Amantes, romance que retratava a vida da classe trabalhadora. Lawrence compartilhou o desprezo de Russell para com a política de guerra, mas não acreditava que a paz poderia ser provocada por apelos abstratos a probidade, a razão e ao progresso. Depois de uma longa conversa Russell foi convertido. "Ele é incrível", disse ele a Morrell enquanto voltavam para Londres; "Ele é infalível ... ele vê tudo e tem sempre razão." Dentro de alguns dias, ele concordou em colaborar com Lawrence na construção de uma nova teoria política baseada na ideia de que as vidas humanas são moldadas por impulso irracional e não por um cálculo consciente. "Deve haver uma revolução no Estado," Lawrence disse a ele; "Deve começar com nacionalização de tudo... indústrias e meios de comunicação, da terra – e de um só golpe", e a revolução passaria pelo "casamento e pelo amor e por tudo... então, e somente então, começaremos a viver ".

Russell estava fascinado, e Lawrence correspondia, confessando uma "manifestação real de amor". Ele se sentiu "terrivelmente importante", quando foi convidado a se encontrar com amigos de Russell em Cambridge, e sonhava em inserir-se, proclamando que "a grande experiência de vida para cada homem é a sua aventura com a mulher." Mas ele logo descobriu que os membros do círculo de Russell, com seus apelidos brincalhões e vozes superiores, não estavam interessados ​​naquele tipo de coisa, e passou a odiá-los. Russell estava inclinado a concordar. Ele decidiu se juntar a Lawrence na formação de uma "pequena sociedade" para propagar a política da paz, e propôs iniciar com uma série conjunta de palestras públicas em Londres, no Outono.

Russell prontamente apresentou uma sinopse de suas palestras, baseando seu argumento no contraste proposto por Lawrence entre impulsos "possessivos", que levam à violência e à guerra, e impulsos "criativos", que florescem através do amor e da verdadeira democracia. Lawrence não ficou impressionado. Russell deveria abandonar a "consciência mental", disse ele, em favor do "conhecimento de sangue que vem ou através da mãe ou através de relações sexuais". Russell não estava preparado para ir tão longe. "Lawrence é um crítico tão feroz quanto Wittgenstein", ele confidenciou a Morrell, "mas eu acho que Wittgenstein está certo e Lawrence  está errado." Lawrence retaliou com brio ("Eu preferiria a rapinagem e a crueldade dos soldados alemães, do que suas palavras de bondade "), e desde então os seus caminhos divergiram.

Implacável, Russell levou suas leituras ao Caxton Hall, Westminster, na primavera de 1916, logo que o governo tornou o serviço militar obrigatório. Sua audiência incluía um grupo de amigos que dizia estar planejando indicá-lo ao cargo de Primeiro-Ministro - seu avô tinha sido um, afinal de contas, e ele era um aristocrata adequado ao cargo, e o plano certamente poderia ser efetivado conversando com as pessoas certas. Houve também um grupo de jovens admiradores, "deslumbrados", como um deles disse, com a perspectiva de "um intelecto de poder analítico aterrorizante... expondo e desintegrando as ilusões do patriotismo em tempos de guerra". A resposta de Morrell foi mais comedida.

"Foi uma ocasião bastante cômica", escreveu ela,

todos as baba-ovos que assistem palestras sobre qualquer assunto estavam lá, e entre eles havia um tal Capitão White, um tanto quanto doido, que fez um longo discurso sobre o sexo e o amor livre, ressaltando que se uma criança nasce de pais que se amam, um ao outro, não teria motivos para lutar... Então Vernon Lee levantou-se e fez um longo discurso sobre uma carteira de cigarros, agitando as mãos, com os óculos balançando...; e, claro, um representante das Artes e Ofícios que fez um discurso apaixonado e enfadonho - dizendo que a arte curaria qualquer tendência para a guerra. Bertie ficou na plateia comolhar infeliz. Por fim, ele teve que pedir-lhes para se sentarem.

