terça-feira, 15 de maio de 2012

Ideias para a Educação VI - Brasil

por Julio Canuto

Chegamos ao sexto episódio da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes respostas.", agora no Brasil, o sexto e ultimo país exibido na série realizada pelo Canal Futura em parceria com o SESI.


Como exposto em postagem anterior, o Brasil ficou em 53o. lugar no PISA, que avalia 63 países. São 190 milhões de habitantes, 52 milhões de estudantes e 2 milhões de professores. Das crianças de 4 a 17 anos de idade, 92% estão na escola; 50% dos jovens com 18 anos completam o Ensino Médio; e 87% de nossos estudantes estão em escolas públicas.


A HISTÓRIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS ATUAIS


Apesar dos 500 anos de historia, o primeiro projeto educacional implantado no Brasil só aconteceu em 1808, com a chegada da Família Real, e muito pouco se desenvolveu nos cem anos seguintes. O atraso educacional foi o grande erro coletivo brasileiro do século XX, sobretudo por conta da transição demográfica (aumento exponencial da população) sem a universalidade da Educação. Para se ter uma ideia, nos anos de 1950, durante a construção de Brasília, sete em cada dez crianças brasileiras estavam fora da escola. Como consequência temos adultos que se satisfazem com a baixa qualidade da Educação nacional ofertada a seus filhos e netos, pois ainda é bem melhor a que eles receberam.


Estudantes e especialistas entrevistados concordam que a educação no Brasil não é boa, ou que está longe do ideal, mas que tem evoluído, embora ainda com muitos problemas estruturais. As crianças estão na escola, porém não estão aprendendo. Isto é, falta qualidade. E os motivos são vários, o que dificulta a resolução.


O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO


O sistema educacional do Brasil é descentralizado, dividido entre as três esferas de governo. No nível Federal, discute-se políticas amplas para todo o país. Os Municípios são responsáveis pela Pré-escola e Ensino Fundamental. Os Estados são responsáveis pelo Ensino Médio e parte do Ensino Fundamental. Por sua vez, a União é responsável pelo Ensino Superior Público. 


O investimento em Educação no Brasil é de 5% do PIB, o que não o deixa em posição ruim comprado com outros países em termos proporcionais. O problema, no entanto, é o mau uso do dinheiro. Ou seja, um problema de gestão. Isso significa que há total disparidade entre investimento e qualidade.


O FUNDEB é um mecanismo de distribuição de recursos, que tem por objetivo equilibrar o repasse, já que há enormes diferenças de renda entre Municípios. O problema, na verdade, é ainda mais grave, pois no Brasil há desigualdade entre regiões, entre Estados de uma mesma região, entre Municípios de um mesmo Estado, entre bairros de um mesmo Município, e até mesmo entre escolas de um mesmo bairro. 



No setor privado não há subvenção (como no Chile, por exemplo). Estas escolas vivem da mensalidade pagas pelos pais, e aí também há diferenças de acordo com o bairro no qual a escola está instalada. Por outro lado, é possível gerir melhor. O setor privado é minoritário no Ensino Fundamental, mas é majoritário no Ensino Superior.


A desigualdade educacional no país talvez seja maior que a desigualdade de renda.


ALUNOS E PAIS


O fenômeno da inclusão escolar é recente no Brasil. Os anos de 1990 foram o período de intensidade dessa inclusão. Há muitos alunos com déficit de leitura, de cultura e de incentivo muito grandes. A média de tempo de aula diária dos estudantes brasileiros é de 4 horas, em salas muito cheias. Isto torna o trabalho do docente muito difícil, sobretudo porque não são preparados para esta situação. Há ainda muitos casos de evasão e de analfabetismo funcional. Por exemplo: só 11% dos alunos que completaram o Ensino Médio (que são pouco mais da metade do total de estudantes) possuem conhecimento mínimo esperado em matemática.


É preciso de maior tempo na escola, em escolas com menos alunos.

Os pais tendem a perceber a escola pública como muito inferior a escola particular, o que nem sempre é verdade. Isto porque a escola particular escolhe seus alunos pelo critério socioeconômico (pois os pais têm que pagar a mensalidade). Já as escolas federais escolhem os alunos através de avaliação. As estaduais e municipais absorvem todos os outros. Assim, sem desconsiderar todos os problemas estruturais, a "escolha" dos alunos tem forte influência sobre o equilíbrio em sala de aula e o ritmo dos estudos.


Além disso, há um entendimento entre os especialistas entrevistados de que a escola pública e os pais dos alunos estão distantes. Do lado dos pais, como salientado acima, há diferenças de competências para o acompanhamento da vida escolar de seus filhos; do lado da escola há um hábito de chamar os pais apenas quando há problemas ou para procedimentos de rotina, mas não se convida para participar do dia a dia - isto, claro, generalizando, pois há exceções.


PROFESSORES


Com salários baixos, os professores geralmente procuram trabalhar no Estado, no Município e também no sistema privado, com jornadas que vão do período da manhã até a noite, impossibilitando a atualização e/ou especialização, e nem sequer se forma o hábito de trocar experiências com seus colegas (o que tem total influência da gestão escolar). 


Socialmente, a imagem do professor é de alguém que está ali porque não conseguiu melhor colocação profissional.


A valorização do professor deve ser bem mais que aumentar o valor do salário, mas ter uma rotina digna, de preferência em uma unica escola, para que ele tenha tempo de se preparar, participar do dia a dia do bairro e com isso melhor a escola.


A formação dos professores tem uma grande carga teórica, abrangendo os pensadores, o que é importante. Mas pouca carga técnica, com práticas, métodos e ações para desenvolver em sala e lidar com os reais desafios que vão encontrar. Os professores têm que saber o conteúdo, mas também têm que saber ensinar.


AVALIAÇÕES


O Brasil possui um sistema de avaliação muito amplo, que contempla todas as fases escolares: Prova Brasil, SAEB, IDEB, ENEM, avaliações do Ensino Superior e da Pós-Graduação. Este sistema tem sido muito importante para o acompanhamento da evolução do ensino e auxiliado nas decisões, embora ainda precisa ser melhor aproveitado. Cometemos um grande equívoco ao formular ranking e dar enfase sobre este aspecto dos resultados.


O Brasil participa do PISA desde 2000, e a comparação com outros países tem auxiliado no desenvolvimento da Educação nacional. Melhor é quando as avaliações são observadas com olhar crítico, como esta série tem feito. Não apenas elogiando os países bem colocados e apresentando modelos, mas discutindo ideias. 


