quinta-feira, 3 de abril de 2014

A mulher sem direitos e sem liberdade

por Julio Canuto
atualizado em 04/04/2014

Cartaz de convocação de protesto contra resultados da pesquisa do IPEA.
Fonte: rfi português

A TOLERÂNCIA À VIOLÊNCIA SEXUAL

O assunto dessa semana, fechando o mês de março, no qual foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, é a pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, intitulada "tolerância social à violência contra as mulheres". O relatório merece ser lido na íntegra. São apenas 24 páginas de análise. 

Chamou atenção o número de pessoas que concordaram com a frase "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas": nada menos que 65% dos entrevistados, homens e mulheres. Já 58,5% concordam também com a afirmação de que "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros". Especificamente com relação à violência sexual contra a mulher, nota-se claramente um quadro de culpabilização da mulher. A análise do IPEA é a seguinte:
Por trás da afirmação, está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores. A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir “adequadamente”. 
E aqui reside todo o perigo. 

No meu entendimento, nota-se que os entrevistados diferenciam violência física e verbal, da violência sexual (que obviamente também é violência física). Digo isso porque em outras questões se observa total intolerância à agressão física e verbal. Embora a maioria diga que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família", ou que "roupa suja se lava em casa", deve ser destacado também que:
  • 85% concordam com a afirmação "quando há violência, os casais devem se separar"
  • 91,4% concordam que "homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia"
  • 68,1% concordam que é violência "falar mentiras sobre uma mulher para os outros";
  • 82,1% discordam da afirmação "a mulher que apanha em casa deve ficar quieta para não prejudicar os filhos;
  • 89,2% discordam da afirmação "um homem poder xingar e gritar com sua própria mulher";
  • 63,7% discordam que se compreende a violência contra a mulher pela criação do homem em um ambiente familiar violento;
  • 83,6% discordam que o nervosismo seja motivo justificável (compreensível) para que o homem rasgue ou quebre coisas da mulher.
O relatório mostra revela ainda que a mulher é vista como aquela que nasceu para casar e ter filhos, e só assim se realiza completamente. Também fica evidente a intolerância a casais homossexuais, onde a maior parte dos respondentes não os reconhece como cidadãos de iguais direitos.

Clique AQUI para acessar os resultados da pesquisa.

Importante levar em consideração alguns dados metodológicos da pesquisa do IPEA. Composto de 27 perguntas específicas, em escala, sobre o tema da tolerância social à violência contra as mulheres, o questionário faz parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social - SIPS. Foram ouvidas 3.810 pessoas em todo o território nacional, das quais 66,5% são mulheres. A maioria reside nas regiões Sul e Sudeste, mas fora das regiões metropolitanas, é adulta (30 a 59 anos), religiosa, com baixa escolaridade e baixa renda domiciliar per capita (média inferior ao salário mínimo). 

Me causa estranheza a amostra não ter sido distribuída de acordo com as proporções nacionais (residência, gênero, faixa etária, escolaridade, renda, etc). Porém, mesmo que a amostra tenha enviesado o resultado, os dados continuam alarmantes.


A INTOLERÂNCIA À VIOLÊNCIA SEXUAL

A pesquisa, aplicada entre maio e junho de 2013, foi divulgada ao final da semana, quando estava em pauta nos jornais os casos de violência sexual contra mulheres nos trens e metrô paulistanos. A propósito destes acontecimentos, vale a pena ler o artigo de José de Souza Martins, intitulado A lei da madeira, no qual observa que ao mesmo tempo em que há (ou havia) uma página no facebook chamada "Os Encoxadores", com 12 mil seguidores que trocam mensagens sobre suas ações-crimes - e que, portanto, consideram esta prática normal -, há também muitos casos de linchamento como punição aplicada pela população nesses casos.

Martins, que se debruçou sobre o tema do linchamento, nos informa:
Embora o índice de mortos e feridos em linchamentos em geral seja quase igual ao registrado em linchamentos motivados por estupro, o índice dos que escapam é de 8,2% num caso e de apenas 2,9% em outro, o que bem indica quanto o estupro é mais violentamente punido em comparação a outros motivos para linchar. É significativo que no caso de linchamentos de presos por estupro por outros presos o índice de mortos e feridos seja de 80%, dois terços dos quais de mortos. Mesmo os presos têm dificuldade em conviver com alguém que tenha praticado esse tipo de crime.
E conclui:
O estupro não é para a população apenas a consumação física da agressão sexual, mas também a violência simbólica do desrespeito. [...] Os linchadores tendem a punir por igual tanto o estupro quanto o desrespeito. É que a mulher em nossa cultura tradicional é mais que o ser biológico. É também depositária da sacralidade da reprodução, o que a torna sexualmente intocável, a não ser nos ritos próprios do casamento e da procriação. O que não tira do vínculo sexual tudo aquilo que lhe é próprio e toda a alegria que é própria do amor. Portanto, num país em que a pseudocidadania, mais de discurso do que efetiva, ainda não conferiu à mulher toda proteção a que tem direito, os valores arcaicos da sociedade tradicional a protegem, a seu modo, na cultura da vingança e do castigo definitivo.
REFLEXÕES (IN)CONCLUSIVAS: 
         
Para quem chegou até aqui, fica uma clara contradição: como pode um crime com altíssimo nível de intolerância, acabar por ser tolerável em alguns casos?

