segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Panorâmicas cariocas

por Julio Canuto

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Maracanã
Arpoador
Urca
Clube de Regatas Guanabara
Parque Lage
Café 18 do Forte - Forte de Copacabana
Forte de Copacabana

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2015 de mudanças?

por Julio Canuto

O ano de 2014 terminou. Talvez, ainda não. Aliás, há quem possa imaginar que ainda estamos em 2013. As manifestações de junho daquele ano, em princípio muito bem focadas no aumento das tarifas do transporte público, foram ganhando outras dimensões. Várias outras pautas ganharam as ruas, nas vozes de pessoas que nunca estiveram em uma manifestação e até mesmo as viam com algum preconceito. Mas o fato mais importante é que ficaram evidentes o descontentamento generalizado, bem como as divisões de nossa sociedade. 

Os grandes eventos da Copa das Confederações e Copa do Mundo acirraram os ânimos. Particularmente vejo que o brasileiro soube separar sua preferência esportiva do seu descontentamento com a situação do país - e não me refiro aqui exclusivamente ao governo federal, mas a todas as instâncias de governo nos três níveis, isto é: executivo, legislativo e judiciário; e federal, estadual e municipal. Não por acaso, o tema das eleições de 2014 foi "mudança". Até mesmo quem tentava a reeleição levantou essa bandeira. 

No entanto, os mandatos começam e a realidade de impõe. Para mudar, é preciso olhar o passado, organizar o presente e planejar muito bem o futuro, afinal o tempo de promessas acabou. Analisando os discursos de posse neste 1º de janeiro, notei que a temática da mudança, com ambiciosos planos e projetos, deu lugar outros três: reformar, apurar e organizar. Ao menos para os que iniciam seus mandatos assumindo o Estado governado anteriormente por um opositor, a mensagem transmitida é que se pretende encerrar 2013, isto é, "zerar" o descontentamento e iniciar novo ciclo, se houver tempo.  Cito, a seguir, três exemplos.

REFORMA

O discurso mais contundente foi o do governador de Mato Grosso, Pedro Taques (PDT). Além de anunciar a demissão de 2000 servidores em cargo comissionado, com a convocação de aprovados em concursos públicos, matéria da Folha de S.Paulo informa que:

 “O governador afirmou que cobrará das empreiteiras responsáveis a conclusão das 44 obras da Copa do Mundo que estão inacabadas, como o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que já consumiu R$1 bilhão dos cofres estaduais e ainda se encontra em estágio inicial de desenvolvimento” 

Leia a matéria na íntegra clicando AQUI.


APURAÇÃO

Em Minas Gerais, o governador eleito Fernando Pimentel (PT) anunciou que fará um levantamento da situação do poder executivo. Para tanto, nomeou Mário Spinelli para a Controladoria-Geral do Estado, que atuou na gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo, sendo responsável pela apuração da máfia do ISS. Disse o governador:

“Não se trata de uma mera auditoria de contas públicas. É algo muito maior e mais importante. É uma explicitação do ponto de onde estamos partindo em termos econômicos, sociais, de desenvolvimento humano e também das finanças. Mas nosso objetivo não é olhar para o passado, e sim definir o ponto de partida para o futuro” 
[...]
“Não faremos caça às bruxas. Vamos tratar o dinheiro dos cidadãos de Minas Gerais com respeito. O que tiver de ser feito será”. 

Leia a matéria do Estadão na íntegra clicando AQUI. 

ORGANIZAÇÃO

Com grande déficit nas contas públicas, o novo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), também teve o tom de zerar o passado. Estima-se que o antigo governador, Agnelo Queiróz (PT), tenha deixado o governo com uma dívida de R$2 bilhões, próximo a 15% da receita corrente líquida deste ano. Salários de servidores foram atrasados, bem como pagamento de empresas que prestam serviço ao governo. Vale lembrar que todo governo tem, no primeiro ano, o orçamento deixado pelo antigo ocupante do cargo.