Os testes procuram dar respostas sobre o desempenho dos alunos nas habilidades consideradas básicas, como leitura e matemática. Outras áreas, porém, que precisam de maior atenção são as artes, a tecnologia e outras que trabalham competências para a vida dos alunos, para a cidadania.


Temos o desafio de melhorar a qualidade do ensino, uma vez que tem alcançado o objetivo de inclusão. O maior desafio, porém, é mudar a visão da sociedade sobre a educação. A pergunta a fazer a um estudante não deve ser "você passou de ano?", mas sim "você aprendeu?". Isto é o mais importante.

SINOPSE

O Brasil entrou com o pé direito no século XXI para deixar de ser só uma promessa. Fortalecimento da moeda, queda da inflação, aumento das exportações viraram manchetes de jornais. Mas qual a relação entre este período de bons resultados na economia e melhorias efetivas em termos de educação? Como o líder econômico e político da América Latina pode virar também uma referência em educação? O Brasil ainda não passou no teste, mas se a transformação está a caminho, iremos mostrar os bons passos dados na direção certa. E a partir daí ajudar a entender melhor como cada um dos alunos brasileiros poderá ter uma educação realmente de qualidade.

domingo, 13 de maio de 2012

Ideias para a Educação V - Canadá

por Julio Canuto


O quinto programa da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes respostas." é sobre o Canadá. Este país da América do Norte, multicultural rigar muitos imigrantes, está entre os sete melhores colocados do PISA. Possui 34 milhões de habitantes, sendo 6,3 milhões de estudantes e 550 mil professores. Quase a totalidade dos estudantes (95%) frequentam a escola pública, e 80% dos habitantes acima de 15 anos de idade já completaram o Ensino Médio.


O programa foi gravado em Ontário, Toronto. Os alunos entrevistados definem o país como muito acolhedor, multicultural, com respeito ao meio ambiente, e elogiam a escola pública, destacando que é um direito e que é muito estranho alguém no Canadá não frequentar a escola.


Existem quatro conselhos escolares públicos: o secular; o católico; o francês secular; e o francês católico. A Educação tem a mesma qualidade, independente da classe econômica dos estudantes. Aliás, a excelência da educação e a equidade são os princípios do Canadá e Ontário. Estes os dois pilares da educação desde 1.800, sendo que o Canadá tornou-se um país em 1867.


EXCELÊNCIA E EQUIDADE EDUCACIONAL EM UM PAÍS MULTICULTURAL


Excelência e equidade são palavras muito faladas em todo o episódio. São os principais valores, e para alcançá-los o sistema de ensino investe no ensino das línguas francesa e inglesa, as duas faladas no Canadá; e também misturam alunos da mesma idade com níveis diferentes de ensino, para se equipararem. Os próprios alunos se ajudam e os professores devem entender de pedagogia e de relacionamento. 


Muitos imigrantes conseguem desempenho melhor que canadenses. Apesar disso, identifica-se que os imigrantes latino-americanos têm mais dificuldade que europeus ou asiáticos. Em geral, este desequilíbrio tem a ver com a rede de contato já estabelecida no Canadá. Alguns grupos de imigrantes organizam reforços escolares para os estudantes de sua comunidade, e isso proporciona melhor desempenho. 


A sociedade tem respeito pelos professores, e também parecem compreender que é um trabalho difícil, pois eles devem ter boa relação com alunos de origens diferentes.


O conceito chave da educação canadense é o aprendizado para todos. Neste conceito está o entendimento de que cada aluno tem seu tempo de aprendizagem. Assim, ao invés dos alunos seguirem o professor, é o professor que deve seguir os alunos, percebendo o tempo de aprendizagem de cada um, suas dificuldades e talentos. Há até um programa para novos alunos, em geral imigrantes, no qual os professores os encontram e procuram compreender o contexto familiar de cada um, perceber se há algum problema, e também promovendo excursões para integrar os novos alunos na cidade.


Os educadores tem total liberdade para trabalharem com os alunos. Embora definam um currículo para cada ano, o Governo e as Províncias não possuem em roteiro de ensino para todos os alunos. Os professores atuam com criatividade, voltados para o contexto social local.


Todos os professores possuem graduação e participam de programas de desenvolvimento profissional, onde podem fazer o mestrado e doutorado. O salário é considerado bom. 


Por dia, um professor do 9o. ao 120. ano ensina em três períodos de 75 minutos, e tem outros 75 minutos para preparação das aulas. Ou seja, lecionam em três de quatro períodos.


O SENTIDO DAS AVALIAÇÕES E PARTICIPAÇÃO DOS PAIS


Há avaliação periódica dos alunos, no 3o., 6o. e 9o. anos, e também no 10o. para a graduação, o EQAO, aplicado por uma instituição independente do Ministério da Educação.  Há grande preocupação com o ensino de línguas e leitura (interpretação de textos), sem deixar de lado as artes, educação física, etc. A avaliação permite orientar os recursos para corrigir os desvios. Pretende-se ampliar o uso da tecnologia no teste para facilitar a aplicação e agilizar os resultados.


O ponto principal, porém, é procurar observar não se o aluno aprendeu, mas como o aluno aprendeu. Percepção que deve partir dos professores. Até mesmo porque as boas notas não são suficientes para ingresso na universidade, mas depende de como o estudante apresenta sua candidatura, o que ele pretende. Deve ter algo a mais.


Os pais participam da educação através do Conselho da escola, e podem decidir sobre alguns aspectos do sistema de ensino. O conselho age como um orientador do diretor. O engajamento dos pais é conquistado com a escola respeitando as necessidades dos pais de cada bairro. Por exemplo, ajustando os horários das reuniões de pais para um horário onde todos possam comparecer.


Mas ainda assim há lacunas: na aprendizagem entre meninos e meninas, ou em escolas localizadas em áreas problemáticas. Apesar da verba ser a mesma para todas as escolas, os pais trazem recursos as escolas, e aí aparecem grandes diferenças.


A CRIATIVIDADE EM UMA SOCIEDADE MULTICULTURAL


A educação canadense procura formar cidadãos globais, e para isso se ocupa com as "habilidades do século XXI", isto é, a capacidade de adaptação e a criatividade, e portanto há aspectos importantes que não podem ser medidos.


A tecnologia é uma aliada. Ao invés de ser vista como obstáculo (uso de telefones e redes sociais), os alunos são estimulados a utilizar esses recursos. Em termos práticos: os alunos podem ser cineastas no Youtube, ou líderes de opinião em blogs. O papel da escola é potencializar isso. 


Crianças e jovens são riadores ativos de cultura. Por isso a escola não ignora a bagagem das crianças, sua criatividades, brincadeiras, hábitos familiares, etc., mas procura trabalhar os conteúdos dentro dessas perspectivas.