Se no estudo do IPEA a maioria dos entrevistados reside fora das regiões metropolitanas, pertencentes a base da pirâmide social, nos casos relatados em São Paulo os agressores fazem parte da classe média, ou "nova classe média", dispõem de tecnologia, embora não se comportem como civilizados.

Com base nos dois estudos apresentados, me parece que o limiar entre o tolerável e o intolerável nos casos de violência sexual é o comportamento da mulher. Isto é, para a sociedade a violência em geral não é bem vista (embora a prática seja constante), porém a liberdade da mulher ainda não é reconhecida, a ponto de "se justificar" a violência sexual para com a mulher que não tem uma conduta recatada. Leia-se: com destino pré-definido, não podendo fugir ao padrão: o casamento e os filhos. 

Cabe ainda destacar que no mesmo dia em que o estudo citado veio à tona, também foi divulgado uma nota técnica do estudo específico sobre "O estupro no Brasil: uma radiografia sobre os dados da saúde", ainda em versão preliminar. Logo em sua introdução podemos ler:
A violência de gênero é um reflexo direto da ideologia patriarcal, que demarca explicitamente os papéis e as relações de poder entre homens e mulheres. Como subproduto do patriarcalismo, a cultura do machismo, disseminada muitas vezes de forma implícita ou sub-reptícia, coloca a mulher como objeto de desejo e de propriedade do homem, o que termina legitimando e alimentando diversos tipos de violência, entre os quais o estupro. Isto se dá por dois caminhos: pela imputação da culpa pelo ato à própria vítima (ao mesmo tempo em que coloca o algoz como vítima); e pela reprodução da estrutura e simbolismo de gênero dentro do próprio Sistema de Justiça Criminal (SJC), que vitimiza duplamente a mulher. 
A nota revela que "em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares." (Clique AQUI para acessar a nota técnica).

Seria interessante se no questionário do SIPS houvessem questões sobre o entendimento que a população tem sobre a Lei Maria da Penha. A estranha e complexa diferenciação entre violência física e violência sexual que aparenta expressar as opiniões dos entrevistados do IPEA me faz pensar em como estamos trabalhando a questão da conscientização sobre a agressão à mulher. Talvez seja preciso esclarecer o que é violência.

Todas as manifestações que estão sendo realizadas pelas redes sociais são importantíssimas, assim como a manifestação divulgada na imagem que abre essa postagem. Creio que mais do que expressar a repulsa ao estupro, é preciso enfatizar que esta é uma luta pelos direitos das mulheres e pela liberdade que a igualdade deverá proporcionar.


***

ATUALIZAÇÃO - 04/04/2014 18H30

O IPEA publicou nota na tarde nesta sexta feira informando - e se desculpando - pelo grave erro cometido nos resultados da pesquisa, que resultou na exoneração do diretor de Estudos e Políticas Sociais. Duas questões tiveram os resultados trocados. Agora, o resultado correto mostra que 26% dos entrevistados concordam com a afirmação mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas, e não 65% como foi divulgado anteriormente.

De fato, conforme a postagem acima informa, havia certa contradição entre a diferenciação entre violência física e violência sexual. Permanece ainda a estranheza com a amostra, que não reflete em proporções adequadas o perfil da população brasileira. Na postagem foi também problematizado o fato de que um crime tão intolerado em nossa sociedade, em situações específicas acaba sendo tolerado. 

Se o erro demonstrado diminui o alarde, ainda assim os resultados causam preocupação, pois permanece a constatação de que para 58,5% dos entrevistados, "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros", resultado que também mostra a culpabilização da vítima pelo crime sofrido. Além disso, há outros itens preocupantes, conforme comentado na postagem acima.

A seguir a errata do IPEA publicada em seu site. Importante registrar que foi também foi publicado arquivo com os microdados da pesquisa, permitindo novas análises e cruzamentos. Clique AQUI para acessar


04/04/2014 15:31
Errata da pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres”

Vimos a público pedir desculpas e corrigir dois erros nos resultados de nossa pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres, divulgada em 27/03/2014. O erro relevante foi causado pela troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar e Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Entre os 3.810 entrevistados, os percentuais corretos destas duas questões são os seguintes: 


Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar (Em %)


Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas
(Em %)



Corrigida a troca, constata-se que a concordância parcial ou total foi bem maior com a primeira frase (65%) e bem menor com a segunda (26%). Com a inversão de resultados entre as duas questões, relatamos equivocadamente, na semana passada, resultados extremos para a concordância com a segunda frase, que, justamente por seu valor inesperado, recebeu maior destaque nos meios de comunicação e motivou amplas manifestações e debates na sociedade ao longo dos últimos dias.

O outro par de questões cujos resultados foram invertidos refere-se a frases de sentido mais próximo, com percentuais de concordância mais semelhantes e que não geraram tanta surpresa, nem tiveram a mesma repercussão. Desfeita a troca, os resultados corretos são os que seguem. Apresentados à frase O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros, 13,1% dos entrevistados discordaram totalmente, 5,9% discordaram parcialmente, 1,9% ficou neutro (não concordou nem discordou), 31,5% concordaram parcialmente e 47,2% concordaram totalmente. Diante da sentença Em briga de marido e mulher, não se mete a colher, 11,1% discordaram totalmente, 5,3% discordaram parcialmente, 1,4% ficaram neutros, 23,5% concordaram parcialmente e 58,4% concordaram totalmente.