 “Vamos trabalhar quatro anos para entregar uma Brasília melhor do que recebemos”
[...]
“Com certeza iremos fazer de tudo neste primeiro momento para equilibrar a economia a fim de não deixar nenhum salário atrasar”

Leia a matéria do Estadão na íntegra clicando AQUI.

Acesse as notícias sobre as posses dos governadores eleitos em todos os Estados clicando AQUI (Portal G1).

OS RUMOS DO PAÍS: EDUCAÇÃO COMO PRIORIDADE

No governo federal, a presidente reeleita Dilma Rousseff teve como grande foco de seu discurso o tema da Educação. Segundo ela, a Educação será "a prioridade das prioridades" e até mesmo o novo lema de governo faz referência a isso: Brasil, Pátria Educadora. 

Todos os outros temas tratados, de certa forma acabam passando pela educação e aqui cabe uma observação: em 2011, em seu primeiro discurso em rádio e TV, a presidente que iniciava seu primeiro mandato já destacava a Educação, porém com maior destaque para a educação profissional. Na ocasião, publiquei postagem sobre o assunto neste blog, intitulada "O futuro da Educação no Brasil", colocando minhas ressalvas. 

Além dos inevitáveis ajustes na economia e do combate a corrupção, em especial pelo vergonhoso caso da Petrobrás, Dilma anunciou, por exemplo, que aos beneficiários do Bolsa-família, "destaque será dado à formação profissional dos beneficiários adultos e à educação das crianças e dos jovens". 

Afirmou a presidente: 

“Só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero.
Democratizar o conhecimento significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis – da creche à pós graduação; para todos os segmentos da população – dos marginalizados, os negros, as mulheres e todos os brasileiros”

Mas além da continuidade e ampliação dos programas na área de Educação, a presidente também afirmou que a educação, como prioridade das prioridades, é a busca, em todas as ações do governo, de “um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano”.

Leia ou assista a íntegra do discurso clicando AQUI (matéria da Folha de S.Paulo). 

Colocar a Educação como lema do governo é um avanço, ainda mais quando se destaca a importância da Educação para além da formação profissional. Por outro lado, já há muita dúvida em relação as pessoas escolhidas para liderar essa a missão: Cid Gomes como Ministro da Educação e Aldo Rebelo como Ministro de Ciência e Tecnologia não são especialistas nas áreas. Quem dera estar enganado!

Para finalizar, a lista de compromissos de Dilma Rousseff:

***

Enfim, independente de ter votado ou não nos que hoje assumiram os cargos de presidente e governadores, espera-se o início de um ciclo de mudanças qualitativas, mas ao mesmo tempo - e necessariamente - será preciso reformar, apurar, organizar. Aliás, o debate em torno da REFORMA política precisa ganhar novo fôlego. Que tudo isso não fique apenas no discurso.  



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz 2015!

por Julio Canuto

Desejo a todos que estejamos por inteiro em 2015;
Que utilizemos todo o nosso fio da vida em 2015.

Que possamos, se nosso trabalho não for o ideal, compartilhar tempo com outras atividades. Não é necessário escolher uma ou outra atividade. O importante é dar-se tempo. Que não nos conformemos a viver só do fardo. Que você encontre seu ritmo. E que ele seja prazeroso a você.

A ultima postagem de 2015 é uma dica de documentário: TARJA BRANCA, de 2014 (disponível no Netflix).

Onde está nosso espírito lúdico? Qual o lugar do brincar nas nossas vidas?

Os remédios tarja preta parecem ser a cura imediata para ansiedade, insegurança, medo e depressão. Mas o que aconteceria se colocássemos uma dose de tarja branca no nosso dia a dia?

Por meio de reflexões de adultos de gerações, origens e profissões diferentes, TARJA BRANCA, dirigido por Cacau Rhoden e produzido pela Maria Farinha Filmes, explora o conceito de "espírito lúdico", tão fundamental à natureza humana, e sobre como o ser humano contemporâneo se relaciona com ele.