Mais que ensinar, o sistema educacional canadense faz um trabalho de justiça social.

SINOPSE

É mesmo difícil ocupar quase 10 milhões de Km². Talvez por isso, enquanto a maioria dos países desenvolvidos fechou suas portas para os imigrantes, o Canadá sempre esteve de braços abertos. Mas não para qualquer um. Na última década, o governo vem concedendo aos estrangeiros com qualificação quase todos os direitos conquistados pelos canadenses. Incluindo ensino de qualidade para seus filhos. Uma forma de compensar a carência por profissionais especializados, especialmente por conta do envelhecimento da população e baixa taxa de natalidade. Num país com duas línguas oficiais e sem Ministério da Educação, pais de alunos estrangeiros falam se o sistema é mesmo universal e avaliam o desempenho de seus rebentos, não muito diferente dos estudantes com certidão de nascimento canadense. Especialistas discutem qual o impacto de uma política de educação descentralizada. Por lá, o que cada província decide com relação a orçamento e currículo é lei. Uma delas é a obrigatoriedade de estudar por pelo menos dez anos em grande parte do território. Falam ainda sobre monitoramento e nivelamento do desempenho das escolas, a cooperação entre elas e sobre a fórmula de incentivar as com baixo rendimento, sem castigo nem palmatória. Será que tudo isso ajudou o país a ficar entre os mais bem colocados em todas as edições do PISA e em outras avaliações internacionais? O espectador vai acompanhar de perto como se tornar professor no Canadá pode ser tão difícil quanto enfrentar o seu inverno rigoroso, apesar de ganharem salários acima da média nacional. E se essas restrições mudam a arte de ensinar e aprender. A partir do dia-a-dia de jovens estudantes canadenses, vai ser possível avaliar o papel da família e se vale mesmo a pena passar mais tempo dentro da sala de aula do que fora dela.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ideias para a Educação IV - Coreia do Sul

Por Julio Canuto




O quarto programa da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes respostas" é sobre a Coreia do Sul.

O país asiático de 49 milhões de habitantes (493 hab./km2) vive o desenvolvimento econômico preservando patrimônio cultural. Possui 8,4 milhões de estudantes, 435 mil professores, onde 95% dos estudantes concluem o Ensino Médio, e ocupa a 5a. posição no PISA. A boa colocação é atribuída a grande pressão dos pais, que gastam entre 10% e 15% com educação particular complementar a escola. Mas vamos saber como o atual modelo se originou.

EDUCAÇÃO E CRESCIMENTO ECONÔMICO

Nos anos de 1960 e inicio dos 1970, a Coreia trouxe profissionais da Educação de outros países, principalmente dos Estados Unidos para fazer uma análise do setor educacional coreano, pois não haviam muitos PhDs no país. Uma das sugestões desses especialistas foi a criação da Korean Education Development Institute (KEDI), um instituto de Educação profissional. A partir daí, professores coreanos foram enviados para cursos de mestrado e doutorado nos EUA. Com a volta deses profissionais se passou a construir o currículo. Além disso, os profissionais também receberam treinamento multimídia para auxiliá-los nas atividades de sala. Todo esse processo teve forte liderança do governo.

A gratuidade no Ensino Fundamental I e II veio em 1970, e a do Ensino Médio em 1974. Portanto, na época de difusão da Educação, porém ainda com limites na qualidade. O objetivo no momento era incluir os alunos. Desde 2000 a Coreia trabalha para melhorar a qualidade do ensino.

A Educação coreana, conforme mencionado nos parágrafos anteriores, possui dois pilares: o governo e os pais. Atribui-se o rápido crescimento econômica da Coreia, após a guerra de 1953, pelo fervor que a população coreana tem pela Educação, sobretudo para elevação do status social. Porém, outros dois fatores podem ser destacados: a disponibilidade de capital e tecnologia.

PAIS, ESTUDANTES E A COMPETITIVIDADE ACIRRADA: UM PROBLEMA SOCIAL

Os pais são muito presentes nos assuntos escolares, até mesmo na elaboração do currículo e também com trabalhos voluntários. Mas se por um lado a participação dos pais é exemplar para todos os países, a pressão deles para buscar o sucesso acadêmico dos filhos, mas melhores faculdades, cria o desejo nos alunos de irem para o MIT ou Harvard. Isso influencia até mesmo no desenvolvimento pessoal de cada estudante.

A escola na Coreia é mista. Isto é, meninas e meninos estudam juntos. Fora da escola, meninos e meninas vão a cinemas e outros locais, sempre após as obrigações escolares. No Ensino Médio, porém, estando próximos do vestibular e em uma fase da vida onde naturalmente há muitas mudanças no corpo e desenvolvimento da libido, isto constitui um problema em um país que preza a educação acima de tudo. Há pressão dos pais para separar meninas e meninos no Ensino Médio, pressão esta que é maior entre os pais dos meninos, pois estes "não são pacientes", enquanto as meninas sabem "suprimir suas emoções". O ranking escolar no Ensino Médio mostra as meninas com alto desempenho escolar, enquanto os meninos não tiram boas notas, e daí a pressão dos pais. "Isso é ridículo, não é?"

Diferente do passado, a atuais crianças coreana se dedicam muito aos estudos. Não por prazer, mas por pressão dos pais, com receio da competitividade acirrada em todos os setores da vida social, seja para entrar em uma faculdade ou no mercado de trabalho. Não há muitas liberdades no período fora da escola, o que reflete no comportamento dos alunos: a maioria tem déficit de sono e frequentemente encontram-se estressados. Estudas oito horas por dia na escola e mais algumas horas em casa, complementadas com cerca de 10 horas nos finais de semana. Os estudantes reclamam da falta de criatividade nas atividades escolares e nas longas jornadas de estudo. Algumas escolas determinam até mesmo o corte de cabelo dos alunos. A sociedade coreana exerce grande pressão sobre os estudantes. Há vários casos de suicídio entre os que não atingem as expectativas dos pais e as próprias. 

O mercado de cursos extras movimenta bilhões. Pode-se dizer que 100% dos alunos fazem cursos extras, incluindo o ensino on-line. 

Segundo Son Woong, diretor geral do Seoul Metropolitan Office of Education, as notas podem ser muito boas e por isso a Coreia  figura entre os mais bem colocados no PISA. Porém, o prazer em estudar, bem como a colaboração, a criatividade devem ser um dos mais baixos do mundo. Para mudar isso, algumas medidas estão sendo tomadas: trabalhos em grupo, debates e leitura para estimular a cooperação e a criatividade. 