Russell recebeu uma carta de Lawrence dizendo-lhe que suas palestras estavam fadadas a ser inúteis, mas Russel já não estava mais interessado; ele havia chegado à conclusão de que Lawrence era um egoísta monstruoso, sem o “real desejo de tornar o mundo melhor, repetindo seu monólogo eloquente sobre o quão ruim o mundo era".

Em matéria de eloquência autoindulgente, no entanto, Russell estava começando a demonstrar que poderia ser tão ruim quanto Lawrence. "Anseio levar ao país uma campanha “anti-guerra", disse ele, e ele certamente achou essa atividade gratificante; Lytton Strachey notou que seu triste amigo famoso "estava finalmente feliz - regozijando-se diante dos horrores e suas lições de moral". Russell não ficou desapontado quando, no final de maio, o Ministério da Guerra o processou por "fazer declarações susceptíveis de prejudicar a disciplina de recrutamento das forças de Sua Majestade". Ele só se irritou quando foi despojado de seu cargo no Trinity College e expulso de seus aposentos, mas ficou encantado quando uma aliança de ilustres colegas - incluindo alguns que não concordavam com ele sobre a guerra - protestou contra o tratamento desrespeitoso do governo dedicado ao aristocrático e renomado filósofo. Ele seguiu em frente e cumpriu sua pena de dois meses de prisão, calculando que iria gerar mais simpatia para a sua causa, mas o plano foi frustrado quando o conteúdo de seus aposentos foi apreendido e leiloado para pagar sua fiança. Em vez de ir para a prisão, ele partiu para uma turnê de palestras no sul de Gales, onde foi estimulado pelo entusiasmo de seu público da classe trabalhadora.

Em seu retorno, ele preparou um conjunto de discursos sobre os "ideais políticos" para apresentar em vários centros industriais no outono, mas descobriu que o Ministério da Guerra o havia impedido de visitar "áreas proibidas", como Glasgow, Edimburgo e Newcastle, por medo que seus "princípios viciosos" pudessem se espalhar entre os trabalhadores da indústria. (ele conseguiu levar seus discursos a Manchester e Birmingham, os quais foram prontamente publicados nos Estados Unidos, embora tenham sido proibidos na Grã-Bretanha). Seu caso foi repetidamente tratado no parlamento, para irritação generalizada: "Não seria economia de tempo para a Câmara e benefício para o país", como perguntou um membro do Tory, "se este homem fosse preso ou enviado para a Alemanha? "

As Palestras de Russell em Caxton Hall foram publicadas como Princípios de Reconstrução Social, no final do ano, e o idoso Conde de Cromer os condenou como "completamente perniciosos". Cromer admitiu que Russell era um "homem culto" e uma “pessoa superior – na verdade, muito superior”, mas sua teoria de impulsos "criativo" e "possessivo" era claramente "um incentivo para o ódio de classe", e ele parecia estar paralisado por um desejo de "martírio mental". A acusação de auto-glorificação foi aprovada, a partir de um ângulo diferente, por Lawrence: Russell e seus amigos eram, segundo ele, "antiquados, pacifistas atrapalhados e amantes da humanidade" – em suma, "a nossa doença, e não a nossa esperança".

O livro vendeu bem, e Russell se tornou "objeto de culto a heróis", como disse um observador; "Sua intransigência franca deu coragem a opositores de menos monta contra a guerra", e ele se tornou "símbolo de fé na razão e na tolerância". Quando um jovem e valente oficial chamado Siegfried Sassoon começou a perder a fé na guerra, Russell o recebeu em seu apartamento em Londres com bondade e paciência. "Seu intelecto científico austero foi muito além do meu alcance", como recorda Sassoon, mas quando Russell disse que ele poderia "servir o mundo por pensar de forma independente", ele o convenceu a proclamar sua oposição à guerra, e "assumir as consequências".