DIREÇÃO | Cacau Rhoden
PRODUZIDO POR | Estela Renner, Luana Lobo e Marcos Nisti

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO | Juliana Borges
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA | Janice D'Ávila
MONTAGEM E FINALIZAÇÃO | André Finotti
PRODUÇÃO MUSICAL | André Caccia Bava
DESENHO DE SOM | Miriam Biderman
ARGUMENTO | Cacau Rhoden, Estela Renner e Marcos Nisti
ROTEIRO | Marcelo Negri

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Entre compras e solidariedades

Regiane Santana

Imagem de Instituto Alana
 (Feira de Troca de Brinquedos)
Em meio outras coisas que o clima Natalino desperta, talvez o que mais nos saltas aos olhos, é o clima de solidariedade que se espalha por todos os cantos. Dentre eles a vontade latente* de presentear as "crianças carentes”.  

Palavras como: criança, presente e brinquedo são quase que sinônimos. Daí meu estranhamento desse comportamento aparecer somente nesta época do ano. Criança brinca todos os dias com ou sem brinquedo.  Comumente vemos pessoas divulgando em suas timelines seus feitos de presentear crianças com seus “montes” de brinquedos, vemos também pessoas procurando por Instituições carentes para “adotarem” uma criança e assim presenteá-la. Depois de escolhida a criança, começa a corrida frenética atrás dos presentes, o que era pra ser um prazer passa a ser um fardo a carregar - o que comprar? O que não comprar? Tá caro? Isso não vamos levar porque a criança é carente e não vai precisar disso! - Por mais absurdo que possam parecer essas frases, eu posso garantir que as escutei, e não foi só uma vez.

É preciso compreender que hoje em dia entregar um produto a uma criança não é mérito (e nem bondade) de ninguém. Digo produto porque se ele é destituído de prazer, ele não é mais um presente. Um presente, bem como sugere a palavra, é a lembrança naquele exato momento, ou seja, algo que é oferecida a outra pessoa como forma de carinho e atenção. 

Então não engane suas almas bondosas, pensando que mandar um presente ou entrega-lo contribui para tirar aquela criança do seu estado de carência. Acho que está claro que não sou contra presentear crianças carentes, mas que precisamos perceber mais quais são suas carências, que em geral são afetivas. Elas (as crianças) querem conversar, contar suas histórias, seus feitos durante todo um ano, o que passou na escola, o irmãozinho que nasceu, etc. Elas querem é falar, e falar também é brincar. E se for pra ser solidário, que tal OUVIR uma criança? Entre bonecas e carrinhos, com abraços e beijinhos eles gostam mais!!!

domingo, 7 de dezembro de 2014

Sobre a WEB

por Julio Canuto

Na verdade, as tirinhas a seguir são sobre comportamento na web e, principalmente, nas redes sociais. Todas de André Dahmerforam retiradas do site www.malvados.com.br, onde há muito mais sobre este e outros temas. 





 







quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Bocó


Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas na beira do rio até duas horas da tarde, ali também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia de ver aquele moço a catar caracóis na beira do rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Foi o que o moço colheu em seus trinta e dois dicionários. E ele se estimou.

Manoel de Barros

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sistema político e participação política

por Julio Canuto

A autorização de referendo ou plebiscito passa necessariamente pelo Congresso Nacional. É enganosa a ideia que está sendo colocada, como se a presidente fosse lançar, por conta própria, um plebiscito. Mesmo porque, se assim o fizesse, seria uma medida inconstitucional.
João Montanaro. Folha de S.Paulo, 01/11/2014.

O mês eleitoral foi tenso, desgastante, repugnante até. Dei uma olhada nas postagens sobre a eleição anterior, de 2010. Naquela época eu ainda tentava argumentar contra o fogo cruzado eleitoral, as trocas de acusações e, pior ainda, as mensagens preconceituosas, raivosas, contra uns e outros. Poderia usar as mesmas postagens esse ano, trocando apenas o nome do candidato de oposição. Por isso deixei de escrever neste período.