"Imagine uma sociedade só de pessoas formadas em Harvard", sem esportistas, pescadores e fazendeiros. Isto não seria normal. É um problema social. Fala-se mesmo em "cultivar o lado humano dos alunos".

PROFESSORES

A concorrência acirrada da sociedade coreana também chega na carreira docente. Provavelmente, o nível dos professores coreanos é um dos mais altos do mundo. O status social de um professor na Coreia é também muito elevado. A aposentadoria é garantida aos 62 anos de idade. A população tem muito respeito pela figura do mestre, herança do confucionismo. A profissão de professor é a primeira ou segunda da preferência do povo coreano. A carga horária do trabalho é de oito horas diárias e cerca de 44 semanais. Este tempo é dividido em 19 horas semanais em classe, mais duas a três horas em atividades extra-classe com os alunos. A demais horas são reservadas a preparação das aulas. 

Todos os professores são graduados, e voltam a universidade após cinco anos de exercício da profissão, para se atualizarem nas disciplinas que lecionam. Mesmo assim, todos também fazem pós-graduação.

Enfim, a Coreia do Sul luta para promover a cooperação entre alunos. Ou como diz uma estudante no início do episódio, busca a harmonia entre homem, natureza e ciência.

SINOPSE

Primeiro o domínio japonês. E o povo superou o desafio. Depois da Segunda Guerra, os conflitos com o norte. Mais uma vez, a volta por cima. No início da década de 60, a Coréia era tão desenvolvida quanto o Afeganistão de hoje, segundo Andreas Schleicher. Se o assunto é superação, pulemos para 2010. Em apenas meio século, este mesmo país se torna um exemplo de desenvolvimento econômico e social. No último PISA, aparece com uma das melhores notas. Descobrir como a educação de qualidade se tornou uma marca da sociedade coreana é, sem dúvida, uma missão. E das mais interessantes. Descobrir o quanto podemos aprender e nos inspirar em uma cultura tão diferente é outro desafio. O programa terá como um dos protagonistas os alunos. Por meio do olhar deles, quem está em casa irá conhecer a rotina de 8 horas na escola, as tarefas de casa, a competição em sala de aula, a rigorosa disciplina e o uso da tecnologia como aliada no aprendizado. Nesse enredo, os professores muito respeitados, bem preparados e avaliados periodicamente também entram em cena, ao lado dos pais. E em especial das mães. Sim, elas têm papel importante na formação dos filhos e costumam visitar a escola de 4 a 5 vezes por ano. Para pagar o reforço escolar, fazem inclusive empréstimos. Tanta dedicação tem um preço alto. Chegam a admitir castigos físicos em sala de aula. Mas até onde se deve ir para melhorar o aprendizado? Será que a Coréia está formando adultos ricos e conscientes em conhecimento? Ou apenas profissionais qualificados e exportando mão de obra? Onde entra todo o humanismo de Confúcio nisso?

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ideias para a Educação III - Chile

por Julio Canuto


Enfim chegamos ao terceiro episódio da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes soluções", do Canal Futura em parceria com o Sesi e CNI. 

Antes, porém, quero pedir desculpas a quem eventualmente tenha começado a acompanhar os programas por este blog. Minha intenção era de postar pelo menos dois vídeos por semana, mas devidos a compromissos profissionais, acabei por não dar a continuidade desejada. Agora, porém, retomo as publicações e espero cumpri-las com a mesma periodicidade pensada no início.

O programa de hoje fala sobre o Chile. O melhor colocado da América Latina no PISA ocupa o 44o. lugar. O pais de 750 mil km2 tem 17 milhões de habitantes, com 3,5 milhões de estudantes e 150 mil professores. São 99,7% dos estudantes de 6 a 14 anos e 87,7% dos estudantes de 15 a 18 anos que estão na escola.

Logo de início, destaca-se um problema verificado em toda a América Latina, e que no Chile traz graves consequências: ha menos de cem anos a elite nacional entendia que os mais pobres não precisavam ter o mesmo tipo de Educação dos mais ricos. Ou seja, nações com cerca de 500 anos que só no final do século XIX e começo do XX começou a discutir sobre a universalidade da Educação para mulheres e população mais pobre, mas que não procurou nivelar o tipo de Educação, no que se refere a conteúdo e estrutura, recursos materiais. 

O SISTEMA EDUCACIONAL E A POLÍTICA NEOLIBERAL

O sistema educacional chileno é divido em três tipos de escolas: as particulares; as particulares subvencionadas (onde há um representante legal investidor que conta com auxílio estatal); e as públicas municipais. Esta divisão faz parte de uma política implantada a partir dos anos de 1980, de característica neoliberal que ampliou a oferta do ensino e tem procurado melhorar a qualidade, mas que teve como consequência a diminuição (ou controle) da administração educacional pelo Estado, uma vez que mais da metade dos alunos estão nas escolas particulares; e também causou uma grande segregação, já que os alunos ficam divididos entre aqueles que as famílias podem pagar muito, pagar uma certa quantia e os que não podem pagar nada. Os entrevistados, especialistas em Educação no Chile, afirmam que é o país do PISA que tem a maior segregação. Apenas nas escolas públicas há greves de professores, o que faz os pais procurarem cada vez mais as escolas subvencionadas. Além disso, a segregação impede o processo pedagógico da troca de conhecimento e saberes pelos alunos, uma vez que os dividem por nível socioeconômico, um grave problema que é alvo  da crítica de alunos e gestores entrevistados.

Sendo parte de uma política neoliberal, e portanto de uma sociedade de mercado, o valor social - simbólico - da escola pública é cada vez menor. Assim, os pais procuram as escolas particulares pelo motivo de não serem vistos como negligentes, o que na verdade tem boa dose de status: o que é mais caro é melhor.

AVALIAÇÕES

Há dois principais sistemas de avaliação da Educação no Chile: o SIMCE e o PSU. O SIMCE consiste em um teste de habilidades básicas, aplicado em todo o território nacional e nos três tipos de escolas. A mesmo prova para todos. Com isso, espera-se medir as habilidades básicas (como no PISA), o que gera um resultado bruto apesar das grandes diferenças relatadas anteriormente. Daí surgem críticas, questionamentos e desafios: 1) o desafio é elaborar uma forma sofisticada de verificar o valor agregado pela escola sobre a formação básica que os alunos trazem de casa; 2) o maior problema, então, é o desprezo pelo professor de escolas com alunos de níveis mais baixos, pois mesmo que consigam agregar valor maior que os das escolas particulares, sempre acabam abaixo no resultado bruto. Portanto, o problema apontado não está no teste em si, mas no resultado que é extraído dele. Já o PSU (prova de seleção universitária), terror dos estudantes, define as aptidões dos jovens para a carreira escolhida em um único teste. Dependendo da carreira pretendida pelo aluno, ele tem que obter determinada pontuação. Se conseguir, pode fazer o Ensino Superior gratuitamente ou até receber bolsa. Porém, se não consegue, muito provavelmente terá que escolher outra carreira.