A correção da inversão dos números entre duas das 41 questões da pesquisa enfatizadas acima reduz a dimensão do problema anteriormente diagnosticado no item que mais despertou a atenção da opinião pública. Contudo, os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando o aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos. Pedimos desculpas novamente pelos transtornos causados e registramos nossa solidariedade a todos os que se sensibilizaram contra a violência e o preconceito e em defesa da liberdade e da segurança das mulheres.

Rafael Guerreiro Osorio* e Natália Fontoura
Pesquisadores da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc/Ipea) e autores do estudo

* O diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea pediu sua exoneração assim que o erro foi detectado.

segunda-feira, 31 de março de 2014

1964: precisamos entender

por Julio Canuto
Grauna, do Henfil

Acho que não preciso escrever nada aqui sobre o golpe militar de 1964, pois os jornais estão cheios de notícias, memórias, desculpas, análises, depoimentos e tudo mais. Aproveito o momento apenas para sugerir a leitura de um texto simples, mas muito bem escrito, de Marcelo Ridenti, publicado na Folha de S.Paulo em 23 de março, intitulado O golpe de 1964, aqui e agora, o qual inicia exatamente com a seguinte observação:
Se for verdadeira o adágio de que o brasileiro não tem memória, não é por falta de informações a análises publicadas, pelo menos sobre o golpe de 1964 e o tempo da ditadura. As obras contam-se as centenas, escritas nos últimos 50 anos por jornalistas, memorialistas, economistas, sociólogos, cientistas políticos, historiadores e outros, até mesmo das gerações mais jovens. Talvez nenhum outro período tenha sido esquadrinhado tão detalhadamente em seus aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais.
De fato, não há como não conhecer a história. Difícil, talvez, seja entendê-la, as vezes até mesmo por quem viveu direta ou indiretamente. Avanços econômicos, mas bloqueio das liberdades civis. Apoio da sociedade? Como assim? Qual parcela da sociedade? As várias versões e focos de análise sugerem que este é, definitivamente (ao menos isso), uma parte nebulosa de nossa historia, no sentido de que há ainda muito a se desvendar apesar da quantidade de publicações.  E talvez o principal motivo disso seja a forma como a questão foi "resolvida".

O próprio Ridenti dá a dica ao final do mesmo artigo, criando uma situação:
Uma bela adormecida em 1984 nas manifestações pelas Diretas-Já que por encanto despertasse hoje ficaria espantada ao ver Fernando Henrique Cardoso ao lado de Marco Maciel, Lula aliado a Sarney.O país continua refém das forças que deram o golpe de 1964 e impedem mudanças que podem aprofundar a democracia política também num sentido social e econômico, diminuindo as desigualdades. O desafio continua posto, daí a atualidade da discussão sobre os acontecimentos de 50 anos atrás.

Há vários estudos que falam de nossa revolução passiva: a velha estratégia de mudar para que tudo continue do mesmo jeito. Sugiro o texto de Ridenti, pois coloca de forma clara este problema. 

Clique AQUI para ler o texto.

Precisamos entender o golpe de 1964, mas também precisamos entender a ditadura de Getúlio Vargas, precisamos entender os acordos para as transições a democracia. Precisamos entender...



sábado, 29 de março de 2014

Clássicos da literatura em cordel

por Julio Canuto

Em minha ultima visita ao Rio de Janeiro, neste mês que se encerra, como de costume passei na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, em Santa Teresa, para novamente comprar as coleções de folhetos que leio e acabo presenteando amigos, tendo novamente que compra-los. É sempre boa a visita a ABLC (que conheci em 2010), a recepção do presidente e poeta Gonçalo Ferreira da Silva, que nos convida para sentar, conversar sobre diversos assuntos. Inteligente e curioso, o Sr. Gonçalo tem um interesse sincero em todos que procuram a Academia.

Mas além das coleções, em caixas com 15 folhetos cada nos temas "Grandes clássicos - cordéis raros", "Diversos", "Cangaço e crendices", "Romances", Pelejas e humor" e "Ciência e Política", e da coleção "Ciência em versos de cordel" (do qual vou falar em outra postagem) merece destaque a obra de Stélio Torquato Lima, intitulada "Obras-primas universais em Cordel".

Stélio, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Paraíba, realizou o trabalho de adaptação de 15 obras clássicas da literatura universal, divididas em cinco períodos. São elas:


Período clássico: 

Ilíada  (Homero)
Odisséia (Homero)
Eneida (Virgílio)

Período medieval: 

Canção de Rolando (anônimo)
Divina Comédia (Dante) 
Decamerão (Boccaccio)

Período maneirista: 

Dom Quixote (Cervantes)
Romeu e Julieta (Shakespeare)
Sonhos de uma noite de verão (Shakespeare)

Período romântico: 

Doutor Fausto (Goethe)
O médico e o monstro (Stevenson) 
O corcunda de Notre-Dame (Victor Hugo)

Período realista

Madame Bovary (Flaubert)
O vermelho e o negro (Stendhal) 
O primo Basílio (Eça de Queirós)




Lançado pela Editora Queima-Bucha, de Mossoró (RN), a mesma editora das demais coleções citadas, o trabalho de Stélio é muito rico e traz de forma resumida e em versos todo o conteúdo das obras. Bom para quem já conhece os textos originais, mas também como interessante forma de aproximação às obras clássicas universais, a ser utilizada também em sala de aula.