Russell estava feliz por ter ajudado Sassoon e alguns outros como ele, mas em 1917 ele estava chegando à conclusão de que suas tentativas de conter o caos da guerra tinham sido totalmente infrutíferas. Assim, decidiu retirar-se do ativismo e retornar à Filosofia. Ele havia perdido a confiança em sua capacidade de trabalho original  "principalmente por causa de Wittgenstein", como ele disse a Morrell – mas ele estava pronto para relançar a si mesmo como um escritor popular e professor freelance, mantendo um fluxo de comentários políticos dissidentes. Em seguida, em janeiro de 1918, ele publicou uma crítica precipitada sobre o exército norte-americano, que o levou a uma acusação de obstruir a diplomacia internacional e a uma pena de seis meses de prisão em Brixton.

A perspectiva de prisão não foi totalmente desagradável para Russell: estar à parte da publicidade política, proporcionou-lhe condições perfeitas para a escrita filosófica. Através de um recurso lhe foi atribuído a "Primeira Divisão" do sistema prisional, o que significava que ele seria tratado de forma adequada à sua condição social: permissão para usar suas próprias roupas, alugar um quarto privativo com seus próprios livros e mobiliário, comer o seu próprio alimento e empregar outros prisioneiros como empregados. (Tal opção tinha sido abolida quando ele voltou a Brixton mais de quarenta anos mais tarde). "A vida aqui é como a vida em um transatlântico", disse ele, e ele pode acompanhar os últimos movimentos da guerra ao obter de volta sua velha rotina e escrever a Introdução à Filosofia Matemática.

No verão de 1919, ele recebeu uma mensagem de Wittgenstein, que tinha sobrevivido aos perigos da linha de frente dos campos de batalha e agora estava aguardando liberação de um campo de prisioneiros de guerra na Itália. Wittgenstein esperava que eles pudessem reviver sua relação filosófica, e Russell, com sua generosidade habitual, marcou um encontro com ele, em Haia, em dezembro. Quando Wittgenstein mostrou-lhe um esboço do que se tornaria o seu Tractatus Logico-Philosophicus, Russell declarou ser um "ótimo livro", mas Wittgenstein não foi capaz de devolver o elogio: ele considerava Introdução à Filosofia Matemática de Russell superficial, equivocado e não regenerado . Russell não tentou defendê-la (era apenas um "livro popular", disse ele) e mesmo assim ele tinha outras coisas em mente. Logo depois, ele estava sendo homenageado em Barcelona, ​​não só como um lógico, mas como um militante heroico em nome da paz mundial, e, em seguida, ele fez uma turnê pela Rússia Soviética, discursando com Lenin, Trotsky e outros líderes revolucionários, antes de passar um ano alegre na China, onde ele pregava as virtudes do pensamento científico moderno para o público, que incluia o jovem Mao.

Apesar de todas estas aventuras – além de ter se divorciado e casado novamente e ter se tornado pai – Russell não esquecia Wittgenstein, que agora estava ensinando em uma escola primária nos Alpes austríacos. Em agosto de 1922 Russell estava passando pela Áustria em seu caminho para uma escola de verão italiano da Liga Internacional das Mulheres para a Paz e Liberdade, e marcou um encontro com Wittgenstein novamente. O encontro não foi um sucesso. Wittgenstein considerava o trabalho filosófico de Russell bobo e superficial, e ele ridicularizou a ideia de uma Liga pela Paz e Liberdade. "Eu suponho que você preferiria uma liga pela Guerra e Escravidão", Russell respondeu, e Wittgenstein replicou "eher noch!" - "Muito melhor, muito melhor!" Essa posição não era totalmente séria, claro: é óbvio ululante que a paz é melhor do que a guerra, e a liberdade preferível à escravidão, assim como a saúde é melhor do que a doença, e felicidade é preferível à depressão. Mas ele não estava brincando: diferenças políticas genuínas, pensou ele, não são resolvidas declarando-se o óbvio. Entretanto, ele respeitava as virtudes do antigo estadista: prudência, diplomacia e devida cautela sobre as consequências não intencionais da ação política. Apresentar-se como defensor da "Paz e da Liberdade" era um exercício de presunção e auto-propaganda, em vez de um ato heroico de virtude moral ou política, ou uma contribuição substancial para o bem comum. Russell pode ser um ateu na teoria, mas ele parecia estar se realizando como um pastor hipócrita. "Russell e os padres", como Wittgenstein diria, "tem feito um mal infinito, um mal infinito".