PAIS E ESTUDANTES

A participação dos pais, no geral, deixa a desejar. Não há percepção dos pais sobre as falhas do sistema educacional, isto porque a comparam com o sistema educacional pelo qual passaram, bem inferior ao atual, o que provoca certo relaxamento, até mesmo porque não conseguem ajudar seus filhos nas disciplinas.

A visão que os estudantes entrevistados têm dos professores é bastante positiva. Consideram os docentes comprometidos com a educação e também com o que se passa fora da sala de aula e da escola. A relação é de amizade. Ainda assim, consideram que a carreira docente é para quem tem vocação, pois o salário e o reconhecimento social são baixos.

PROFESSORES

Os professores compartilham da visão dos alunos no que se refere aos baixo reconhecimento social e aos salários. Sobre o exercício da profissão, embora haja um controle sobre o conteúdo de cada ano escolar, os professores tem a liberdade para flexibilizar o conteúdo, dando enfase a determinados assuntos que considere mais relevantes. Pratica que só é prejudicada pelas avaliações que passam e, principalmente, a que os alunos passam, sempre presas ao conteúdo e não ao despertar das habilidades e capacidades para lidar com situações na vida pessoal e profissional.

Cada professor passa por uma avaliação a cada quatro anos. Há também avaliação para os que estão prestes a iniciar a carreira. Ernesto Schiefelbein, Educador e ex-Ministro da Educação, observa que os professores não estão preparados para trabalhar com alunos de baixo desenvolvimento social. As crianças de nível socioeconômico alto ou médio-alto entram na escola com cerca de 3.000 a 4.000 palavras, enquanto que as de baixo nível socioeconômico entram com 500 a 600 palavras. Uma diferença brutal que não será corrigida. Isto, diz ele, é em toda a America Latina. Não por acaso a principal preocupação dos professores entrevistados é com a compreensão da leitura, que é baixa e constitui um "problema do país".

***

Apesar disso, um dos entrevistados, gestor, ve que o Chile tem caminhado bem para sua meta de "Educação para todos", que se traduz na continuidade das políticas educacionais por sucessivos governos, o aumento do orçamento (sete vezes maior que em 1990), entre outras ações.

SINOPSE

Desde o primeiro PISA, o Chile serve de exemplo para a América Latina. Por lá, o ministro da Educação é uma das autoridades de mais prestígio e costuma ser nome forte para disputar as eleições presidenciais. Já a nota no PISA cresce, de forma consistente, desde 2000 e professor exemplar é transferido para escolas de baixo rendimento. Para entender como o país passou a liderar a educação no continente, o programa vai atravessar o portão da escola. E irá acompanhar de perto a rotina de estudantes e educadores. O espectador vai vivenciar essa história por meio do olhar de seus envolvidos. Especialistas vão apontar os acertos e o que vem mudando e o que pode mudar com os novos acordos e medidas do Estado, levantar dúvidas, mostrar se os bons salários, a premiação por desempenho, a constante avaliação do ensino e a participação da família realmente influenciaram na nota final do PISA. Os acertos e erros nesse trajeto escolar também vão ter destaque. Afinal, como diminuir as diferenças entre o aprendizado dos alunos do campo e da cidade? O que o governo tem feito para se aproximar dos índices finlandeses? O que precisa mudar? Qual a tendência para o futuro? Vamos mostrar a opinião dos estudantes e professores sobre a evolução do ensino. Com os pais e educadores tentaremos entender as diferenças entre as escolas particulares subvencionadas e as públicas. No Chile, discutir o ensino parece ser trabalho em grupo, tarefa coletiva. Tão importante quanto era para Neruda repartir o pão e o vinho.

 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ideias para a Educação II - Finlândia

por Julio Canuto

O segundo episódio da série "Destino: Educação. Diferentes países. Diferentes respostas" mostra como a Finlândia, terceira colocada no PISA, trata a Educação. 


Surpreendentemente, a organização escolar na Finlândia é até parecida com o Brasil: universalidade da educação, escolas de qualidade perto das residências (ou com transporte), refeição e material gratuito. A diferença fundamental é expressada na fala de uma estudante, quando fala sobre seu país: "as coisas funcionam como devem funcionar". 


Os entrevistados afirmam que a qualidade do ensino é muito alta e gratuita e que todos têm o mesmo padrão de ensino: 98% dos estudantes estão em escolas públicas, e mesmo as particulares devem seguir o padrão da escola obrigatória. 


Praticamente não há diferenças de classes sociais, então as pessoas não buscam a ascensão em primeiro lugar (não há grandes pressões para alcançar maior status social), nem a colocação no Ensino Superior é o objetivo maior.


Sobre a rotina dos alunos, os entrevistados relatam que não há pressão sobre os alunos pela escola e nem dos pais. O tempo na escola não é tão longo e os alunos são independentes. Até mesmo alguns pequenos problemas que temos aqui, como o uso de celular em sala de aula, é comum na Finlândia. 


Há educação especial para alunos mais fracos, e isso é tido como um dos motivos para o bom desempenho no PISA.


Especificamente sobre o sistema educacional, chama a atenção o fato de que os professores devem ter mestrado (pelo menos), norma que começou a ser implantada nos anos de 1970. Apesar disso, os salários não são muito altos se comparados com as exigências. Um professor chega a falar que sua rotina é "desgastante". Apesar disso, é um trabalho estável e por isso bastante procurado. A formação de professores é mais procurada que a de médicos, com cerca de 20 a 25 candidatos por vaga. 


Na prática do trabalho, os professores têm autonomia, e não há um controle sobre eles. Possuem poder de decisão, embora haja uma diretriz nacional.


Socialmente, a carreira de professor é bem vista. A Educação está apoiada no bom padrão de vida, em um país pequeno, igualitário, com boa qualidade no Ensino Fundamental, boa formação dos professores. Mais importante, a Educação é um fator de mobilização social, vista como único caminho para o desenvolvimento social. Porém - e também por isso - há forte preocupação sobre a possibilidade de desigualdade social, com o reconhecimento de que ainda há falhas no sistema, tais como a falta de educação continuada; cortes no orçamento; e em alguns casos, material desatualizado.


Interessante notar a característica de civilidade, típica dos países frios, na fala de um dos entrevistados: as pessoas se ajudam apesar de não serem muito sociáveis".