Trata-se, na verdade, de um retorno da Literatura de Cordel em referência a suas origens, como nos mostra do Sr. Gonçalo nas considerações iniciais de seu Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel:
Não é difícil perceber sinais da Literatura de Cordel nos Salmos, de Davi, nos Cantares, de Salomão, na Divina Comédia, de Dante, e no Paraíso Perdido, de Milton. Ela está na arte dos poetas, nas mensagens dos profetas e nas reflexões dos pensadores. Lendo detidamente páginas imortais dessa eterna cultura popular típica, escritas por mestres consagrados, concluímos que essa forte e marcante manifestação do pensamento vem desde a Grécia de Homero, da Roma de Virgílio, da Espanha de Cervantes, da Inglaterra de Shakespeare, de Portugal de Camões, da Alemanha de Goethe, da França de Victor Hugo e, é claro, do Brasil, de onde assomaram as figuras primaciais de Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Patativa do Assaré e Rogaciano Leite, entre outros.
Viva os poetas populares!, que registram em versos tão bem trabalhados os costumes, lendas, fatos históricos e cotidianos e também facilitam o acesso a obras já consagradas. 

A literatura de cordel segue forte.

sexta-feira, 28 de março de 2014

"Viver não é preciso", e no Brasil é também confuso

por Julio Canuto

Dizia o poeta que "navegar é preciso, viver não é preciso", referindo-se a precisão dos instrumentos para orientação nas viagens marítimas e da imprecisão da vida, já que não temos bússola para nossa trajetória existencial. Continuando na analogia, seguem dois textos do antropólogo Roberto DaMatta, publicado no Estadão, no qual traz essa relação acrescentando que no Brasil, mais que imprecisa, a vida social é confusa, pois nos guiamos por duas bússolas com diferentes nortes.

Clique nos títulos para ler.







sábado, 22 de março de 2014

"Eu morri na Maré" e os corpos dilacerados

por Julio Canuto

Brasil, junho de 2013, estamos ha apenas uma ano da realização da Copa do Mundo. Festa? Bom, disseram que o tal grandioso evento deixaria um legado, não apenas na forma de modernos estádios - diga-se, descaracterizados da cultura nacional e padronizados ao estilo Europeu -, mas também com infraestrutura, melhores aeroportos, rodoviárias, melhoria na mobilidade urbana, no transporte público e uma série de outras coisas. Vemos, há anos, o Negado a boa parte da população, e não só pela restrição a participar da festa nos estádios pelo preço dos ingressos, mas também por ações truculentas da polícia em reação a manifestações, em retiradas de moradores de comunidades que até bem pouco tempo seriam regularizadas, conforme publicado neste mesmo espaço (clique AQUI para ler a postagem e assistir a matéria da ESPN). Para muitas pessoas, resta o sentimento de ser tratado à margem, não como participantes ou convidados da grande festa, mas como intrusos, gente que não deve ser vista, que incomoda. O desrespeito pela cidadania pode provocar reações perigosas.

O curta a seguir não trata exatamente disso, mas pode também ser pensado a partir desse contexto de preparação para realização de grandes eventos no país e em especial no Rio de Janeiro. Traz o contexto da violência a partir do olhar das crianças da favela Complexo da Maré, e é sempre bom registrar isso. De que forma o ambiente que mistura solidariedade e violência é percebido neste período de vida, de reconhecimento do mundo, de formação de consciência sobre o território, as pessoas, as instituições. A origem de traumas e bloqueios na sociabilidade, criatividade e percepção.

Recentemente vimos a absurda e revoltante morte de uma moradora do Morro da Congonha, na zona norte do Rio. Parentes da vítima, em reunião com o governador Sérgio Cabral afirmaram que se não fosse o vídeo feito por cinegrafista amador (talvez de um celular) esta seria "só mais uma morte". Triste é saber que talvez mesmo com o vídeo possa ser "só mais uma morte". O desabafo traz a tona a cruel realidade reproduzida cotidianamente. 

Em artigo publicado neste sábado, 22/03, no Estadão, Roseli Fischmann fala sobre o corpo dilacerado de Claudia Silva Ferreira, a vítima da brutalidade policial, como símbolo de uma sociedade dilacerada.
Como não ver que o corpo dilacerado é cada mulher, cada pessoa negra e pobre, dilacerada na violência que não há como prever a que virá, o tecido social dilacerado, a democracia dilacerada, a sociedade dilacerada? Direitos de cidadania, direitos humanos, tudo dilacerado?
[...]
Lorenz [Konrad Lorenz, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1973] advoga que a violência pode dominar o ser humano de modo simples e direto, se deixá-lo vencer. Mas a alternativa é dar à educação a importância que de fato tem, de trabalhar para que o ser humano saiba lidar com o mal que há dentro de si. No caso do corpo dilacerado, no Rio, junto foi dilacerado o futuro das crianças e adolescentes que ali estavam, parentes e amigos da vítima. Como estão reagindo crianças e adolescentes que veem na TV e na internet, repetidamente, a imagem da barbárie? Que educação receberam os responsáveis por colocar a mulher vitimada em um porta-malas, como carga barata, tão barata que nem se precisa cuidar de como a acomodar? (Roseli Fischmann. Corpo dilacerado. Estadão on line, 22/03/2014)
É disso que se trata.