Se é verdade que, como disse o cientista político José Murilo de Carvalho na ultima semana, "a baixaria é típica de democracia imatura" e que "em matéria de etiqueta política, ainda comemos com a mão", me assusta pensar, nesta época de decisões eleitorais, que estamos regredindo, pois saímos de um período de efervescência dos movimentos populares, passamos pela construção da Constituição Cidadã, construímos um moderno sistema eleitoral, para chegarmos a um debate político dominado pelo marketing, onde as propostas de governo são o que menos importa, com projetos impossíveis de serem realizados, anunciados apenas para satisfazer os interesses dos diversos grupos políticos, econômicos e sociais. Ainda assim penso que acabado o embate promovido pelo marketing as coisas se acalmarão, pois a rotina se impõe. 

E algo que continua sem solução são as tão faladas reformas. Mais uma vez o tema da reforma do sistema político veio à tona e tomou boa parte do debate. No entanto, em  2010 ele também foi debatido. Exceto a aprovação e aplicação da chamada Lei da Ficha Limpa que, diga-se, de iniciativa popular, nada avançou. E pior, parece não avançar. Portanto, financiamentos de campanha continuarão a serem feitos por grandes empresas, que esperarão receber a contrapartida por parte do candidato eleito, dentre outras práticas que favorecem a corrupção, desvia o Estado de suas funções e geram outros problemas.

CONTRATEMPOS

A presidente Dilma passou a afirmar que colocaria a reforma política em votação popular através de plebiscito. Congressistas a criticaram, afirmando que a Câmara e o Senado, eleitos pelo povo, são representantes legítimos e por isso podem votar a reforma política. Alguns dos congressistas acreditam que um referendo seria uma medida justa.

Ao mesmo tempo que essa discussão ganhava destaque, em 28/10, a Câmara derrubou o Decreto Presidencial nº 8.243/2014, que vinculava decisões governamentais de interesse social à opinião de conselhos populares.

A mídia, muitas vezes trabalhando para a desinformação, relacionou os dois casos e está alarmando nos editoriais e nos textos de alguns colunistas (me refiro sobretudo a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo) que estamos prestes a nos tornarmos um Estado bolivariano, e que isso seria o totalitarismo (na verdade o incômodo é pela proposta de regulação ou controle social da mídia, que coloca o dedo em uma grave ferida brasileira: a concentração da mídia, mas isso já é uma outra história). 

Este fato revela muito do fazer política no Brasil, por isso vou propor a análise sob dois pontos de vista: o da representação popular e o da Constituição. 

REPRESENTAÇÃO POPULAR: CONFIANÇAS E DESCONFIANÇAS SOBRE O CONGRESSO NACIONAL, MOVIMENTOS SOCIAIS E CONSELHOS POPULARES

Sim, há razão no argumento de que o Congresso eleito é o representante legítimo da vontade popular. Está na Constituição. Na prática, porém, sabemos do descrédito que Câmara e Senado carregam. 

Uma simples pesquisa, como o Índice de Confiança Social (ICS) realizada anualmente pelo IBOPE Inteligência, mostra o nível de confiança da população com 18 instituições. E as duas instituições com menor taxa de confiança são o Congresso Nacional e os partidos políticos. Abaixo a tabela mostra os dados de 2014, em percentuais de confiança:

Você ai se lembra em quem votou para deputado e senador? Pois é, são essas pessoas que propõem e votam as leis que influenciam na sua vida. São essas pessoas que vão tratar da Reforma Política. Mas enfim, foram eleitos!