Parece-me que Wittgenstein tinha um ponto. A agenda da paz de Russell e seus seguidores sempre esteve baseada na suposição de que a guerra é simplesmente um eufemismo para a loucura do assassinato em massa patrocinado pelo Estado, e que poderíamos impedi-lo, direcionando-se para a sanidade moral e política –, comprometendo-nos com a justiça mundial e o fim da pobreza, por exemplo, ou a igualdade social e sexual, ou de propriedade, ou o um governo mundial, ou uma explosão de criatividade e sexo como na teoria D.H. Lawrence. Mas os caminhos para a guerra são pavimentados não apenas com maldade, mas com a certeza da justiça. As pessoas que optam por participar de ações militares são mais propensas a ser altruístas do que egoístas: estão preparadas para sacrificar suas vidas por causa de algo que as transcende, como o seu país ou a sua religião, ou o socialismo, o secularismo ou a democracia, ou um mundo onde a paz e a tolerância reinará para sempre. É claro que eles são responsáveis​​, como o resto de nós, por estarem seriamente equivocados de inúmeras maneiras: eles provavelmente têm uma escala de valores inconsistente, uma frágil compreensão dos fatos e senso de proporção imperfeito. Podem, assim, possivelmente, estar abertos à persuasão através da argumentação diplomática, negociação sutil e retórica engenhosa, mas nada vamos conseguir nada acusando-os de egoísmo, niilismo ou idiotice moral, ou dando palestras sobre auto-sacrifício, princípios elevados e o futuro da humanidade.

Diferentes ameaças à paz, como diferentes ameaças à saúde, exigem diferentes cuidados e intervenções diferentes, dependendo de cada caso individualmente, e sucesso em evitar a guerra vai depender da sorte, tanto quanto o julgamento. Se a perspectiva de extermínio nuclear tem diminuído desde o momento em que Russell estava profetizando isso, a explicação reside menos em campanhas pela paz e liberdade do que nas consequências inesperadas de acontecimentos que ninguém poderia ter previsto - os cálculos e erros de cálculo de Mikhail Gorbachev, para exemplo, ou a astúcia acidental de Ronald Reagan. A ironia é uma força da história, bem como uma figura de linguagem, e na política você precisa estar preparado para surpresas, mesmo se você é tão inteligente quanto Bertrand Russell.

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*Jonathan Rée se descreve como "filósofo freelance e historiador", mas qualquer um que tenha lido seu jornalismo amplamente divulgado irá conhecê-lo simplesmente como um dos melhores escritores de todos. Sua escrita tem aparecido em Evening Standard,  London Review of Books, Prospect,  Independent, Times Literary Supplement, entre muitos outros.


Este artigo foi trazido a você por New Humanist, uma revista trimestral de idéias, ciência e cultura.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Curta Sexta Curta 30 - Supervenus

por Julio Canuto


A trigésima edição do Curta Sexta Curta traz um curta de menos de 3 minutos, mas que tem causado grande impacto desde que foi lançado, no ano passado: SUPERVENUS, de Fréderic Doazan.

Em uma época em que a aparência é tudo e a "vida ideal" parece estar ao alcance de quase todos, ao menos nas redes sociais, nas marcas "ostentadas" e locais frequentados, as consequências podem não ter tanto glamour: endividamentos, vazio de sentido e a constatação desesperada de que nem tudo pode ser comprado. No curta, uma dura e até exagerada crítica aos procedimentos cirúrgicos desnecessários em busca "da" beleza. 


SUPERVENUS

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Brasil em números II: Território e População

por Julio Canuto


Em continuação a postagem de 2 de setembro, já com certo atraso, passamos a tratar dos temas do estudo "O Brasil em número", lançado pelo IBGE em 28 de agosto. Os dois primeiros capítulos falam de território e população. Para ser breve e, espero, atrair a curiosidade do leitor para o documento, deixo dois trechos dos artigos que compõem esses capítulos. Ao final, um curto comentário.