SINOPSE

Este é um documentário sobre o impacto da violência sobre as crianças da favela Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, contado a partir da visão delas. Foi realizado por dois jornalistas franceses, Marie Naudascher e Patrick Vanier, ambos radicados no Rio. Este vídeo faz parte do Projeto Reportagem Publica, que foi financiado por crowdfunding. Com o suporte de 808 doadores, a Agência Pública distribuiu 12 bolsas de reportagem para investigações independentes. Leia mais: apublica.org

sexta-feira, 14 de março de 2014

Curta Sexta Curta 29 - Zéfiro Explícito

por Julio Canuto


O Curta Sexta Curta de hoje é especialíssimo. Se prepara molecada... Hoje é dia de Zéfiro Explícito, de Gabriela Temer e Sergio Duran.

Conhece Carlos Zéfiro? Bom, o Brasil demorou 30 anos para conhecê-lo. Sua identidade foi revelada apenas nos anos 1990, por Juca Kfouri na revista Playboy. 

Espie só, mocinhos e mocinhas. 

Carlos Zéfiro era um cartunista de desenhos eróticos (como você vê ao lado), mas também parceiro de grandes sambistas em clássicos como A flor e o espinho (com Nelson Cavaquinho). Sabe qual, não é? Um dos mais belos da história do samba. Feita de erotismo e poesia, sua obra mostra que o cara sabia das coisas.

"Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu so errei quando juntei minh'alma a sua
O sol não pode viver perto da lua"

Pois não perca tempo e confira a extraordinária história do cara que "era mais uma expressão cultural do que uma expressão artística". Fique com esta frase na cabeça e veja a obra de Carlos Zéfiro. 

Assista ao filme, leia o roteiro, comente 19, publique, Documentário, de Gabriela Temer, Sergio Duran, Duração: 15 min, Plays 3.815
Gênero: Documentário 

Diretor: Gabriela TemerSergio Duran 

Elenco: Gil CaminhaJuca KfouriNilton BahlisOtacílio D'AssunçãoOtacílio D'AssunçãoPaulo César Pereio 

Duração: 15 min     
Ano: 2012     
Formato: Digital 

País: Brasil     
Local de Produção: RJ 

Cor: Colorido 



Sinopse: Sob o pseudônimo de Carlos Zéfiro, o funcionário público Alcides de Aguiar Caminha publicou centenas de quadrinhos eróticos que influenciaram gerações. Alcides também foi compositor de sambas, em parceria com grandes nomes como Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Esta é história de sua descoberta 

(Ficha técnica e sinopse do Porta Curtas)



Zéfiro Explícito from sergio duran on Vimeo.

terça-feira, 4 de março de 2014

Alegria em bloco

por Julio Canuto

Joel Silva/Folhapress

A seguir o link para a matéria de Caio do Valle, publicada em 02.03.2014 no Estadão. Um belo texto que retrata a passagem do Cordão do Triunfo, que pelo segundo ano "percorreu ruas marcadas pela degradação humana" no centro de São Paulo, na região conhecida como Cracolândia. O cordão é organizado pela Cia. Teatral Pessoal do Faroeste.

Com cerca de 500 foliões, o grupo tratou de expressar o verdadeiro significado do carnaval por estas terras: suspender as diferenças, confraternizar democraticamente, apenas brincar. Sim, há um outro carnaval que opta pelo luxo e em certo sentido é muito bonito, embora dominado pela mídia e não inclusivo, já que os custos das fantasias acabam por expor as diferenças sociais, reproduzindo a desigualdade vista diariamente nas ruas. Por isso a volta dos blocos de rua em São Paulo deve ser festejada. Aqui, cada um com a fantasia que quiser, no corpo ou na mente, se diverte livremente. No caso do Cordão do Triunfo, o carnaval atinge seu pleno significado. Chamando os moradores da região, o Cordão tenta promover a sociabilidade. Mas não é fácil. Abaixo dois trechos da matéria, com o link ao final:
    Por breves minutos, o samba do Cordão do Triunfo passou, arrastando cores, música boa e algumas centenas de foliões por ruas como General Osório e Santa Ifigênia, acostumadas ao vazio cinzento dos domingos à tarde. E mais ainda às agruras dos viciados que perambulam por ali.  Crianças, velhinhos, homenzarrões. Por um instante irmanados pela experiência da folia lá embaixo, todos eles se debruçaram nos parapeitos dos prédios de fachadas decadentes que povoam as imediações da Estação Júlio Prestes e acompanharam o carro de som se deslocar, devagarinho, irradiando os clássicos “Bandeira branca”, “Trem das onze” e “Canta canta, minha gente”. Alguns se arriscaram e aceitaram o convite, cantando.     A maioria, contudo, exibia na compleição um misto de perplexidade e animação. Uma alegria desconfiada e contida, como se tudo aquilo fizesse parte de outro mundo, bem distante da realidade de um bairro permanentemente ajustado à degradação humana. Para registrar momento tão singular, muitos sacaram seus celulares. Mas Sueli Santos, de 34 anos, quis um pouco mais. Decidiu pegar a filha, Ana Clara, de 3, e ir sambar.
    “Veja os prédios da Sala São Paulo, da Estação Pinacoteca... São bonitos, mas de certa forma representam uma presença blindada do Estado. As pessoas vão lá de carro e não experimentam a realidade do entorno. Queremos trazê-las para o meio dos ‘noias’ e mostrá-las esse aspecto da cidade”, afirmou o diretor de vídeo da companhia, Dario José, de 39 anos.
Clique AQUI para ler a matéria

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Brasileirismos

Comportamentos tipicamente brasileiros e fracasso da cidadania

por Julio Canuto


Neste sábado, lendo a Folha de S.Paulo, fiquei sabendo de uma fato que ilustra com precisão o real funcionamento da sociedade brasileira. A notícia, de Mauro Cesar Carvalho, tem o seguinte título: "aposentada é condenada a quatro anos de prisão por racismo". O caso ocorreu em plena Avenida Paulista, ha pouco mais de um ano. Uma senhora, já conhecida na região por ofender pessoas com xingamentos preconceituosos e até já ter recebido voz de prisão por insultar um morador de rua e também policiais (veja AQUI), insultou três negros em um shopping, mas desta vez, ao que parece, ela terá de arcar com as consequências de seus atos desrespeitosos.