Por outro lado, e aqui retomando a questão da rejeição do Congresso Nacional do decreto presidencial 8.243/204, uma das críticas (e justificativa para a rejeição) da oposição é que os Conselhos seriam "instrumentalizados" pelo governo. Sim, a cooptação é uma marca de nosso sistema político e social, desde antes da República, do nosso fazer política que tantas vezes atrapalha nosso desenvolvimento. No entanto, se estes espaços são ocupados majoritariamente por militantes ou simpatizantes dos partidos de centro-esquerda ou esquerda, isso é resultado do histórico de construção desses partidos, de suas bases, por mais que alguns acabem deixando suas ideologias de lado, estabelecendo alianças antes impensáveis para a permanência no poder. É verdade também que há outros tantos movimentos populares que não levantam bandeiras partidárias. Portanto, os argumentos não devem ser construídos com base apenas em um lado da história. Conselhos, audiências públicas, fóruns e outras iniciativas existem aos montes pelo país, e penso que muitas vezes o problema é o inverso: a falta de efetividade dessas atividades na definição da agenda política e nas ações do executivo. 

Enfim, para finalizar esta parte, todos esses instrumentos são válidos para ampliar a participação, dentre os quais os que trato a seguir e que está no centro do debate sobre a reforma política.

PLEBISCITO E REFERENDO

Afinal de contas, o que é plebiscito e o que é referendo? Quais as principais diferenças entre elas? Porque o debate é tão intenso? Consulta popular pode se transformar em golpe? 

De fato há variadas formas de definição e até mesmo uso, ao longo da história, dos plebiscitos e referendos. O plebiscito já foi tido como sinônimo de referendo, mas também como forma de legitimar atos estatais que se concluíram em golpes. A respeito dessas variadas formas de definição de Plebiscito, o Dicionário de Política de Norberto Bobbio, nos informa que:
Assim, há quem defenda que existe Plebiscito, quando o povo delibera sobre um assunto sem ato prévio dos órgãos estatais, cuja presença caracterizaria o referendum. Mas tal definição é contestada pela existência de Plebiscitos, realizados para ratificar atos estatais, como, por exemplo, a aprovação da constituição de 22 de brumário do ano VIII, que abriria caminho ao golpe de Estado de Napoleão I (Gladio Gemma. Plebiscito. In: BOBBIO, 1998. p.927).
Fica claro, portanto, que as críticas atuais não são mera invenção, mas a retomada de uma questão que tem suas evidências históricas. No entanto, levando em consideração toda a evolução histórica do conceito, conclui Gemma:
dada a sua normal excepcionalidade, se usa mais freqüentemente o termo Plebiscito para indicar pronunciamentos populares não precedidos por atos estatais, máxime sobre fatos ou eventos (não atos normativos) que, por sua natureza excepcional, não contam com uma disciplina constitucional (idem).
Ou seja, essencialmente, o que diferencia o plebiscito do referendo é que, no primeiro caso, a população vota antes da criação do ato normativo, enquanto que no segundo a população expressa se aceita ou recusa o ato normativo já criado. 

O mais importante de tudo é o que está na Constituição (que deveria ser a primeira a ser consultada).  Está lá, em seu Capítulo IV - Dos Direitos Políticos, no Art. 14:

Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:
I - plebiscito, 
II -referendo 
III - iniciativa popular. 

Já no Título IV - Da Organização dos Poderes, em seu Capítulo I - Do Poder Legislativo, Seção I - Do Congresso Nacional, o Art.49, no item XV, deixa claro que é da competência exclusiva do Congresso Nacional (entre outras coisas) autorizar referendo e convocar plebiscito.

Portanto não há golpe, não há atropelo do Congresso. A autorização de referendo ou plebiscito passa necessariamente pelo Congresso Nacional. É enganosa a ideia que está sendo colocada, como se a presidente fosse lançar, por conta própria, um plebiscito. A afirmação da presidente de lançar um plebiscito deve ser entendido, na pior das hipóteses, como o uso político de um recurso constitucional, mas que não está ao seu alcance pura e simplesmente. Mesmo porque, se assim o fizesse, seria uma medida inconstitucional. A crítica deveria ser feita nesses termos, e não alardeando sobre o projeto de um Estado totalitário, que na verdade atende a outros interesses como exposto no início do texto. 