TERRITÓRIO 

...que potência é esta que se encontra em situação tão modesta nos indicadores de ordem social? Afinal, o Brasil se situa entre os principais países do Mundo e esta inserção não condiz com esse fato. Uma potência incompleta, periférica, apesar de todo seu dinamismo, com certeza, e, que apresenta contrastes tão acentuados, desigualdades socioespaciais tão profundas que, juntas poderiam anular todo o aparente crescimento econômico, recentemente conquistado. Tal desempenho, importa salientar, deve ser creditado, sobretudo, ao papel exercido pela enorme significância dos setores mínero e agrário exportadores da economia brasileira, ao peso dos variados minérios, dos grãos, das carnes e de outros itens na balança comercial nacional. Para resolver esta questão proposta, deve-se salientar que aqui entra o território, conceito basilar da Geografia e da mudança crucial na vida de qualquer nação, e, por conseguinte, da busca de uma melhor inserção do Brasil na geoeconomia e no jogo geopolítico mundial. A realização de reformas básicas que melhorem os indicadores sociais, democratizando a sociedade, possibilitando uma maior mobilidade social das classes mais marginalizadas, beneficiando toda a população brasileira, certamente tem que passar pela democratização do acesso ao território, pois afinal, uma verdadeira Nação se faz por meio da articulação do povo e de seu território. Reformas como a agrária, a urbana, a educacional, a da saúde são, portanto, imprescindíveis para a construção desse ideal, no qual povo e seu território constituem as suas maiores riquezas, estas que são o fundamento da Nação.

Marly Nogueira
Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Geografia pela Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Doutora em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Associada do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais Especialista nas áreas da Geografia Regional e Urbana, com ênfase nos temas da regionalização, região, rede urbana, cidades médias e pequenas.


POPULAÇÃO

O número médio de filhos por mulher no Brasil esconde contrastes não apenas regionais e por situação de domicílio, mas também diferenciais por cor ou raça, por nível de instrução e por rendimento. Em 2010, a TFT era de 2,49 filhos na Região Norte e 1,70 filhos na Região Sudeste; 2,63 filhos nas áreas rurais e 1,79 filhos nas áreas urbanas; 1,63 filhos entre as auto-declaradas brancas, 2,12 filhos entre as pretas e pardas e 3,88 filhos entre as indígenas; 3,09 filhos entre as mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto e 1,14 filhos entre as de nível superior completo; 3,90 filhos entre as com rendimento nominal mensal domiciliar per capita de até ¼ do salário mínimo e 0,97 filhos entre aquelas com rendimento acima de 5 salários mínimos.
[...]
Em 2020, estima-se que 20,9% da população terá menos de 15 anos de idade, 65,3% terá entre 15 e 59 anos e 13,8% estará com 60 anos ou mais. A “janela de oportunidade” da educação continuará aberta, uma vez que a população que deverá frequentar a educação infantil e básica será ainda menor do que a de 2010, em termos absolutos. Já a população idosa continuará crescendo. Esta situação sobrecarregará não apenas o sistema previdenciário, mas também o de saúde, sobretudo se for levado em consideração o fato de que, em 2020, a população de 80 anos e mais será 2,5 vezes maior do que aquela observada em 1991 e 25% maior que a de 2010. Uma situação mais preocupante é a da população em idade ativa, que deverá manter o mesmo tamanho relativo observado em 2010, mas terá que dar conta de uma população idosa proporcionalmente maior do que a da década anterior.

Paula Miranda-Ribeiro
Mestre em Demografia. Doutora em Sociologia. Professora Associada Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Departamento de Demografia e CEDEPLAR. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.

No primeiro trecho, parte do capítulo Território, a Profa Marly Nogueira chama nossa atenção para a necessidade inadiável de reformas nos setores agrário, urbano, saúde e educação, questões fundamentais e condicionantes da democratização do acesso ao território. No segundo trecho, parte do capítulo População, da Profa. Paula Miranda-Ribeiro, destacamos dois tempos sobre o perfil da população brasileira: o atual, com grandes diferenças a depender da região, situação do domicílio, cor ou raça, instrução e rendimento; e o futuro, mas não distante, com a constatação do envelhecimento da população.