Ocorre que a história não termina com a justa condenação. Há, pelo menos, três aspectos a destacar.

1. O jornal informa que a acusada disse ao oficial de justiça "que não ia responder processo algum nem falar com juiz". Em depoimento na delegacia ela negou as ofensas.

2. A policia desestimula o registro de ocorrências de racismo, dizendo às vítimas que "isso não vai dar em nada".

3. Uma das vítimas só conseguiu ser melhor atendida e ver o caso chegar ao julgamento porque teve que lançar mão da "carteirada". Isto é, alguns dias após a ocorrência, teve de recorrer a seu tio, militante negro, que entrou em contato com o governador. Só a partir daí o caso teve o devido tratamento.

Clique AQUI para ler a reportagem.

Analisem o contexto. Em primeiro lugar uma pessoa que sente-se acima das leis e das demais pessoas,a ponto de cometer o grave crime de racismo e também humilhar moradores de rua, desacatar a polícia e ignorar a justiça; em segundo, a instituição que tem o monopólio do uso da força e que deve zelar pelo cumprimento das leis menospreza o caso, deixando de realizar sua obrigação e agravando a humilhação sofrida pelas vítimas; por fim, o uso do jeitinho, do personalismo, como única forma de acesso aos direitos.

De cara podemos imaginar: os que não tem nenhum parente ou amigo com influência não tem direitos? Que cidadania é essa? É também por conta da ineficiência das instituições que os casos de justiça com as próprias mãos estão aumentando no país (clique AQUI para acessar matéria da Folha de S.Paulo sobre o assunto). E até mesmo em ocasiões menos graves (se posso chamar assim) esse comportamento também aparece. Erros sucessivos acontecem, um sobrepondo o outro, consertando erros com outros erros. O problema é que o procedimento que pode resolver pequenos problemas do dia a dia, também pode causar tragédias.    

O antropólogo Roberto DaMatta realizou vários trabalhos sobre este comportamento brasileiro. Em várias obras, em especial (na minha leitura) Carnavais, malandros e heróis, A casa e a rua e Fé em Deus e pé na tábua, ele fala sobre características brasileiras, que possui um moderno sistema de leis, mas que na prática, o que vale são as relações pessoais, pois aqui, estar submetido as leis é sinal de inferioridade (ao final do texto há dois links para artigo e entrevista de Roberto DaMatta).

Coincidentemente, um artigo do antropólogo falando sobre os "brasileirismos" foi publicado no Estadão no dia 19 deste mês , mesmo dia da condenação da senhora. Diz em seu artigo:
A presença mascarada dos elos pessoais abraçados pela norma do dar-para-receber e do vice-versa como algo obrigatório no espaço público é um outro brasileirismo que contraria a lei válida para todos e nos faz desconfiar da liberdade.
Liberdade que leva a escolhas, individualiza e acontece justamente na rua. Toleramos a liberdade porque ela é um conceito chave nas constituições "avançadas" que copiamos dos americanos, franceses e ingleses. Daí a contradição tragicômica: temos leis avançadíssimas, sínteses das melhores normas jamais produzidas no chamado "mundo civilizado", mas lamentavelmente não temos franceses, americanos e ingleses para segui-las.
Voltemos, entrementes, aos temas clássicos. Se a liberdade tem sido usada pelas elites sobretudo para matar o competidor, a igualdade permanece sem solução.
Continuamos alérgicos à sua aplicação e o seu uso é sempre constrangido pelos rotineiros "esse tem biografia", "esse é meu amigo", "esse é do nosso partido", que são parte de um outro brasileirismo. A duplicidade ética, expressa no axioma: aos inimigos a lei; aos amigos, tudo. Um postulado que impede, no modelo e na realidade, o tratamento igualitário e um mínimo de coerência.
Clique AQUI para ler o artigo.

Enfim, o caso específico das ofensas da senhora a negros na Avenida Paulista foi resolvido com a justa condenação, embora o cumprimento da lei tenha sido conquistado com o personalismo. Mas infelizmente ainda estamos distantes (talvez até mesmo nos distanciando ainda mais) de resolver o problema da liberdade e da igualdade em nossa sociedade.

Afinal, que sociedade queremos?

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DaMAtta, Roberto. Você sabe com quem está falando? Revista Trip, 14.02.2011.

CALIL, Ricardo. Entrevista com Roberto DaMattaPáginas Negras, Revista Trip, 08.09.2010.  


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ambulante de ritmos: Edvaldo Santana

por Julio Canuto

"Pessoal, primeiramente um bom dia a todos! Hoje trago novidade, trago qualidade..." 