OPINIÃO

Particularmente penso que a reforma do sistema político, por englobar vários temas e várias visões sobre cada um desses temas, deve ser amplamente debatida (quem sabe as redes sociais se tornem uma importante ferramenta para isso?) e, neste sentido, entendo que o plebiscito seria a melhor maneira de se estabelecer os parâmetros nos quais a norma ou lei pudesse ser criada. Deixar a decisão exclusivamente a quem se beneficia do atual sistema me parece um grande equívoco.

O que espero ansioso é que este assunto não caia no esquecimento, sendo resgatado apenas em 2018, para impressionar eleitores durante a campanha presidencial. Em 2010 foi assim.

_______________________________
REFERÊNCIA

BOBBIO, Norberto, 1909- Dicionário de política I Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. - Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1 la ed., 1998. Vol. 1: 674 p. (total: 1.330 p.) Vários Colaboradores. Obra em 2v.

DALLARI, D.A. Conselhos populares e democracia participativa. Migalhas, 24/06/2014.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

VOTO SEVERINO*

Texto de introdução: Julio Canuto.

Para além das provocações e textos de altíssimo teor preconceituoso, o texto abaixo, uma crônica, é apenas para avisar aos desinformados que há, sim, racionalidade nos votos. Seja os "do sul" ou "do norte", como muito se tem falado. Se aqui a voz é do nordestino é porque considero que contra ele foram feitas as mais graves agressões. O problema, em um regime democrático, é querer impor a sua opinião sobre os demais, como se estivéssemos em um contexto em que uma parcela da população detém o monopólio da verdade, e a outra é a pura expressão da ignorância. Mais proveitoso seria se entendêssemos as racionalidades envolvidas nos processos de escolha. Por que os chamados neoliberais estiveram no poder por três mandatos? Por que os populistas estão prestes a entrar no quarto mandato consecutivo? Ser brasileiro, este que em sua origem é ninguém (que não queria ser negro e índio para não ser escravo, mas também não podia ser português), que foi jogado a sua própria sorte, é ser justamente aquele que deve superar as diferenças, aquele que tem o dever de desvendar a complexidade do que lhe constitui. A América portuguesa tornou-se um só país, oficialmente em 1822. E é um só país! Nossas diferenças não são entre regiões e estados. Nossas diferenças estão expostas em nosso núcleo familiar. E a democracia é o dissenso!


***
VOTO SEVERINO
* do matuto escrevinhadô Gustavo Rossetto.


Vem o cabra mais branco que o branco Nassau, mas longe de ser um branco como o branco que foi Nabuco, todo queixoso de que aqui pra cima o sujeito é abestado e não faz escolha direita; que lá pra baixo a terra é boa e a gente é lida e da lida, gente que ele diz que aqui pra cima não existe nem nasce. Mas o sertanejo, todo despudor e língua maior que a boca, não lhe deixou incontestado:

"Ói, cabra, que lhe digo de uma vez e uma vez só, que não me sobra muito tempo pra prosa porque a enxada tem que cavoucar fundo o massapê rachado: lhe pergunto quão negra é a dor da fome, preta toda como o céu do sertão, mas despovoada do punhado de estrela, molhada do último gosto de farinha e pelejando em não deixar o caboclo dormir; ouso falar ainda, cabra do sul, que lá a água não tem cor nem sabor, mas que teu filho tem professor e tem doutor. Não me diga, então, com a cabeça lambuzada de brilhante, que a sorte é amiga do suor, nem me diga que o caminho da tua graça foi tua mão que fez; verdade pela verdade, meu caminho já foi feito pela mão da parteira, assim como foi o teu, cabra. Deixe disso. Ave-Maria, que não me estranho com ninguém e não me ponho pra esse tipo de prosa que adoece a cabeça da gente. Mas vou lhe contar é uma história dessas que aqui teve quem não vingou pra poder ver, nem meu pai, nem minha mãe, Deus tenha junto. Veja você, se não foi obra de Padinho Ciço, foi a Virgem que botou o manto: só sei que a minha mesa se encheu e o menino virou o primeiro ano. Fez da mulher uma alegria danada, dava gosto de ver. A desacreditada da terra castigada pelo sol, que coisa, saiu da penumbra que matava mais que a carabina do poderoso Lampião. Meu menino, forte que só, veja ele ali botando o lápis e a brochura no embornal em que eu só botava semente. Se eu não fosse muito homem, corria lágrima de admirar. Quem é mais acertado pois então, eu ou tu? Se aqui se fizesse a mesma escolha que se faz lá no sul, era trazer de volta aquela sombra feita debaixo de sol, embiocada e aparecida qual tocaia de coronel, prontinha pra se alimentar. Lá pro sul, cabra, fazia dia enquanto aqui fazia noite, dois pedaços de chão separados nesse mundo. Agora que o sol deixou de castigar o sertanejo pra alumiar a sombra, não venha me pedir, não a mim que sou prova do que vivi, que eu faça a escolha lá do sul. Aproveita essa luz, cabra apessoado, e venha ver o que se tem feito desse lado. Chega de papo. Bora tomar um café agorinha passado?"



domingo, 5 de outubro de 2014

Uma cidade iluminada por resíduos não-recicláveis

por Julio Canuto

Imagem: daily geek show
Uma interessante notícia veio por e-mail - sim, ainda uso, e muito! - em uma conversa sobre recursos naturais e está publicada no site daily geek show: "Pela primeira vez na França, uma cidade é iluminada com os resíduos de seus habitantes" (a matéria, em francês, pode ser acessada clicando AQUI)

A cidade é Plessis-Gassot, e sua central de produção de energia, Electr'od, gera energia a partir do biogás, resultado da fermentação dos resíduos. 

A eletricidade produzida pela usina (130 000 MWh/ano), será capaz de abastecer cerca de 41.200 residências. Isso corresponde à produção anual de electricidade de 40 turbinas eólicas. Este é um grande passo adiante, porque com 10 motores com uma potência total de 17 MW e de 100 milhões de m3 de biogás processados ​​anualmente, a fábrica tornou-se a maior unidade francesa de produção de energia a partir do biogás. Tudo por um investimento de 16,5 milhões de euros. 

A cidade será capaz de produzir mais energia que o necessário, vendendo o excedente a  Rede de Distribuição de Eletricidade da França (Electricité Réseau Distribution France - ERDF) e utilizada por indivíduos e empresas, que passarão a se beneficiar da energia limpa e da sensível diminuição no custo. Outra contribuição do sistema é a diminuição das consequência da mudança climática, com o aproveitamento do gás metano, que quando não aproveitado contribui para agravar o efeito estufa.

Outras iniciativas como essa já ocorrem em outros países europeus. Esperamos que a ação se espalhe e se torne comum em vários países. O assunto e a tecnologia não são novas, embora ainda pouco utilizado, dado o potencial energético

Para saber de experiência da utilização do biogás no Brasil, basta uma rápida pesquisa em sites de artigos científicos. Abaixo, alguns exemplos. Clique no titulo para acessar:

COELHO, S.T., GARCILASSOV.P., VELAZQUEZ. Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás Proveniente de Aterro Sanitário – Estudo de CasoCENBIO – Centro Nacional de Referência em Biomassa.

COSTA, D.F. Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás do Tratamento do Esgoto. USP (Dissertação de Mestrado). São Paulo, 2006.

PNUD e MMA. Estudo sobre o Potencial de Geração de Energia a partir de Resíduos de Saneamento (lixo, esgoto), visando incrementar o uso de biogás como fonte alternativa de energia renovável. Arcadis Tetraplan. São Paulo. 2010.