Ora, os dois trechos tratam de questões complementares. O segundo expõe uma realidade que indica os problemas questionados pelo primeiro, que por sua vez também apontam caminhos para superar os desafios, ainda que de maneira não aprofundada. 

Estamos falando de um cenário que parte do contexto atual e sua projeção para seis anos apenas. Isto é, mudanças já em curso e que tomaram formato decisivo durante a próxima gestão do executivo e legislativo dos níveis federal e estadual. Portanto, questões a serem tratadas pelos atuais candidatos, quer sejam governo, base de apoio ou oposição, ou seja, independente da sorte de cada um nas eleições.

Enfim, diferentes realidades e seus impactos sobretudo na educação, saúde e previdência, mas também no trabalho, habitação, etc. Temas que traremos nas próximas postagens.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Brasil e os estados brasileiros em números

por Julio Canuto

Na ultima sexta feira, 29 de agosto, o IBGE publicou a 22a edição do estudo Brasil em números, publicação anual que traz dados sobre diversos temas: território, população, habitação, saúde, previdência social, educação, trabalho, participação política, preços, contas nacionais, agropecuária, indústria, energia, comércio, transportes, turismo, comunicações, finanças, comércio exterior, ciência e tecnologia, governo, meio ambiente. Todos com análises de professores, técnicos e pesquisadores, com tabelas e gráficos, onde fica evidente que os dados de um tema influenciam os demais. Na maioria dos temas, os dados vão até 2012, mas em alguns há dados até de 2013.

CLIQUE AQUI PARA ACESSAR O ESTUDO EM PDF

Apesar de ser uma publicação anual, este ano ela ganha ainda mais importância pelas eleições estaduais e federais. A exemplo do que ocorre com outros estudos, tais como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD Contínua (este ano, devido a greve dos trabalhadores do instituto, teve seu lançamento adiado para novembro), estas publicações trazem importantes informações que deveriam chamar a atenção dos candidatos e da população em geral. Me refiro especificamente aos problemas estruturais, que envolvem planejamento e investimentos imediatos, mas com resultados a longo prazo. 

Um exemplo é a informação, de extrema importância, divulgada na PNAD contínua do 4o trimestre de 2013, com relação ao nível de instrução das pessoas com 14 anos ou mais de idade, ou seja, em idade de trabalhar: no Brasil, 41% não haviam completado o ensino fundamental, com quadro diferenciado por regiões, como segue: Nordeste, 51%; Norte, 47%; Sul, 39%; Centro Oeste, 38%; e Sudeste, 35%. Por outro lado, apenas 11% dos brasileiros em idade de trabalhar haviam concluído o ensino superior, sendo que no Sudeste encontra-se o maior percentual: 13,4%, enquanto que o Nordeste apresentava o pior resultado: 6,5%.

Esta constatação envolve não apenas o tema Educação, mas diretamente os temas educação profissional, trabalho, renda e, por consequência, tem influencia sobre o crescimento, desenvolvimento, condições de vida e até mesmo na violência. Demanda intenso trabalho de quem pretende governar o país, sabendo de antemão que os resultado só virão a longo prazo, possivelmente fora de sua gestão. Por isso chamei de "problema estrutural".

Durante este mês iremos destacar alguns dados e trechos de análises que consideramos muito importantes e que gostaríamos que estivesse sendo tratado nos debates.


sábado, 9 de agosto de 2014

Manifesto pela cultura na cidade de São Paulo

ATENÇÃO QUEBRADAS TODAS!!!

CONTAGEM REGRESSIVA... FALTAM 26 DIAS PARA O PREFEITO CUMPRIR SUA PALAVRA E ASSINAR O DECRETO PARA A TRANSFERÊNCIA DA GESTÃO DAS CASAS DE CULTURA PARA A SMC.