É assim que os ambulantes começam suas vendas no expresso leste, linha 11 da CPTM que liga a estação Guaianazes, no extremo leste da capital com a estação da Luz, na região central da cidade. Na verdade nem se trata de novidade, trata-se de um produto com preço menor "que lá fora", e ainda com promoções que os marketeiros do "Shopping Trem" inventam na hora, dizem eles "para não perder a mercadoria". 

Pois nestes dias, fazendo brincadeiras sobre o discurso e artimanhas dos vendedores ambulantes dos trens, me lembrei de um texto que escrevi há quase nove anos sobre um artista que cantou sobre os trens e tipos que circulam e vivem no extremo leste de Sampa: Edvaldo Santana. Procurei o texto e me dei conta que não havia publicado neste blog. Pois agora tenho que fazer justiça publicando o texto que fala de Edvaldo, da cultura popular e as dúvidas de sua relação com as tecnologias, o perigo da massificação e a resistência. 

Logo em seguida coloco uma breve apresentação do artista e deixo uma relação de músicas, pois a melhor forma de conhecer o artista (para quem ainda não conhece) é pela sua arte.

VARIANTE
Retirado do blog Consciente Produtivo

São Paulo, segunda feira, oito horas da noite, região central. Saio da aula na faculdade de Ciências Sociais na rua General Jardim e vou até uma papelaria na Cesário Mota para tirar cópia de um texto. Como há várias folhas e apostilas aguardando na fila (ou pilha) sua vez de ganharem um par idêntico, vou passar o tempo no sesc consolação. Continuo pela Cesário Mota, dobro a Consolação e entro imediatamente na Maria Antônia, sigo e entro à direita na Dr. Vila Nova. Entro na sala (que insistem em chamar hall) de convivência e está ainda no início uma apresentação do Edvaldo Santana, o que para mim foi uma boa surpresa. Um bom músico, poeta popular e das popularidades, acompanhado de seu violão e de um outro músico com vários instrumentos de percussão que eram tocados um a um. A uma certa altura da apresentação, o artista fala de quando pegava o trem da linha variante para ir ao trabalho e começa um som meio samba, meio blues que fala deste cotidiano, passando em música pelas estações de Trinidad, Itaim, Calmon Viana, Itaquá, Aracaré, Engenheiro Goulart e Mané Feio. Provavelmente, muitos dos que estão ali nunca passaram por estes locais de parada, morada e descanso. Eu conheço um pouco.

Já ambientado, pego uma revista para saber da programação do mês. Vejo uma matéria que trata da cultura popular frente às novidades tecnológicas e o perigo da massificação, perguntando: sobreviverá a cultura popular?

Continuo ouvindo o Edvaldo enquanto vou pensando: sobreviverá? - sobrevive! – revive! – transforma! Ver o Edvaldo ali, tão simples quanto bom, é uma prova disso. 

No entanto, isto ainda não é o bastante. Fico com o tema da matéria na cabeça. Às nove saio, faço o mesmo caminho só que no sentido inverso, pego minha cópia, sigo para a faculdade e, já desencanado da aula onde há uma discussão teórica sobre o capitalismo monopolista de Estado, aceito o convite de um amigo para uma cerveja. Meia hora num papo leve, agradável e levanto, cumprimento – “até amanhã” – e sigo para a Praça da República onde entro no metrô, depois no trem e depois no meu apartamento, em Itaquera. Outro “Ita” bem distante, assim como Itaquá, Itapecerica etc.

Com o tema ainda na cabeça, lembro de várias coisas, desenvolvo raciocínios durante o caminho. Tenho em minha cabeça que se trata de um paradoxo: de um lado há os que vêem estas novas tecnologias apropriadas neste processo de massificação das culturas transformando tudo em comércio ou vendendo um tipo único, padrão, de comportamento e cultura; de outro, há quem enxergue estas novidades, principalmente a internet, como uma forma de democratização da informação e expressão. Neste último caso, uma das maneiras de viabilização seria o incentivo estatal para ampliação desta participação.

Sem querer entrar na questão de “a quem serve o Estado?”, digo que é preciso criar formas de ampliação da participação “por baixo” – entendendo o “por cima” como sendo os conglomerados que detêm a maior parte dos meios de comunicação –, estimulando a expressão popular, a cultura popular ou os modos regionais, pois a cultura se faz no dia-a-dia, em nossas experiências, no que temos em comum. A valorização da vida cotidiana é fundamental como estratégia de resistência a possíveis tendências de padronização, pois a troca, o conhecimento das tecnologias só faz as experiências aprimorarem, sem perder sua originalidade e peculiaridades. 

Poderia citar inúmeros exemplos em que, mesmo sem acesso às tecnologias, o povo inventou, improvisou e adaptou. O povo é criativo, e não acomodado. Vive numa corda bamba: abre espaços, improvisa, usa do “jeitinho” em meio às condições de vida que lhe é imposta. Imagine este mesmo povo tendo condições reais de participação. A ação dos movimentos populares, neste sentido, mostra-se fundamental.

Assim como o Edvaldo segue pela variante de Itaquá com rap, pagode, salsa, rock, reggae, xote, coco e blues, sigo eu pelas variantes de idéias na observação e vivência das ruas do centro e da periferia. Segue também você seus caminhos variáveis e outro acolá. Todos variando, desviando da estrada massificada e buscando, criando ou reinventando alternativas de percursos a quem nos acompanha. Melhores alternativas, porque reais e vivas. 

(Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2005 e no Overmundo em 10/12/2006 )


EDVALDO SANTANA
Retirado do site Germina Literatura
Filho de pai piauiense e mãe pernambucana, nascido e criado em São Miguel Paulista, um bairro de nordestinos na Zona Leste de São Paulo, Edvaldo Santana conheceu a avó quando tinha 6 anos. "Meu pai era um operário ligado a movimentos políticos e, como a situação não estava boa aqui, ele levou a gente para o Piauí. Mas o sertão estava brabo também. E minha avó ajudou muito a gente", conta ele, o mais velho dos oito filhos, que na letra de Eva Maria dos Anjos diz ter uma foto da avó, "cabocla tupi", mas na verdade nem tem. "É liberdade de criação do poeta, me lembro dela vagamente", ele ri. 

(Teresa Albuquerque, Correio Brasiliense. Site de Edvaldo Santana).

A seguir minhas sugestões de músicas que misturam samba, blues, rap etc... e com ótimas letras. Mas tem muito mais, aqui coloquei apenas as que estão na Radio UOL e um clipe ao final. 

É só clicar nos títulos para ouvir.


Clássica! Onde Edvaldo conta a rotina da linha variante "que anda cheio feito cela de cadeia" com seus tipos:

Moça bonita, arroz na marmita 
No fundo querendo sair na revista 
Moleque no teto, bancando o surfista 
Maluco fumando cigarro de artista 
No hino do crente ambulante na fita 
Um rap, um pagode 
Uma salsa, um rock 
Um reggae e um xote 

Um coco e um blues 


E falando na linha variante, segue música que tem como título o nome da linha. Um maravilhoso blues, pura poesia que faz o encontro das dores comuns da gente do rio São Francisco e do Mississipi, por fim desaguando no Tietê para "Adonirar" o blues. A dor que imigra. Sente isso...

No Rio São Francisco navega o vapor
Que navegou no Mississipi
O Rio São Francisco desagua sua dor no Tietê
Variante da Estação do Norte
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues


Parceria com Lenine em letra que fala sobre o futebol na periferia. Deixa com a molecada:

Bola bem tratada pelo pé da molecada
De calo de trivela de cabeça na tabela
Bola namorada do Brasil na madrugada
Bola pela tela na janela da favela


Com a participação do Quinteto em Branco e Preto, continuamos no cotidiano periférico com um belo samba que fala sobre o ritual do mutirão.

Vou batelage chegado no feriado
Se você quiser chegar, é bem chegado


Na casa de Antônio, entre um beque, uma pinga e todas as sonoridades...

Noel com Cartola conversavam 
Sobre a arte que anda na contra mão 
Que vale a pena como uma antena 
Servindo apenas ao coração 



Outro clássico para aqueles que acreditam na paixão e na ciência. Sempre com a mente aberta. Ah, nessa vida eu agradeço os desenganos!

Me dedico se é preciso, sem pensar na recompensa
Sou daqueles que acreditam na paixão e na ciência
Vou beber mel pela fonte por onde meu faro alcança
pra entender o que se passa entre a paz e a vingança
minha arte não tem preço, minha busca não se cansa
eu sou bicho do mato com olhar de criança


Soneto de Glauco Mattoso, musicado por Edvaldo.

As armas, munições, armazenadas
São muitas vezes mais suficientes
Para extinguir da terra seus viventes,
E continuam sendo fabricadas 


Também clássico. Fala sobre apatia? Fala sobre a dificuldade do artista independente? Fala da indústria cultural? Ouça e pense...

Minha cabeça estava presente na execução
Mas meu coração não se conformava
No palco o jabá de mercado dá as cartas na comunicação
Na rua nenhum camarada, nada, nada nada


Outro belo blues em ótima parceria com Zélia Duncan falando sobre as desigualdades. Prepare-se para o soco:

Tem gente por ai vivendo que nem bicho 
Fuçando comida na lata do lixo 

...
Também tem gente por ai vivendo que nem gente 
Guardando o seu ouro a unha e dente 


Parceria com Rappin Hood. Total desapego com o qual me identifico totalmente.

É, pra viver é sempre cedo 
Na hora do fracasso só ficou 
Quem aprendeu lhe dar com o medo 
É, quem é que não quer sossego 
Parece que o sucesso demorou 
Para encontrar o seu segredo 


Com Chico César, reflexões sobre nossas violências.

Há mais de muitos anos 
O ódio no deserto 
Derrama sangue santo 
Na pele do universo 
Será que é só com a dor 
Que a gente é capaz de lembrar a paz? 
Será que se for por amor 
Alguém é capaz?


Refletindo feito maluco, vícios, trocas e a observação:

O amor é de graça
Vive no mundo sem fim
Pode ser vira lata 
E também mandarim


Acompanhado por este divertido ditado, uma boa letra e um belo blues. Também me identifico com essa música. 

Estava certo que eu era um sujeito
Que chegou no mundo para dar errado
Até pensava que fosse castigo
Por eu ter crescido lá no Lajeado
...
Eu acredito muito na franqueza
E na liberdade que me orienta
Não há motivo pra virar a mesa
Se tem confiança não há violência


14. Ruas de São Miguel

Para fechar, um clipe gravado em São Miguel Paulista. Como muito bem descreve Robson Timoteo em seu canal no youtube: "este blues com solos de berimbau retrata o lado lúdico da periferia, um local que apesar da violência e das dificuldades econômicas, ainda há espaço para amizades e para ser feliz."