Por fim, vale resgatar as palavras de Pasi Sahlberg, diretor de um centro de estudos vinculado ao Ministério da Educação da Finlândia e autor do livro "Finnish lessons: what can the world learn from education change in Finland?" (que em uma tradução livre para o para o português significa "lições finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional na Finlândia?") que fala sobre alguns conceitos que norteiam a educação daquele país:


1. "A reforma educacional não foi guiada pelo sucesso escolar e, sim, pela democratização do acesso a escolas de qualidade";
2. "As crianças devem ser vistas como indivíduos que têm diferentes necessidades e interesses na escola. Ensinar deve ser uma profissão inspiradora com um grande propósito de fazer a diferença na vida dos jovens. Infelizmente, esses princípios básicos deram lugar a políticas regidas pelo mercado em vários países"
3. "Professores são profissionais de alto nível, como médicos ou economistas";
4. "A tecnologia é uma ferramenta, mas o foco continua sendo na pedagogia entre pessoas, sem tecnologia. A tecnologia não deve guiar o desenvolvimento educacional e, sim, ser uma ferramenta como várias outras.";
5. "A Finlândia é o antídoto a este movimento que impõe provas padronizadas, privatização de escolas públicas e remunera os professores com base em avaliações de desempenho que se tornou típico de diversos sistemas educacionais pelo mundo". 


SINOPSE
Papai Noel até tentou tirar a Finlândia do anonimato. Mas a região ganhou fama mesmo pela qualidade de ensino. Ali, professor para entrar em sala tem no mínimo mestrado e com a qualificação elevada veio a autonomia. O princípio de liberdade foi estendido aos alunos do ensino médio. Sim, eles escolhem o que aprender. O mais incrível é que eles gostam de aprender. A leitura é um dos passatempos preferidos dessa turma. Durante o ano, os estudantes vão cerca de 12 vezes à biblioteca. E o tempo em sala de aula não é exageradamente grande, sobra tempo pra muitas atividades... Como a Finlândia se tornou modelo de ensino para todas as nações? Atrás de respostas, o programa vai quebrar o gelo e discutir o tema com especialistas no assunto. Mas o mais importante: o espectador irá frequentar os corredores das escolas, acompanhar o dia a dia dos alunos, os seus sonhos, perspectivas e o trabalho dos educadores para manter um ensino nota 10. O papel das políticas públicas, e o papel da família também ganham destaque. Como o governo conseguiu a difícil tarefa de igualar a qualidade do ensino? Por lá, nenhum aluno fica para trás e a diferença entre as piores e as melhores escolas é mínima. Existe receita para isso? Por que a profissão de professor é a mais desejada pelos jovens, mesmo sem oferecer os salários mais altos da região? E aos melhores profissionais cabe a tarefa de trabalhar nas piores escolas. Por quê? Como eles encaram isso? Por último, a pergunta que não quer calar: quais as lições que o mundo pode aprender com os finlandeses apesar de ser um país tão diferente?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ideias para a Educação I - Xangai

por Julio Canuto


Na postagem anterior, publicada ha quase um mês, falamos sobre a Educação no Brasil, condição para real desenvolvimento da população, mas que infelizmente anda muito afastada do debate político predominante entre a chamada esquerda e direita brasileira, que no Brasil estão totalmente vazios de conceito. Na mesma postagem falei sobre a série intitulada "Destino: Educação", realizada pelo Canal Futura e o Serviço Social da Indústria (SESI), agora acrescentando que conta com com consultoria da educadora Maria Helena Guimarães de Castro e também do Todos pela Educação e da Comunidade Educativa (Cedac). Pois bem, passamos agora a postar todos os programas da série, um por postagem, com rápidos comentários e chamando a todos para a discussão, pois o objetivo da série é justamente "provocar a reflexão, não mostrar fórmulas prontas".


A equipe que realizou a série visitou seis lugares: Xangai, primeira colocada no PISA; Finlândia, o terceiro; Coreia do Sul, o quinto; além do Chile, o melhor colocado da América Latina, e do Canadá, que, com sua política de imigração integradora, se mantém entre os sete melhores. O Brasil, que ocupa a 53ª colocação, também foi pesquisado.

São sete episódios, como informa o site do Canal Futura:
"Os seis primeiros vão mostrar a realidade educacional país a país. Intimista, a série entra na sala de aula, se aproxima dos alunos, conversa com professores e vai até a casa dos estudantes para mostrar a rotina de estudos e conversar com os pais. A partir desses personagens, constrói o contexto político, histórico, social e cultural do local, além de colher depoimentos e análises de especialistas, entre eles o criador do PISA, Andreas Schleicher. No sétimo, o público acompanha um episódio mais geral para o fechamento de tudo o que se viu na série".

XANGAI, O NÚMERO 1

Iniciamos com o episódio 1: Xangai. Primeiro colocado no PISA, os entrevistados nesta cidade chinesa relatam que sua história está muito ligada a educação. Xangai é definida como uma janela para os dois lados: para quem vem de fora e quer ver a China, e pra quem é do interior e quer ver o mundo. É a prova dos progressos da China, uma metrópole internacional, uma supercidade, onde a mistura de culturas é seu traço principal.

Com as mudanças das ultimas três décadas, ocasionadas pela queda do mundo de Berlim e o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a China teve que "abrir a cabeça", abrindo suas portas para o intercâmbio de professores e alunos, tentando conhecer os últimos ideais educacionais e experiências de outros países, buscando um novo padrão a suas escolas.

No que se refere especificamente a Xangai, o padrão escolar diz respeito a área das escolas, que devem ter espaço, com prédios seguros e agradáveis; professores experientes, capazes e suficientes para bom atendimento da demanda; e boas bibliotecas. Este movimento, formado ao longo das ultimas décadas, alcançou seu padrão mínimo apenas nos últimos dez anos, momento a partir do qual busca-se elevá-lo. Dentre as principais características, fruto desta mudança, destaca-se: a) incentivo a cooperação entre escolas mais fortes e mais fracas, e não competição; b) reforma curricular focada no desenvolvimento dos estudantes, incluindo a experimentação (conhecimento vem da vida), a aplicação de métodos de organização do conhecimento; e livros didáticos feitos para que os estudantes tenham autonomia no estudos. Em essência, houve a mudança do olhar sobre as pessoas, antes vistas de maneira padronizada, sem personalidade, e agora trabalhando as diferenças individuais. 