Nesta segunda, 04/08, estivemos (junto com outros coletivos periféricos da cidade) no evento de lançamento da plataforma Mapas Culturais, organizado pela prefeitura de SP. Fomos lá mais uma vez para defender o óbvio: a novela das Casas de Cultura. A pauta mais comum e agonizante de todas as quebradas que anseiam por cultura como direito. Raqueamos o evento burguês, intervimos e lemos a carta-denuncia para todas otoridades ali presentes, causamos um constrangimento nos defensores da velha política e demos nosso primeiro recado. 

Mediante o feito, o Prefeito Fernando Haddad se comprometeu publicamente em cumprir com a promessa que já corre desde o início da gestão, diversas vezes reiteradas pelo Secretário de Cultura Juca Ferreira, de transferir as Casas de Cultura para SMC nos próximos dias.

E agora o prazo já está correndo, 30 dias pra resolver este sapo que a periferia vem engolindo há 10 anos. Iniciamos a contagem regressiva e se não sair, a chapa vai esquentar, vai ser lama pra todo lado. A periferia vai cobrar e incomodar mesmo!!! Seremos a pedra no sapato, a mosca da sopa! E não adianta dar chilique e nem chamar pro café! Não negociaremos nossos direitos!

Fórum de Cultura da Zona Leste






[Fotos: Amanda Freire] (observe as caras e bocas)



DENÚNCIA SOBRE AS CASAS DE CULTURA DO MUNICÍPIO DE SP
Ao longo de 10 anos as Casas de Cultura passaram por um processo de sucateamento e abandono generalizado. Com a mudança de gestão na Prefeitura, alimentamos a esperança de que este processo fosse revertido. É unanimidade nos quatro cantos da cidade, entre todas as coletividades, grupos, agentes culturais e comunidades que as Casas devem retornar para a gestão da Secretaria Municipal de Cultura (SMC).

As Casas de Cultura até o momento estão vinculadas às subprefeituras, que por sua vez, estão loteadas para os vereadores, os quais distribuem os cargos de coordenação das Casas ao seu bel prazer, sem qualquer compromisso com a qualificação profissional das pessoas indicadas para exercer a função. O orçamento para cultura nas subprefeituras é escasso, quase inexistente. Falta vontade política para melhorar a situação e, a comunidade que deveria ser beneficiada com este equipamento cultural público, acaba pagando o preço.

É VERGONHOSO ver as Casas de Cultura no balcão de negócios de distribuição de cargos, enquanto as comunidades agonizam com pouquíssimas opções de lazer e cultura, principalmente nas periferias do município de SP.

O Secretário de Cultura, Juca Ferreira, assumiu publicamente o compromisso, desde o primeiro encontro #EXISTEDIÁLOGOEMSP (em 05/02/2013) e em diversas reuniões, encontros e seminários posteriores, de que as Casas de Cultura retornariam à SMC, faltando para isso apenas “resolver alguns trâmites burocráticos” para que fosse publicado o decreto. Porém, até o momento (com mais de 1 ano e 5 meses), o que vemos é uma inércia e nenhum empenho em resolver logo este problema que tanto aflige as periferias da Cidade.

É triste ter que defender o óbvio, mas é necessário dizer: as Casas de Cultura são o berço de diversas coletividades e grupos, e em muitos casos são o primeiro contato de muitas crianças, adolescentes e jovens com a arte e a cultura. Não podemos deixar que em nome da “governabilidade” as casas permaneçam sucateadas e ainda com a velha política.

Portanto, EXIGIMOS:
·         RETORNO IMEDIATO DAS CASAS E SUPERVISÕES DE CULTURA PARA A GESTÃO DA SMC!
·         2% PRA CULTURA JÁ (de forma descentralizada de acordo com a densidade demográfica)!
·         REGULARIZAÇÃO DOS ESPAÇOS CULTURAIS QUE OCUPAM ESPAÇOS PÚBLICOS!
·         TRANSPARÊNCIA NO ORÇAMENTO DA CULTURA!