Algumas especificidades são facilmente notadas. No que se refere as famílias, há muita rigidez e cobrança sobre os estudantes, com embate entre o estudo e o lazer. A regra familiar é priorizar os estudos. Música, passeios e outras atividades de lazer são permitidas apenas nos finais de semana e quando não há tarefas, "as vezes por apenas 15 ou 20 minutos". Ainda assim se considera uma experiência aberta. Pais entrevistados relataram que no tempo em que eram estudantes, os momentos de lazer eram ainda mais raros.

Física e Química são as disciplinas que têm a preferência dos estudantes entrevistados. A educação funciona em período integral, geralmente das 7h30min as 17h00 de segunda a quarta feira, até as 16h30min as quintas, e até as 14h00 as sextas. Para quem tem notas ruins há aulas extras na escola, e alguns pais chegam a contratar professores particulares para os domingos. Há comunicação intensa entre professores e diretores e pais dos estudantes. 

Os entrevistados consideram que a política do filho único tem influência sobre a Educação. Em geral, uma criança vivem rodeado por seis adultos em sua vida familiar (pais e avós), e isso faz com que a família de mais atenção a vida escolar dos jovens. 

No que se refere as escolas, há entendimento de que a Educação não se resume ao ambiente escolar. Todas as famílias são visitadas pela direção da escola, para entender o ambiente familiar de ensino fora da escola e o que os pais pensam da Educação. A rotina dos professores começa diariamente as 7h00 e vai até as 17h00, podendo ficar mais algum tempo se algum aluno precisar de auxílio. São duas aulas por dia, de 40 minutos cada. No restante do tempo os professores conferem os trabalhos dos estudantes (em duas horas), também preparam as aulas e reúnem-se com outros professores, atentando para aspectos a serem melhorados. Ao menos uma vez por semana professores da mesma disciplina se reúnem para relatar os conteúdos ministrados e verificarem as diferenças das turmas, com objetivo de aprenderem uns com os outros.

Professores do Ensino Fundamental possuem salário anual de R$25 mil, enquanto os do Ensino Médio recebem R$38 mil por ano. Socialmente são bem respeitados.

Atribui-se o bom desempenho de Xangai no PISA a fato de que os estudantes continuam a estudar em casa após as aulas e até nos finais de semana, e também porque os aspectos avaliados (habilidades em leitura, ciências e matemática) são os que eles são bons, mas se fossem avaliados criatividade ou potenciais pessoais, talvez não estivessem no topo.

Confiram o primeiro episódio abaixo.


SINOPSE
Com 20 milhões de habitantes, a província de Xangai, na China, até parece um país. Melhor colocada em todo mundo no PISA, tem liberdade para inovar e adaptar as rígidas regras do governo chinês e oferece uma educação de qualidade excepcional para os estudantes, inclusive os migrantes. Neste episódio, o público vai conhecer estudantes nota 10, pais exigentes e professores qualificados. Em Xangai, a dedicação ao ensino é  levada tão a sério que o Estado teve que criar leis para limitar as horas de estudo em casa. Tanto esforço tem bases históricas e culturais, principalmente na ênfase da educação como mecanismo de ascensão social ao longo da história.

terça-feira, 6 de março de 2012

Breve exemplo da distância entre o debate político e as necessidades nacionais

por Julio Canuto


No plano da política nacional, o Brasil vive da rivalidade entre PT e PSDB. Rivalidade que contagia corações e mentes, levando a debates (ou seriam brigas?) onde não se trocam idéias, mas só se defende o ponto de vista de seu time - ops, quis dizer partido - , muitas vezes em tom ofensivo, até desprovidos de razão, mesmo em espaços abertos ao livre diálogo como as redes sociais. Uma coisa, porém, todos concordam, quer seja o PT, o PSDB e os torcedores: o Brasil é um país em crescimento [1].

Somos a sexta economia do mundo, medido pelo PIB, mas ainda somos o 73o. em IDH (medido por indicadores de desempenho nas áreas da saúde, pela longevidade; educação ou conhecimento, pela média de anos de estudo da população adulta e o número esperado de anos de estudo; e rendimento ou padrão de vida digno, pela renda nacional bruta por pessoa), temos o terceiro pior índice de desigualdade social do mundo (PNUD, 2010) e ocupamos o 53o. lugar no PISA (que mede a habilidade dos alunos em leitura, ciências e matemática). O que faria o país crescer e desenvolver-se? Neste artigo, foco a atenção na Educação, com análises sobre o PISA.


CONTEXTOS DIFERENTES NA EDUCAÇÃO

A primeira postagem de 2011 trouxe este indicador, junto ao IDH e a moradia, como principais desafios do Brasil nos próximos anos. O Brasil que ficou em 53o. lugar no PISA (2009), teve o seguinte desempenho: em leitura, quase metade dos brasileiros avaliados alcança apenas o nível 1, o grau mínimo de habilidade de leitura. Em ciências, pouco mais da metade (54%) revelou entender o óbvio e tem enormes dificuldades de usar ou compreender essa disciplina (nível 1). Em matemática, a situação é ainda pior: 69% dos estudantes do País também ficam apenas no nível 1, isto é, "não conseguem ir além dos problemas mais básicos e têm dificuldades de aplicar conceitos e fórmulas. Na avaliação da OCDE, eles teriam inclusive dificuldades de tirar proveito de uma educação mais avançada" (AGÊNCIA ESTADO). Ou seja, nas três áreas, metade dos estudantes brasileiros não passaram do grau mínimo de compreensão. "Na outra ponta, apenas 1,3% dos estudantes atinge os níveis 5 e 6 em leitura, 0,8% em matemática e 0,6% em ciências". (AGÊNCIA ESTADO). 


Como se vê, estamos ainda muito distantes de uma educação de qualidade. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Há pelo menos outras duas questões a serem tratadas: o acesso e a finalidade. 


O acesso ao sistema público de educação deve ser universal e próximo a residência. Para quem mora nas periferias das cidades brasileiras é fácil notar que estes direitos muitas vezes não são respeitados. Algumas vezes pela ausência do equipamento no território, e outras por não comportar a demanda. O momento da passagem do Ensino Fundamental para o Ensino Médio é um tormento na vida de muitos pais, quando os filhos são transferidos de escolas. 


A finalidade é "o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho", e para tanto está baseado em alguns princípios e deve dar várias garantias, conforme Lei Federal 9.394/1996 e 11.700/2008. Portanto são duas as finalidades: cidadania e qualificação profissional.


Interessante estudo avalia os sistemas educacionais dos países que tiveram os melhores resultados no PISA e mostra que mesmo neste locais, há o que se corrigir. A série "Destino: Educação", iniciativa do Canal Futura em parceria com o SESI, procura "desmistificar o ranking e contextualizar as conquistas de cada país", como diz Beatriz Cardoso, consultora da série. Matéria publicada no site do CENPEC, que faz a chamada para a série, coloca alguns exemplos de desmistificação. 


Na Coréia do Sul, por exemplo, país que ficou em quinto lugar no PISA, o diretor do Instituto de Pesquisa Educacional Hanyang University, Yun-Kyung Cha, afirma que 
As conquistas dos estudantes coreanos são baseadas em uma competição implacável. A sociedade, os pais, os professores, todos torturam os estudantes para que cheguem mais e mais alto. Muitos estudantes comentem suicídio por não conseguirem atingir as expectativas dos pais e as suas próprias expectativas. Eles não estão felizes.
Em Xangai, que ficou em primeiro lugar na avaliação, Zhanf Minxuan, vice-diretor do Xhangai Education Commission reconhece que "se o PISA testasse criatividade, potenciais pessoais, talvez não estivéssemos no topo. O PISA testa apenas aquilo no qual somos fortes". 


Ja a Finlândia, terceira colocada, destoa dos outros dois países citados acima. O site do CENPEC reproduziu uma entrevista de O GLOBO com Pasi Sahlberg, diretor de um centro de estudos vinculado ao Ministério da Educação da Finlândia e autor do livro "Finnish lessons: what can the world learn from education change in Finland?" (que em uma tradução livre para o para o português significa "lições finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional na Finlândia?"). Desta entrevista deixo alguns pontos muito interessantes, que em parte coincidem com os pontos comuns dos países líderes, mas que vai mais além, abrangendo características que vão além da produção e nota. É importante destacar que Pasi Sahlberg deixa claro que as ações realizadas na Finlândia não devem ser reproduzidas por outros países, mas apenas servir apenas como aprendizado.


1. "A reforma educacional não foi guiada pelo sucesso escolar e, sim, pela democratização do acesso a escolas de qualidade";
2. "As crianças devem ser vistas como indivíduos que têm diferentes necessidades e interesses na escola. Ensinar deve ser uma profissão inspiradora com um grande propósito de fazer a diferença na vida dos jovens. Infelizmente, esses princípios básicos deram lugar a políticas regidas pelo mercado em vários países"
3. 
"Professores são profissionais de alto nível, como médicos ou economistas"; 
4. 
"A tecnologia é uma ferramenta, mas o foco continua sendo na pedagogia entre pessoas, sem tecnologia. A tecnologia não deve guiar o desenvolvimento educacional e, sim, ser uma ferramenta como várias outras."; 
5. 
"A Finlândia é o antídoto a este movimento que impõe provas padronizadas, privatização de escolas públicas e remunera os professores com base em avaliações de desempenho que se tornou típico de diversos sistemas educacionais pelo mundo". 


A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O DEBATE POLÍTICO

Dentro destes pontos se inclui o que a nossa Constituição afirma como sendo finalidade da educação brasileira, conforme citado anteriormente. A educação deve estar voltada para as necessidades dos educandos e ao mesmo tempo atualizada com a realidade nacional, no sentido de trabalhar alternativas profissionais e de vivência, sem contudo as impor.

Agora responda: estes pensamentos aparecem em alguma propaganda política? A capacitação aparece, mas apenas como formação de mão de obra, no ciclo de preparar para o mercado - trabalhar/produzir - gerar renda - consumir. 

O discurso dominante - e também midiático - conquista as mentes brasileiras e também estrangeiras. A população tem a sensação de possuir uma boa qualidade de vida pelo bom momento econômico nacional, o que promove a ilusão de que qualidade de vida é apenas consumir mais. Daí vem a confusão entre desenvolvimento e crescimento. Isso faz com que seja notório que este contexto e o discurso que o legitima, correspondam aos interesses dos que disputam o poder para nada mudar.   


Por fim, tudo isso mostra que o debate político na forma como está colocado está bem distante do debate que realmente interessa ao país. Assuntos de maior importância são tratados ou como propaganda política (maquiando números e consequências), ou como acusações de fracasso do adversário político. E quem quer que chegue ao poder vai manter as coisas mais ou menos do mesmo jeito. A crítica de um hoje, é a crítica do outro amanhã, e uma sustenta a outra.


Neste ano teremos as eleições municipais, onde elegeremos prefeitos (executivo) e vereadores (legislativo), é muito importante estarmos antenados sobre os problemas macros e os regionais e cobrar dos candidatos respostas a estas demandas. Demandas que sentimos na pele, e não as que nos são inculcadas.
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1. muitas vezes eles falam em "desenvolvimento", como se fosse sinônimo de crescimento. Mas não vou entrar nesta discussão, pois já falamos disso vários vezes neste blog.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Triste notícia na "Folha da Amargura"

por Julio Canuto.


Caros leitores, em breve este blog voltará a trazer novas postagens semanalmente. 

Enquanto isso, que tal um belo texto do sempre genial poeta Sérgio Vaz?

O texto abaixo faz parte do livro "Literatura, pão e poesia", publicado pela Global Editora. 

A interpretação é livre. Boa leitura.






FOLHA DA AMARGURA 


POETA É PRESO EM FLAGRANTE SORRISO


Neste sábado pela manhã, a tropa de elite do mal-humor, fortemente armada, conseguiu prender o poeta Augusto, 44, que estava sorrindo, sem autorização, deliberadamente em mais uma manhã terrivelmente ensolarada. Acusado de Idiota, o poeta foi enquadrado na lei nº777, denominada "Tristeza não tem fim" e imediatamente levado ao Departamento das caras amarradas, no Centro das Mágoas, em São Paulo.

O Poeta Augusto tinha acabado de acordar e saiu para uma pequena caminhada, cheio de alegria, conforme testemunhas, e começou a sorrir para todos que estavam em sentido contrário, literalmente, Foi aí que foi abordado por uma viatura que fazia ronda no local.


Antes de fugir trocou olhares sem maldades com a tropa do mal-humor e saiu em disparada pela Rua Esperança. Depois da perseguição com troca de insultos, não por parte do poeta, ele foi preso em flagrante, ainda com duas ou três risadas que iria usar mais tarde.

Ao ser interrogado Augusto não entregou quem lhe havia fornecido a alegria, e ainda revelou, de forma risonha e irônica, que ele era o dono da boca.

O mal-humor confirmou sua prisão temporária por 30 dias, e que no final da tarde o poeta será transferido para o presídio de solidão máxima, enquanto aguarda o julgamento.

O Secretário Geral das mesquinharias, Coronel José Bicudo Guerra, 98, informou em entrevista coletiva que o governo vai investir pesado na luta contra o bom-humor, e que dentro de dois ou três anos vai erradicar a alegria do país.

Da redação: vira-lata das ruas