CHEGA DE SERMÃO! QUEREMOS VER AÇÃO!
CHEGA DE FROUXURA! QUEREMOS MAIS CULTURA!
 
Assinam este documento: cidadãos, artistas e diversas coletividades da cidade, dentre elas:
Fórum de Cultura da Zona Leste
Rede Popular de Cultura M’Boi Campo Limpo
Bloco de Ocupação Cultural de Espaços Públicos
Fórum de Cultura de São Mateus
IMCITA
Cultura ZL
Coletivos Culturais de Cidade Ademar e Pedreira
Movimento Cultural da Penha
FORUM HIP HOP Municipio de SP
Movimento Cultural de Itaquera
Sarau O que dizem os umbigos
Coletivo ALMA
Brava Companhia
Grupo doBalaio
Reação Arte e Cultura
Jornal Voz da Leste
Coletivo Perifatividade
Grupo Transformar
Sucatas Ambulantes
Cia. Mapinguary
Trupe Kuaracï-abá (cabelos do sol).
Coletivo Fora de Frequência
Grupo musical Forró di Muié
Bloco do Beco
Sede móvel Pq. Belém
Cenário Periférico
Cineclube Kinopheria
Trupé na Rua
Sarau Literarua
Sacolão das Artes
Sarau da Quebrada
Coletivo Fora de Frequencia
Sarau dos Loucos
Jaçarau
Graffiz Festa
Prá,çarau
Banda Gricerina
Cia de Artes Decalogo JALC
Parábola
Kiwi Companhia de Teatro
IPJ - Instituto Paulista de Juventude
Sarau A Voz do Povo
Jornal José Bonifácio
Banda Nego Veio
Fórum Permanente de Cultura de Taboão da Serra
Bloco das Cores
Muros que gritam
Velha Guarda do Helga
Manulo Silva Sauro grafite
TV Doc Fundão
Sarau Candeeiro
Tv Doc Capão
Marcelo Ribeiro - prod. cultural/M'boi Mirim
Agencia Solano Trindade
Sociedade Samba Dá Cultura
Casa de Cultura de M'Boi
Mestre Arakunrin (capoeira)
Grupo Espírito de Zumbi
Espaço Cultural CITA
Bloco Afro É di Santo
Grupo Teatral Cavalo de Pau
Grupo da Melhor Idade Flor de Lis
Hugo Paz
Conselho Gestor da CECCO Pq. Raul Seixas
Coletivo da Albertina
No Batente
Cia Porto de Luanda
Nhocuné Soul
Itaquera na Cena
PelaArtePelaZuera
Pastoral da Juventude São Mateus
Engrenagem Urbana
Associação de Moradores Jardim Helian Itaquera
Observatório da Juventude
Jongo dos Guainás
Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes
Edvaldo Santana
Cordão Carnavalesco Boca de Serebesque
Cia Oslo
Cine Campinho
Casa das Crioulas
Pula o Muro - Blog
Comunidade Cultural Quilombaque
AGENDES
Rua de Lazer
Viela Cultural
Fórum Popular de Saúde de Itaquera
Cultura Leste - Blog
CEDECA Sapopemba
Centro de Direitos Humanos de Sapopemba
Juntas na Luta
Pombas Urbanas
M.A.P. Movimento Aliança pela Praça
Banda Zabah Bush
Tenda Literária
Amigos da Tinta Guaianases
Uneafro-Brasil
Poesia Maloqueirista
Assoc. Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular
Blog NegroBelchior
Associação de Moradores Povo em Ação (Valo Velho)
ConexÃo Circo
Peu Pereira Audio Visual ZS
GRUPO U-CLÃN
Projeto Vida Corrida
PoetaS Luan Lundo, Augusto, Casulo
Clamarte
Menor Slam do Mundo
Sarau do burro e Selo do burro
Brechoteca
Sarau do binho
Encontro de Utopias
Poetas do Tietê
Slam da Guilhermina
Galpão Arthur Netto
Comunidade Samba da Vila
 
A carta segue aberta para assinaturas. E-mail forumdeuclturadazonaleste@gmail.com   ou dá um salve no face do fórum.